Wikus De Wet / The New York Times
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Na África do Sul, minoria branca boicota restaurante por atender 'só negros'

O boicote teve início em 2017, quando a rede Spur Steak Ranches tomou o partido de uma mulher negra que se envolveu em um confronto com um branco em um dos restaurantes em Johannesburgo

Kimon De Greef e Norimitsu Onishi, The New York Times

05 de julho de 2019 | 06h00

STRAND, ÁFRICA DO SUL - Para muitas crianças brancas que cresceram na África do Sul do apartheid, a rede de restaurantes Spur Steak Ranches era como um lar, oferecendo cardápios infantis e áreas de brincadeira com a temática do Velho Oeste americano. Para os pais, o Spur funcionava como centro social em muitas cidades rurais e subúrbios como Strand, balneário que já foi popular, localizado a cerca de 50 quilômetros da Cidade do Cabo.

Mas alguns deixaram de frequentá-los, sustentando um boicote que chega agora ao terceiro ano e destaca as tensões raciais na sociedade sul-africana. “Nunca mais coloco os pés naquele lugar", disse Keith van Eeden, que vive em Strand. “O Spur atende apenas aos negros agora", acrescentou van Eeden. “Não querem saber dos brancos”.

O boicote teve início em 2017, quando o Spur tomou o partido de uma mulher negra que se envolveu em um confronto com um branco em um dos restaurantes em Johannesburgo. Mas a campanha contínua contra a rede - promovida pelos principais grupos de defesa dos direitos da minoria branca na África do Sul - reflete algo mais profundo. Trata-se de uma demonstração de um forte e aparentemente crescente ressentimento entre muitos sul-africanos brancos passado um quarto de século do fim do seu poder político, das brutalidades e indignidades do apartheid.

Nas eleições realizadas em maio para a formação de uma nova assembleia nacional, o partido que observou o maior crescimento nos votos foi o Freedom Front Plus - pequeno partido africâner que luta para repelir as políticas de ação afirmativa favorecendo os sul-africanos negros. Na briga que deu início ao boicote, registrada em um vídeo amplamente compartilhado, os dois fregueses discutem por causa do comportamento de seus filhos. O branco puxa o braço de um menino negro, ameaçando bater na mulher negra e tentando derrubar a mesa onde os filhos pequenos dela estão sentados.

O Spur emitiu um pedido de desculpas à mãe e proibiu a entrada do homem por causa de seu “comportamento agressivo".  O boicote ecoou principalmente entre africâners brancos como van Eeden que, mesmo vivendo em um país onde os brancos ainda exercem um controle desproporcional na economia, mostram-se ressentidos com o fato de terem perdido o privilégio na África do Sul democrática.

Passados seis meses do início do boicote, as vendas nacionais do Spur tiveram queda superior a 9%. Essa queda ocultou perdas mais profundas nos restaurantes da rede localizados em áreas predominantemente brancas. No auge da retaliação, em 2017, Mark Farrelly, funcionário do Spur, disse que a empresa enfrentava uma “reação histérica da direita". 

O líder de um sindicato que defende a minoria branca, Solidariedade, escreveu em uma carta: “Estamos falando de uma comunidade que se sente excluída no próprio país. Agora, sentem-se excluídos também no seu restaurante favorito". De acordo com relatório interno, os sul-africanos negros são agora cerca de 65% dos fregueses do Spur. Em um dia recente, o restaurante de Strand estava com a lotação média, e o número de brancos, negros e mestiços parecia igual. Anelisa Nqevu estava lá com a filha. “Sempre que saio às compras, ela me pede para levá-la ao Spur". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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