Lena Mucha para The New York Times
Lena Mucha para The New York Times

Na Alemanha, extrema-direita combate imigrantes e lobos

Membros do Partido Alternativa para a Alemanha (AfD) são favoráveis à caça aos animais

Katrin Bennhold, The New York Times

03 de maio de 2019 | 06h00

FÖRSTGEN, ALEMANHA - Eles atacaram ao amanhecer e deixaram uma trilha de sangue e de corpos despedaçados. Eram seis, talvez sete os autores. Um deles passou pelo carro de Annett Hertweck que se dirigia a toda velocidade para a cena do massacre, nas proximidades da aldeia de Förstgen, na Alemanha. Somente então ela viu os corpos. “Era uma coisa horrenda”, disse.

Os assassinos eram lobos. As vítimas, ovelhas alemãs, 55. Depois de desaparecerem por quase um século, os lobos voltaram sorrateiramente através da fronteira da Polônia. São apenas poucas centenas. Mas segundo alguns políticos, o país está às voltas com uma verdadeira invasão. E a maneira como falam dos lobos curiosamente é muito semelhante à maneira como falam dos imigrantes.

“O lobo é o perfeito bode expiatório dos nossos tempos”, afirmou Annett, que dirige uma reserva da biosfera com 500 ovelhas e se define uma defensora dos lobos. Ela diz que os lobo são descritos como estrangeiros criminosos “com dentes em lugar de facas” “protegidos pelas elites”. Karsten Hilse é um advogado do leste do Partido Alternativa para a Alemanha, AfD; ele é contra os lobos e contra os imigrantes. Quando fala dos lobos, parece que está falando dos imigrantes. E às vezes fala mesmo.

A chegada de 1,2 milhão de imigrantes desde 2015 é a causa de “estupros, assassinatos, ataques contra a polícia”, afirmou, acrescentando que a maioria dos migrantes goza dos benefícios do Estado do bem-estar da Alemanha. “O mesmo ocorre com os lobos”, afirmou, referindo-se aos subsídios públicos destinados às medidas de proteção destes animais.

Este ano, os lobos e a solução para o problema que estão criando tornaram-se os principais pontos da campanha no antigo Leste comunista, onde a extrema direita é forte. Alguns querem matá-los, considerando-os predadores perigosos que constituem uma ameaça não apenas para os cordeiros, mas também para as crianças e para toda uma maneira familiar de viver. Outros consideram o animal uma espécie ameaçada de extinção que precisa de proteção.

Silke Grimm, diretora da "questão do lobo" da AfD na Saxônia oriental, é favorável à caça aos lobos desde 2014. Assim como o “teto” que a AfD exigiu para o número de migrantes que pedem asilo que a Alemanha pode tolerar, a AfD está exigindo um “teto” para os lobos. “Os lobos são perigosos e proliferam de modo explosivo”, disse Silke. “Segundo as autoridades, tudo está sob controle. Conhecemos esse tipo de atitude, desde a crise dos refugiados. Ninguém acredita uma só palavra”.

No século passado, não houve um caso de morte entre os habitantes provocada por um lobo na Alemanha, segundo Vanessa Ludwig, bióloga da agência de informação sobre lobos do governo. A última morte conhecida na Europa ocidental ocorreu nos anos 1960. “Não há nenhuma crise dos lobos”, declarou Vanessa; ela lembra exatamente quando os lobos se toraram um tópico político. “Foi em 2015, durante a crise dos refugiados”, afirmou. Desde então, “isto se transformou em uma enorme tempestade emocional”.

E com os lobos, assim como com os migrantes, as emoções aparentemente importam mais do que os fatos. No início do século 19, quando os Irmãos Grimm escreveram os seus contos de fadas, o lobo foi retratado como um vilão arrematado, um predador astuto que persegue mulheres, crianças e meios de subsistência.

“Você pode explicar que os contos de fadas são apenas contos de fadas, mas só isto não basta”, disse Vanessa referindo-se ao governo regional. “A psicologia é complexa por causa da antiga história do lobo no folclore alemão”. “A síndrome de Chapeuzinho Vermelho”, ela a definiu.

Stephan Kaasche, um guia da natureza, estava fazendo uma oficina com crianças de 10 anos. Ele pegou um crânio de lobo, abriu sua bocarra e o segurou sobre a cabeça de uma menina. “Está vendo?” perguntou. “O lobo não conseguiria comer você inteira”. Para Kaasche, a histeria a respeito dos lobos “nada explica sobre estes animais, mas diz muito sobre a natureza humana”. / Christopher F. Schuetze contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.