Fabio Bucciarelli/The New York Times
Fabio Bucciarelli/The New York Times

Para a rapper italiana que usava máscara, a era das proteções faciais criou um dilema

A misteriosa Rainha da Noite de Milão estava prestes a se tornar uma celebridade. Agora, todo mundo se parece com ela

Jason Horowitz, The New York Times - Life/Style

31 de dezembro de 2020 | 05h00

MILÃO – Quando a pandemia chegou à Itália e as máscaras se tornaram escassas, Myss Keta, a misteriosa Rainha da Noite de Milão, tratou de prestar socorro. A rapper italiana, artista performática e ícone do movimento LGBTQ, coleciona uma ampla variedade de proteções faciais que ela usa há anos para ocultar a própria identidade. Então passou a distribuí-las para amigos necessitados. “Eu tinha muitas, cirúrgicas, de pano, de vinil, de seda, de todo tipo de material”, contou.

Em outubro, com o avolumar-se da segunda onda de coronavírus, a Itália decidiu tornar obrigatório o uso de máscaras em público o tempo todo: avós, políticos, administradores de médio escalão, médicos, advogados, entregadores, praticamente todo cidadão estava cobrindo o rosto.

Com isto, Myss Keta – que graças ao o uso da máscara saiu das boates do submundo e foi catapultada para o ápice da celebridade nacional, embora em incógnito, virou uma improvável expert em viver a vida atrás do disfarce cirúrgico. Mas agora está ameaçada de perder o disfarce que a define.

“Antes, era uma característica que me distinguia. Agora, é algo que todos temos em comum”, ela disse enquanto levantava a máscara negra – a camiseta preta casual de sua vasta coleção – para tomar um bloody mary no Bar Basso em Porta Venezia, o seu campo de batalha em Milão. Sob a franja loira que é a sua marca registrada, seus olhos continuavam cobertos como sempre por óculos de sol escuros Givenchy.

Antes, em geral eram apenas os fãs da primeira fileira que a imitavam usando máscaras. “Agora, todo mundo parece fã de Myss Keta”, afirmou. Atrás da máscara, a Myss continua um mistério. Cautelosas investigações sobre a sua verdadeira identidade só conseguem detalhes bibliográficos claramente fictícios que ela chama de “mitologia Myssketiana”.

“Sou sempre Miss Keta. Sempre serei eu mesma, 100%”, afirmou, e em seguida congelou em seu impermeável de couro fake que vai até os pés quando uma amiga acidentalmente deixou escapar o seu primeiro nome. “Myss Keta é a diva de Porta Venezia. Vou continuar dizendo isto até decidirem dar o meu nome a algum parque”.

Myss Keta, uma mulher de idade incerta, é um sonho de John Waters de uma estrela rap italiana. Ela apareceu pela primeira vez em 2013, como uma vênus voluptuosa saindo de uma concha no lançamento da música Milano, Sushi & Coca. A estreia, com um rap no seu estilo alegremente trash, hipersexualizado, sensual tipo desenho animado, simultaneamente venerava e ridicularizava a vida noturna de Milão.

Ela e seu coletivo de artes, Motel Forlanini, decidiram que ela deveria continuar anônima no vídeo para tornar-se “a voz de um determinado período, de uma determinada cena de Milão”, ela disse. A máscara que ela usou no primeiro show intrigou mais pessoas, e a equipe decidiu que ela deveria ficar com o disfarce.

Por cerca de dez anos, ela ocultou o rosto com todos os tipos imagináveis de máscaras, cobertas de lantejoulas, metálicas, emplumada. Chegou a usar um relógio digital sobre os olhos e uma barba do personagem de desenho animado Eufrazino sobre a papada. Nos últimos anos, ela vem tentando abandonar as raízes do seu clube de dança por algo que se aproxime do sucesso convencional.

Os seus shows lotaram; levou seus versos rap, bregas e lânguidos, para a Alemanha, tornou-se uma convidada requisitada nos programas da rádio e televisão nacional italiana, e apareceu na capa de uma revista nacional com um artigo sobre a vida noturna de Milão. Assinou um contrato com a Universal, discutiu o seu livro e identidade, e a emancipação das mulheres, com o diretor da feira do livro de Turim, a maior da Itália.

No ano passado, colaborou com alguns dos cantores pop e rappers mais reconhecidos do país. Disse que se sentia levada pela onda da popularidade para um ano de sucesso estrondoso. Ao contrário, na crista da onda com máscara e tudo esbarrou em um lockdown. “E isto freou o projeto Myss”, concluiu.

Em setembro, lançou a sua primeira música e vídeo da era da pandemia, em que dança selvagemente sozinha em um campo aberto com a indefectível máscara. (“A mais diligente de todos”, falou.”) Mas com as máscaras onipresentes, ela e seus colaboradores começaram a pensar em um novo truque, em outra maneira de manter o anonimato”. Como alternativas, ela pensou em um capacete de motocicleta, maquiagem extrema ou “modificações protéticas”.

 

A obrigação do uso da máscara, afirmou, “acelerou” o impulso para frente. Mas enquanto procura um novo look, continua sendo uma das maiores autoridades da Itália no uso incessante da proteção facial. Em termos pragmáticos, ela disse, as máscaras cirúrgicas são as melhores para falar. Para se apresentar, a cantora de Burqa de Gucci, prefere a “burca com cachos”. Ela aprendeu que a máscara pode modificar o equilíbrio de poder e quem a usa. E observou que os seus fãs que usam máscaras também se sentem mais livres e mais autênticos.

Entretanto, vestir-se para uma noite muito louca fora, é diferente de respirar atrás de uma proteção facial que filtra as partículas. Pelo menos, afirmou, as primeiras conotações negativas da máscara – relacionadas a doença, hospitalização e ansiedade hipocondríaca – se transformaram em respeito pelo outro e em uma possível fonte de expressão, numa explosão de cores, tecidos com o nome da marca. No começo da epidemia, acrescentou, ela mesma tirou as máscaras com a marca Myss Keta a fim de evitar a exploração da tragédia.

Mas sendo uma pessoa que, há sete anos, não tira a própria máscara fora do seu apartamento, ela também lamentou com a população italiana o ingresso em uma nova realidade sufocante. “Eu sei, pessoal, é um sofrimento. Eu sei o que é isto – não é fácil”, ela disse. “Vocês precisam se acostumar”.

A pandemia também marcou outros destacados mascarados italianos. Poucos dias antes de a Itália decretar o fechamento das cidades, o popular artista napolitano Liberato, que há três anos esconde a própria identidade, lançou um vídeo com a sua música We Come from Napoli.

No vídeo, Liberato e seus amigos mascarados pretendem parecer ameaçadores espreitando o porto de Nápoles enquanto jogam cartas, picham paredes e comem carne de porco. No entanto, na pandemia, esta parece apenas uma terça-feira qualquer. “Hoje, é estranho ver estas imagens”, afirmou Francesco Lettieri, um parceiro de Liberato que dirigiu o vídeo. “Tudo isto se tornou perfeitamente normal”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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