Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Musical sobre mulheres guerreiras desafia tradicionalismo muçulmano

A ousada iniciativa do musical "Forty Girls", sobre resistência feminina, representa a luta do Usbequistão para se livrar de um brutal legado de repressão

Andrew Higgins, The New York Times

11 Abril 2018 | 10h00

TASHKENT, USBEQUISTÃO - Reunidos em uma sala de concertos em Tashkent, a capital do Usbequistão, oito mulheres e um homem ensaiavam um musical que narra uma antiga lenda épica, intitulado “Forty Girls”.

A história tem mais de 2 mil anos, mas o tema é extraordinariamente contemporâneo. Ela conta como um bando de mulheres guerreiras dos desertos da Ásia Central resistiu à ação de agressores que queriam se apoderar do seu território. No final, todas as mulheres morrem, mas não se submetem.

A nova versão de “Forty Girls”, em que se misturam vídeos, canções e música moderna e tradicional, é uma corajosa iniciativa em um país muçulmano. E principalmente no Usbequistão, que luta para se livrar do legado da brutal repressão do presidente anterior, Islam Karimov, que governou o país desde a independência, em 1991, até a morte em 2016.

Karimov deixou tão pouco espaço para uma atividade criativa independente que muitos artistas usbeques pararam de trabalhar ou emigraram, como Saodat Ismailova, a criadora e diretora de “Forty Girls”. Ela passou a maior parte dos últimos dez anos em Paris com o marido e a filha, mas recentemente regressou a Tashkent para ensaiar o espetáculo, que será exibido na capital do Usbequistão depois de ter sido apresentado em Nova York, no mês passado.

Financiado pela Aga Khan Music Initiative, o programa abandonou o Usbequistão quando o governo de Karimov tomou o rumo da repressão, nos anos 2000.

O musical, segundo Ismailova, que é também realizadora cinematográfica, “romperá com todos os clichês sobre as nossas culturas” - e lembrou ao público americano que “o poder das mulheres” tem uma longa história.

Ismailova extraiu uma lição fortemente feminista de “Forty Girls”, uma lenda que desde o início era transmitida oralmente. Por fim, graças ao trabalho de um poeta e etnógrafo russo, que compreendia o karakalpak, língua falada pelos contadores de história do Usbequistão ocidental que recitaram o épico durante gerações, ela foi impressa no papel na era soviética.

“Se você a ler atentamente, verá que todos os problemas começam com os homens”, explicou Ismailova. “É uma memória profundamente arraigada em nós desde um passado muito distante”.

Seu fascínio por “Forty Girls” - “Qyrq Qyz” - começou por acaso durante uma ida a uma livraria, em 2012. Enquanto olhava os títulos, ela se deparou com uma tradução russa do épico de Arseny Tarkovsky, o pai etnógrafo do famoso realizador soviético Andrei Tarkovsky. Ismailova lembrava vagamente de ter ouvido a história na infância, mas a tradução russa trouxe a imagem clara de uma lenda que desde então ocupa a sua vida e o seu trabalho.

A lenda das mulheres guerreiras é muito anterior à chegada do Islã à Ásia Central, na metade do século 8º, e apesar dos esforços de alguns pregadores islâmicos para calar sua mensagem, o épico sobreviveu graças aos contadores de histórias tradicionais e à cultura transmitida com grande parte pela população nômade. 

“Os nômades adotaram o Islã de formas sincréticas que assimilaram e preservaram miríades de práticas e crenças, muitas das quais relacionadas à veneração de espíritos e a várias formas de xamanismo”, diz Ted Levin, um musicólogo e especialista em culturas da Ásia Central no Dartmouth College, em New Hampshire, que contribuiu para promover a cultura da região no Ocidente.

“Forty Girls”, cujas primeiras narrativas datam do século 6º a.C., gira em torno de Gulaim, uma moça de 15 anos que rejeita o casamento e reúne ao seu redor 40 amazonas com a mesma visão de mundo. Elas vivem em uma ilha no Mar de Aral, outrora localizado no interior da Ásia, na Karakalpakia, uma remota região desértica na parte ocidental do atual Usbequistão, que deixou de existir.

A música do espetáculo foi composta por Dmitri Yanov-Yanovsky, um músico nascido no Usbequistão que já ocupou o cargo de compositor residente na Universidade Harvard. Ela contém antigas melodias populares ligadas em uma espécie de colagem, como ele a descreve, “de formas musicais ao mesmo tempo modernas e tradicionais”.

Yanov-Yanovsky não considera esta produção um manifesto feminista, mas uma parábola aberta a diferentes interpretações. “Se o público fica com muitas indagações, acho que então tivemos sucesso”, afirmou. “Quanto mais indagações, mais felizes nos sentiremos”.

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