Esther Ruth Mbabazi para The New York Times
Esther Ruth Mbabazi para The New York Times

Na África, visita a curandeiros pode agravar epidemia do ebola

Tratamentos oferecidos em áreas rurais do continente colocam lado a lado pacientes com quadros simples e outros em estágio avançado da doença

Donald G. McNeil Jr., The New York Times

11 de março de 2019 | 06h00

LAGO BUNYONYI, UGANDA - Samuel Muriisa acha que está preparado para o ebola, mas não está. Muriisa, 74 anos, é o mais respeitado omushaho wekishaka (ou curandeiro tradicional) desta região. Ele tem consciência - apenas vagamente - do avanço do ebola na República Democrática do Congo, cuja fronteira fica a apenas pouco mais de 30 quilômetros. “Que (a doença) fique no Congo", disse ele. “Raramente vemos congoleses por aqui. Que o mal fique por lá.”

Jolly Twinomuhwezi, 60 anos, uma das três mulheres dele, trabalha como uma espécie de enfermeira de triagem, e disse que recusa o atendimento a quem estiver com sangramento nas órbitas dos olhos ou sob as unhas, que ela ficou sabendo serem alguns dos principais sintomas do ebola. Mas a maioria das vítimas nunca chega a apresentar hemorragia e, quando isso acontece, geralmente é nos estágios finais da doença.

Especialistas em medicina temem que tal combinação de desinformação e pensamento mágico seja comum entre os curandeiros tradicionais, principais responsáveis pela medicina na zona rural africana. Essa preocupação está se intensificando conforme a epidemia no Congo foge cada vez mais ao controle. Em todo o continente africano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, há cerca de 80 vezes mais curandeiros tradicionais do que médicos formados em medicina. Milhões de africanos consultam curandeiros.

No Congo, os médicos empenhados agora no combate ao ebola acreditam que muitos dos seus pacientes contraem a doença justamente ao visitar esses curandeiros. Eles chegam na casa de alguém como Muriisa sofrendo de malária, ou até uma tosse ou outro problema menor de saúde, mas acabam num leito ao lado de alguém com ebola que ainda não recebeu diagnóstico.

Na epidemia de 2014 na África Ocidental, que infectou mais de 11 mil pessoas, a morte de uma curandeira importante foi um “evento de contágio em massa” crucial, ligado a mais de 300 casos. Essa curandeira, que vivia na zona rural de Serra Leoa, morreu depois de ter contraído o vírus de um de seus pacientes. Centenas de parentes e admiradores vieram de longe para o funeral dela e ajudaram a lavar seu corpo, que estaria saturado de vírus.

Eles então voltaram para suas casas na Guiné e na Libéria, ajudando a dar início à pior epidemia de ebola da história. O consultório de Muriisa é uma cabana de pau a pique decorada com escudos e chifres de antílope. Fica no alto de uma colina íngreme, perto de um pequeno píer numa praia repleta de juncos. Para ver os pacientes, ele coloca sobre as roupas habituais - jaqueta e bermuda de veludo - um manto que parece feito de pele de gato e uma coroa de pelos brancos e pretos de macaco.

Os moradores locais disseram que o curandeiro tinha razão ao afirmar que poucos congoleses visitam o Lago Bunyonyi, que fica a uma altitude de 2.000 metros, cercado por agricultores, pescadores e resorts à beira da água. Mas as fronteiras são permeáveis, e os africanos que adoecem com gravidade podem viajar longas distâncias para consultar o curandeiro do seu vilarejo natal, pois confiam nele.

Os curandeiros passam algum tempo com os pacientes e falam seus dialetos natais. Além disso, os curandeiros aceitam pagamentos na moeda acessível aos pobres: legumes, álcool, galinhas e bodes. Os especialistas em ervas também são tratados com confiança, pois alguns de seus chás, unguentos e pós de fato aliviam males comuns como alergias, sangramento no nariz, dor de dente e artrite.

E eles vendem poções para afastar maldições como raios e vizinhos invejosos. Muriisa reconheceu que não consegue curar o câncer, mas sabe tratar mordidas de cobra. Trata também dos casos de saúde mental, dando ao paciente sementes alucinógenas obtidas numa moita. “Nesse estado, eles dizem muitas coisas", disse ele. “E, a partir do que eles dizem, sou capaz de determinar se há maldições ou demônios que se fazem adoecer, e como tratá-los.”

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