Susan Wright para The New York Times
Susan Wright para The New York Times

Mutação genética faz pessoas se sentirem saciadas

Estudo foi chefiado por professores da Universidade de Cambridge

Gina Kolata, The New York Times

14 de maio de 2019 | 06h00

Os sujeitos dos estudos sempre foram magros. Nunca comiam muito, nem estavam obcecados com a próxima refeição. Agora, os pesquisadores da Grã-Bretanha poderão saber por que. Eles carregam uma alteração genética que reduz o apetite. Também reduz suas chances de ficarem diabéticos ou cardíacos.

O estudo, publicado no mês passado na revista especializada Cell, baseou-se em dados do Biobank da Grã-Bretanha, que inclui meio milhão de pessoas dos 40 aos 69 anos. Um segundo estudo, publicado no mês passado na revista, usou dados desta população a fim de obter uma pontuação de riscos genéticos relativa à obesidade. Ela permite prever, desde a infância, quem está em grave risco de se tornar obeso.

Juntos, os dois estudos confirmam uma verdade. Existem razões biológicas pelas quais alguns indivíduos lutam assiduamente com o próprio peso, enquanto outros não, e os impactos biológicos muitas vezes são vistos no apetite, e não no metabolismo. As pessoas que ganham peso excessivo ou lutam para se manterem magras sentem mais fome do que as naturalmente magras.

O estudo sobre a mutação que reduz o apetite foi chefiado por Sadaf Farooqi, professora da Universidade de Cambridge, e Nick Wareham, um epidemiologista da mesma escola. O estudo baseou-se na pesquisa de Farooqi sobre um gene, o MC4R. As pessoas com mutações do MC4R tendem a ser obesas. Os pesquisadores registraram até 300 mutações por dia deste gene, e elas são a causa mais comum da obesidade. As mutações do gene aparecem em 6% das crianças com obesidade grave.

Os pesquisadores concluíram que as mutações destroem a saciedade, a sensação de satisfação depois de uma refeição. Normalmente, quando as pessoas consomem uma refeição, o gene é ativado e envia um sinal que diz às pessoas que elas estão satisfeitas. Depois ele é desligado. 

Entretanto, algumas outras carregam uma mutação do MC4R que impede que o gene funcione. Elas nunca recebem o sinal. Estão sempre famintas e muitas vezes acima do peso. O risco de sofrerem de diabetes e de uma doença cardíaca é 50% superior ao das que não apresentam tal mutação.

No novo estudo, Farooqi e outros constataram que, em alguns indivíduos magros, o gene MC4R está sempre ativado; elas se sentem sempre satisfeitas. Cerca de 6% da população tem estas mutações. “O MC4R é um importante instrumento de controle do peso, senão o mais importante”, ela afirmou. A pesquisa poderá conduzir à produção de medicamentos que protejam contra a obesidade.

No outro estudo dos dados do Biobank da Grã-Bretanha, Amit V. Khera, cardiologista do Massachusetts General Hospital e outros buscavam uma maneira de prever, em uma imensa coleção de minúsculas variações do DNA, quem está destinado a lutar com o peso. Os cientistas montaram uma pontuação de risco de obesidade  baseada em alterações do DNA. As pessoas com as maiores pontuações pesam 13 quilogramas a mais, em média, do que as que têm pontuações menores. Entre os muito obesos, 60% tinham uma pontuação elevada.

Mas a população do Biobank da GB era composta por adultos. Os cientistas fizeram então outros estudos genéticos. No nascimento, os bebês com escores elevados tinham o mesmo peso dos bebês com escores baixos, constataram os cientistas. Aos três anos e meio, estas crianças eram mais pesadas.

Aos 8 anos, já eram obesas, e no final da adolescência pesavam em média 13 quilogramas acima das que tinham baixas pontuações de risco. “Estes oito anos podem ser mágicos e dar-nos uma oportunidade única de fazer a diferença”, disse Joel Hirschhorn, geneticista do Boston Children’s Hospital. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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