Justin Kaneps/The New York Times
Justin Kaneps/The New York Times

A música se torna visível cantando com a linguagem de sinais

Projeto está produzindo covers em língua de sinais de dez importantes obras gravadas por artistas negras

Corinna da Fonseca-Wollheim, The New York Times – Life-Style

07 de maio de 2021 | 05h00

Recentemente, em um estúdio repleto de luzes no Brooklyn, em Nova York, Mervin Primeax-O’Bryant e Brandon Kazen-Maddox estavam gravando um vídeo de uma versão para cover de Midnight Train to Georgia, mas as vozes que enchiam a sala eram de Gladys Knight e dos Pips, que tornaram a canção um sucesso nos anos 1970. Entretanto, os dois homens no estúdio também estavam cantando – com as mãos.

Primeaux-O’Bryant é um ator deficiente auditivo e bailarino, Kazen-Maddox é um bailarino ouvinte e também coreógrafo que, graças a sete membros surdos da sua família, é falante nativo na Língua Americana de Sinais (ASL). A sua versão de Midnight Train to Georgia faz parte de uma série de dez músicas de covers em ASL de obras importantes cantadas por artistas negras, que Kazen-Maddox está produzindo para a Broadstream, uma plataforma de artes do palco em streaming.

Em todo o mundo, a música une comunidades ao contar suas histórias essenciais, ensina inteligência emocional e sedimenta um sentido de pertencimento. Muitos americanos conhecem a língua de sinais por causa de momentos como o Super Bowl, quando um intérprete de língua de sinais – cantou – de certo modo – o hino nacional ao lado de uma estrela pop.

Mas como vídeos de música em língua de sinais proliferam no YouTube, onde suscitam comentários de um público surdo e ouvinte, a riqueza da língua americana de sinais ganhou um palco bem maior.

“A música é coisa diferente para pessoas diferentes”, disse Alexandra Wailes, uma atriz surda e bailarina, em uma entrevista em vídeo, usando um intérprete. Ela interpretou The Star-Spangled Banner no Super Bowl de 2018, e no ano passado obteve milhares de visualizações no YouTube com a sua contribuição, em língua de sinais, de Sing Gently, uma obra de Eric Whitacare.

“Eu percebo", acrescentou, “que quando você ouve, o fato de eu não ouvir poderia nos separar. Mas qual é a sua relação com a música, com a dança, com a beleza? O que você vê que possa me transmitir? Atualmente, as pessoas precisam se acostumar a ter este tipo de conversação”.

Uma boa apresentação de ASL prioriza a dinâmica, o fraseado e a fluência. Os parâmetros da língua de sinais - formato das mãos, movimento, local, orientação das palmas e expressão facial – podem se combinar com elementos de vernáculo visual, um conjunto de gestos codificados, permitindo que um exímio falante em ASL se expresse com o tipo de pintura sonora que os compositores usam para enriquecer um texto.

Em uma recente filmagem de vídeo, a voz de Gladys Knight ressoava de um grande alto falante enquanto outro bem menor estava enfiado nas roupas de Primeaux-O’Bryant, para que ele pudesse “sentir concretamente a música”, ele disse em uma entrevista, com a interpretação de Kazen-Maddox. Fora da câmera, um intérprete estava pronto para traduzir qualquer instrução da equipe, toda composta por ouvintes enquanto um laptop mostrava a letra da música.

Na canção, os cantores backing vocal – aqui personificados por Kazen-Maddox – estimulam Knight a se recompor para encontrar o amante, que voltou para a Geórgia. Na gravação original, os Pips repetem a frase “todos a bordo”. Mas como Kazen-Maddox a traduziu passaram a evocar os movimentos do trem e de suas engrenagens. Um apito invisível corresponde aos ‘woo-woo’ dos trompetes da banda. Primeaux-O’Byant indicou às vozes principais com movimentos que estendem suavemente as palavras; como no “oh” da canção de “não faz muito tempo oh-oh”, suas mãos flutuavam no seu colo. Os dois homens incorporaram também sinais da Black ASL (dialeto da ASL ligado à comunidade afro-americana).

“As mãos têm suas próprias emoções”, disse Primeaux-O’Bryant. “Elas têm sua própria mente”.

Os cantores surdos se preparam para as suas interpretações experimentando uma canção por todos os meios à sua disposição. Muitos falam inclusive no aumento de sua receptividade às vibrações do som, que sentem através do corpo. Como bailarino treinado no balé, Primeaux-O’Bryant disse que está particularmente sintonizado com as vibrações de um piano transmitidas através de um piso de madeira.

Primeaux-O'Bryant estudava na Escola Secundária Modelo para Surdos quando um professor pediu que ela falasse em sinais a letra de uma música de Michael Jackson no Mês da História dos Negros. A sua primeira reação foi recusar.

Mas o professor conseguiu “arrancar o consentimento dele”. E ele foi empurrado para o palco diante de um grande público. Então, contou: “As luzes se acenderam. Recebi a minha deixa e eu explodi e falei a obra em sinais: ficou boa”. Depois o público respondeu com aplausos: “Eu me apaixonei pela apresentação no palco”.

A pandemia obrigou a uma interrupção brusca das músicas ao vivo porque se imaginava que os corais podiam espalhar o coronavírus. Em resposta, o Coro da Rádio Holandesa e a Orquesta Filarmônica da Rádio se apresentaram para dar a sua colaboração a uma elegia em sinais, My heart sings on, em que a voz lamentosa de uma serra musical tocando gestos líricos de Ewa Harmsen, que é surda. A ela uniram-se os membros do Coro da Rádio, que haviam aprendido alguns sinais para a ocasião.

“Tem mais sentido quando eu canto com as minhas mãos”, disse Harmsen em uma entrevista por vídeo, falando e cantando em holandês com a presença de um interprete. “Também amo cantar com a minha voz, mas não é bonita. Meus filhos falam “Não cante, mamãe! Não com a sua voz”.

Somente os que deveriam ser encarregados do processo de tornar a música visível podem ter questões polêmicas. Falando entre as tomadas da filmagem no Brooklyn, Primeaux-O’Bryant disse que alguns vídeos de música criados para falantes-ouvintes da ASL carecem de expressividade e conseguem transmitir pouco mais do que as palavras e o ritmo básico.

“As vezes, os intérprete não mostram as emoções que estão ligadas à musica. E os surdos perguntam: O que é isto?”

Os dois falaram da influência do treinamento do balé na qualidade dos seus sinais, Kazen-Maddox falou que quando começou a fazer aulas de balé, mais ou menos com 20 anos, os seus sinais se tornaram mais graciosos.

“Há um port de bras, que somente  se aprende com o balé, e eu  estava realmente procurando esculpi-lo no meu próprio corpo”, afirmou. “Então percebi que a minha língua de sinais, que falei a vida toda, se tornava mais compatível com a música”.

Wailes também, que atribui a sua musicalidade ao estudo da dança, afirma: “Estou um pouco mais sintonizada  com a sensibilidade em geral dos outros da consciência espacial do um corpo”, disse. E acrescentou: “nem todos são bons cantores, certo? Então eu acho que você deveria fazer uma analogia também para os intérpretes de sinais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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