Alysse Gafkjen/The New York Times
Alysse Gafkjen/The New York Times

Yola amplia seu poder na música com novo disco

Depois de chamar atenção com indicações no Grammy de 2020, cantora de country-soul lança trabalho mais otimista e colaborativo

Jeremy Gordon, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 05h00

Cálculo é difícil. Fazer baliza é difícil. Conhecer pessoas que não se parecem com você e trabalhar com elas – isso é moleza. "É. Muito. Fácil", enfatizou a cantora e compositora Yola durante uma ligação recente, batendo palmas entre cada palavra. "Vim literalmente de outro continente e resolvi isso em seis meses. Até meu empresário, de um lugar remoto na Inglaterra, encontrou compositores não brancos para trabalhar comigo."

A indústria da música prometeu no ano passado que enfrentaria suas desigualdades, depois do assassinato de George Floyd e de décadas de queixas de que um negócio baseado no poder criativo de pessoas de cor nem sempre as empoderou. Yola, artista country-soul de 38 anos que chamou a atenção com uma série de indicações ao Grammy de 2020, disse que a solução é óbvia.

"Quando você começa a sentir na alma que alguma coisa está faltando, e que isso parece nojento e estranho, saia para a rua, vá a bares com seus amigos e converse com as pessoas. Na verdade, peça para trabalhar com pessoas diferentes e contrate pessoas diferentes – e, ao trabalhar e incorporar isso em sua vida, você terá um monte de pessoas não brancas ao seu redor", afirmou ela, com a voz melíflua cada vez mais acelerada.

Esse tipo de pensamento sobre grandes problemas – e maneiras de corrigi-los – entrou em Stand for Myself, o novo álbum de Yola, lançado na sexta-feira passada, enquanto ela lidava com outro conjunto de desafios consideráveis: superar um LP de estreia indicado ao Grammy durante uma pandemia.

Yola e seu produtor Dan Auerbach, o guitarrista do Black Keys, gostam de elaborar as canções presencialmente, por isso a equipe passou por diversos testes de coronavírus. Ela estava morando com uma amiga – a cantora e compositora Allison Russell – depois que a repentina paralisação das viagens a deixou fora de casa. Ela até se acostumou a se iluminar ao se apresentar no Zoom. "O primeiro dever de casa da pandemia foi aprender a lidar com a tecnologia", ela brincou.

Mas encontrar um caminho foi o que Yola fez durante toda a sua carreira musical, que começou quando era adolescente. Nascida Yolanda Quartey, em Bristol, na Inglaterra, ela trabalhou com grupos como o coletivo de dance music Bugz in the Attic e com o Massive Attack, enquanto procurava meios para produzir sua música. "Não havia esse histórico maravilhoso de mulheres que se pareciam comigo no Reino Unido. Não é que não houvesse um monte de artistas com potencial – o problema era que ninguém investia nessas pessoas."

Um momento crucial veio em 2018, quando Yola se mudou para Nashville, no Tennessee, para trabalhar com Auerbach, dono e diretor do Easy Eye Sound, selo especializado em artistas americanos fora do eixo. "Quando entra em uma sala, ela a ilumina. Tem uma capacidade incrível de se conectar com as pessoas", comentou Auerbach ao telefone. A colaboração resultou em Walk Through Fire, álbum que rendeu quatro indicações ao Grammy, incluindo artista revelação. (Ela perdeu para Billie Eilish.)

Walk Through Fire foi elogiado por sua fusão do soul do Memphis com o country de Nashville, impulsionado pela voz poderosa de Yola. Mas foi guiado firmemente pela familiaridade de Auerbach com seu ambiente e pela falta de familiaridade de Yola com o dela. Yola não escolheu nenhum dos coautores das faixas do álbum; ela nem sabia que haveria coautores até entrar no estúdio. Embora Auerbach tenha trazido lendas locais como Dan Penn e Bobby Wood, era difícil não notar que todos os compositores na sala eram não apenas mais velhos, mais brancos e mais masculinos, mas também americanos. "Fiquei pensando: 'Sou uma negra da Inglaterra; vamos ter de encontrar um meio-termo aqui'", disse ela.

Antes da pandemia, Yola tinha acabado de filmar o mais recente filme biográfico de Elvis Presley, dirigido por Baz Luhrmann – ela interpreta a progenitora do rock, Sister Rosetta Tharpe –, e estava se preparando para uma turnê com Chris Stapleton. A folga forçada permitiu que ela descobrisse como dar um salto significativo para a frente.

"Percebi que eu tinha andado muito ocupada para ser criativa; quase matei essa parte do meu cérebro por excesso de atividade. A tranquilidade deu origem a muitas ideias e, assim, comecei a refletir sobre o que estava trazendo essas ideias de volta. Isso significou fazer muitas experimentações com meu processo de composição – ficar acordada até muito tarde, até ficar atordoada –, e, quando eu não estava pensando demais e meu cérebro não processava mais nada, as ideias simplesmente apareciam", contou ela.

Com um entendimento melhor das habilidades um do outro, Yola e Auerbach planejaram fazer um álbum mais otimista, a fim de mostrar sua voz no retorno dos shows ao vivo. E, depois de conhecer seu novo ambiente nos últimos anos, Yola estava segura para assumir o controle: recrutou compositores negros e asiáticos, envolveu-se mais na escolha dos músicos e retomou várias músicas que estavam na gaveta para terminá-las com a ajuda de seus colaboradores. A animada Break the Bough, por exemplo, começou a ser composta em 2013 e foi concluída com a ajuda de Auerbach e da compositora veterana Liz Rose.A compositora Natalie Hemby, que anteriormente colaborou com Yola no grupo Highwomen e trabalhou em várias das canções do novo álbum, disse que Yola estava totalmente aberta às ideias: "Ela é capaz de pegar uma música horrível e torná-la incrível. É um pouco intimidador – sempre que você tem uma ideia que acha ótima, ouvi-la cantar faz você ter vontade de chorar."

A chegada de Yola a Nashville coincidiu com a lenta diversificação da indústria da música country, depois de décadas de padrões muito específicos (e tradicionalmente brancos). "Ela não poderia estar aqui em melhor hora. Muitas pessoas nesta cidade estão ansiosas por este tipo de mudança", observou Hemby.

Stand for Myself parte das mesmas receitas do som tipicamente americano do primeiro álbum de Yola, mas também está cheio de influências disco e pop. Uma música exuberante e descolada como Dancing Away in Tears flui para a mistura estridente de Diamond Studded Shoes, que foi inspirada por sua repulsa às políticas de austeridade da ex-primeira-ministra britânica Theresa May. As letras falam de romance, mas também de sua origem tumultuada – sua mãe não apoiou sua carreira e Yola ficou sem ter onde morar por algum tempo na adolescência –, e da luta para se afirmar musicalmente em ambientes que muitas vezes não ligavam para o que ela tinha a dizer.

"Este tem sido um verdadeiro período de transição na minha vida, e estou passando da 'Yola capacho' para a nova 'Yola com agência'", disse ela. Essa afirmação exigia uma aceitação crescente de que ela não poderia fazer tudo sozinha: "O lugar-comum da 'mulher negra forte' é projetado para mantê-la em uma posição servil. Se você se atreve a ser ousada o bastante para dizer 'quero crescer', vão aparecer muitas pessoas que desejam desesperadamente desfazer seu esforço."

O desejo de uma comunidade significativa se manifesta mais obviamente em Be My Friend, balada de parar o show que apresenta a integrante das Highwomen, Brandi Carlile, nos vocais de apoio. "Ninguém canta como ela. Ela está caminhando pelo mundo, projetando uma perspectiva muito forte que é poderosa e realmente necessária", comentou Carlile.

Durante nossa conversa, Yola enfatizou que, não importa quão acentuada seja nos EUA, a atual divisão racial é muito diferente na Inglaterra, onde muitos temas fundamentais ainda não são debatidos: "A razão pela qual parece que todos estão lutando neste país é o fato de que realmente há uma luta sendo travada." A diversificação de seus colaboradores ajudou a mitigar uma desigualdade histórica no ambiente de trabalho, mas havia uma lógica emocional mais ampla orientando sua decisão – uma tentativa de ampliar o diálogo musical e incluir o máximo de pessoas possível: "Não é que você não possa escrever músicas incríveis com pessoas que são diferentes de você. Mas às vezes é preciso escrever sobre uma experiência muito específica. Você precisa de todos, e é isso que realmente quero levar adiante em tudo que estou fazendo. Todo mundo pode entrar no meu clube."

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