Minzayar Oo para The New York Times
Minzayar Oo para The New York Times

Myanmar interrompe acesso à internet e desperta temores de abusos

País teve reputação muito afetada pela contínua agressão do seu exército, principalmente contra minorias étnicas

Hannah Beech e Saw Nang, The New York Times

12 de julho de 2019 | 06h00

RATHEDAUNG, MYANMAR - As forças de segurança em patrulha vasculharam as colinas verdes percorridas por membros de uma insurgência étnica. Uma cratera na estrada confirmava a habilidade dos rebeldes na produção de explosivos. O estado de Rakhine, na costa oeste de Myanmar, é geralmente isolado, afetado pelo combate de guerrilhas e operações de limpeza étnica que ocorrem longe da atenção internacional. Agora, uma interrupção no acesso à internet que teve início no dia 21 de junho praticamente rompeu os elos de várias partes do estado com o mundo exterior.

O blecaute, ordenado pelo ministério dos transportes e comunicações, foi implementado “para o bem da população", disse U Myo Swe, engenheiro-chefe do ministério. Interrupções no acesso à internet ou às redes sociais forçados pelo governo são frequentemente considerados necessários para silenciar o tipo de rumor que leva linchamentos virtuais a se tornarem catalisadoras de linchamentos reais.

Mas esse tipo de embargo das telecomunicações pode ser projetado para calar membros da oposição política, ou prejudicar comunidades vulneráveis em áreas de conflito. “Estou preocupado com um possível aumento nas violações dos direitos humanos durante o bloqueio à internet", disse U Aung Thaung Shwe, parlamentar de uma cidade no norte do estado de Rakhine, onde civis foram mortos conforme se intensificaram as hostilidades entre o grupo étnico de Rakhine e o exército de Myanmar.

O país teve sua reputação muito afetada pela contínua agressão do seu exército, principalmente contra minorias étnicas. Desde 2017, mais de 700 mil muçulmanos da etnia Rohingya foram expulsos de Myanmar. O massacre cometido pelo exército de Myanmar é auxiliado por linchamentos de budistas de Rakhine.

Este ano, outra insurgência étnica explodiu em Rakhine. O Exército Arakan, grupo armado étnico de Rakhine que afirma contar com sete mil soldados, lançou ataques fatais contra soldados de Myanmar. A resposta do exército de Myanmar tem sido feroz, de acordo com os grupos de defesa dos direitos humanos: crianças massacradas, detenções arbitrárias e a destruição de monumentos históricos.

O bloqueio à internet em Rakhine foi mais uma vez atribuído aos excessos nas redes sociais, disse o general de brigada Zaw Min Tun, porta-voz do exército de Myanmar. “Há ódio racial em Rakhine por causa do discurso de ódio e da propaganda nas redes sociais". Depois que boa parte da população muçulmana do estado foi obrigada a abandonar seus lares, as autoridades de Myanmar prometeram reformar Rakhine com novos investimentos. Os novos combates nublaram as perspectivas econômicas do estado.

“O governo diz que a interrupção no acesso à internet é para o bem da população, mas não vejo nenhum benefício para a população", disse Kaung Mrat Naing, morador da comunidade de Maungdaw, no norte de Rakhine. “Isso só causa problemas para as pessoas.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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