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Na África, antigas árvores reverenciadas estão morrendo

A morte do Baobá de Chapman, em 2016, foi tratada como uma tragédia nacional em Botsuana

Rachel Nuwer, The New York Times

28 Julho 2018 | 11h00

No dia 7 de janeiro de 2016, um grupo de turistas se preparava para visitar o Baobá de Chapman, uma das maiores árvores e das mais antigas da África.

Durante muito tempo, ela foi um verdadeiro marco, usado por David Livingstone. A cavidade no interior dos seus troncos - cuja circunferência externa tinha mais de 25 metros - serviu como um dos primeiros escritórios dos correios do continente. Botsuana considerava a árvore um monumento nacional e o promoveu como atração.

Enquanto os visitantes se aproximavam do local, naquele dia, ouviram um estalo muito forte. O Baobá de Chapman havia rachado. A árvore tinha cerca de 1.400 anos; no país, foi decretado luto nacional. 

Este acontecimento não foi isolado. Em toda a África, os mais antigos e maiores baobás começaram a morrer, como mostra uma pesquisa publicada em junho pela revista “Nature Plants”. 

Os cientistas acreditam que os períodos prolongados de secas e as temperaturas cada vez mais elevadas sugaram a seiva das árvores, tornando-as incapazes de suportar o peso dos seus troncos maciços.

“Quanto maiores e mais antigas são as árvores, mais elas são sensíveis às mudanças climáticas por causa de suas enormes dimensões”, disse Adrian Patrut, um químico da Babes-Bolyai University da Romênia, e autor principal do estudo. Depois que o baobá de Chapman morreu, o dr. Patrut concluiu que o seu teor de água era de apenas 40%, em comparação a 79% nos baobás saudáveis.

O dr. Patrut e seus colegas decidiram não documentar a morte dos “elefantes de madeira” da África, como são chamadas as árvores. Mas quiseram datá-las. “Havia algumas lendas e certo folclore segundo os quais estas árvores teriam 6 mil anos”, disse Karl von Reden, coautor do estudo.

Em 2005, os pesquisadores começaram a coligir amostras de mais de 60 dos maiores baobás - com circunferências de pelo menos 20 metros. Os mais antigos tinham cerca de 2.500 anos de idade. A equipe comparou níveis de carbono 14 de amostras das partes mais antigas das árvores com amostras de outras espécies cuja idade continha o mesmo número de anéis, segundo apuraram.

Os pesquisadores ficaram chocados quando alguns dos seus objetos de estudo começaram a morrer. Oito dos 13 mais antigos e cinco dos seis maiores morreram ou racharam parcialmente em 13 anos. “O fato de que estas árvores tenham morrido de repente no início deste século para mim é um sinal de alerta”, afirmou o dr. von Reden.

Os baobás frequentemente hospedam comunidades inteiras da vida animal, como morcegos  e abelhas. As pessoas também os respeitam. Os antigos baobás muitas vezes são  elementos do folclore nacional e um local de cerimônias. Em épocas de carestia, suas sementes alimentaram tanto os seres humanos quanto a vida selvagem, e a sua casca - que pode ser arrancada sem matar a árvore - é uma fonte de alimento e hidratação para os elefantes.

Além do impacto sobre as pessoas e o meio-ambiente, há também uma perda simbólica, disse Jack Pettigrew, um professor emérito da Universidade de Queensland que estudou os baobás. Ele disse: “É inquietante perdermos algumas das árvores maiores e mais antigas do mundo”.

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