Bouda Ferhat para The New York Times
Bouda Ferhat para The New York Times

Na Argélia, conflitos deixam distrito histórico em ruínas

Afetada pela decadência, a Casbá, onde o pintor Renoir disse ter 'encontrado a brancura', agora é um labirinto de espaços vazios

Adam Nossiter, The New York Times

10 de maio de 2019 | 06h00

ARGEL - Boa parte da capital está tomada pela agitação resultante de 20 anos de raiva acumulada diante da repressão do estado policial. Mas a Casbá, no coração de Argel, se encontra estranhamente calma, com seus antigos becos de pedra vazios sob a luz do Sol.

Não há necessidade de protestos no distrito histórico para sublinhar a falta de ajuda oferecida pelo estado. O abandono é evidente por toda parte. Ruínas pontuam os edifícios caiados que descem a colina rumo ao Mediterrâneo, onde Renoir disse ter "descoberto a brancura", e Guy de Maupassant encontrou uma "cidade de neve sob uma luz de imenso brilho".

Mesmo antes de a Argélia ser tomada por uma revolução este ano, um plano para salvar a Casbá da decadência enfrentava problemas, ofendendo alguns por convidar os franceses, antigos colonizadores, para ajudarem a salvar o distrito construído na era otomana. Com a agitação política na Argélia, a incerteza e a paralisia que esta provoca no governo, será provavelmente ainda mais difícil levar o plano a cabo. A Casbá, habitada por 50 mil moradores, em sua grande maioria pobres, é quase desprovida dos elementos que ajudaram a salvar distritos históricos em outros países: turistas, restaurantes e museus. 

Em um dia recente, Boulem Debbagh estava na passagem otomana ricamente ornada de uma casa de paredes caiadas que, de acordo com ele, era ocupada por sua família desde a década de 1830. "Nada foi feito desde Boumediène", disse ele, referindo-se ao presidente que morreu em 1978. Um jumento passou, coletando o lixo. Os becos são estreitos demais para um veículo.

Durante a guerra de independência da Argélia contra a França, que chegou ao fim em 1962, a Casbá desempenhou um papel fundamental como local onde os insurgentes podiam se esconder e se organizar. Com a independência, os pobres fugiram para os bairros mais modernos abandonados pelos franceses em retirada. O governo argelino, modernizador e ultranacionalista, tinha pouco interesse no bairro, fundado no século 10. "Eles não tinham sensibilidade para a cultura e o patrimônio", disse Ali Mebtouche, diretor da Fundação Casbá, organização sem fins lucrativos que busca salvar o distrito histórico.

Hoje, quase um terço dos edifícios do século 18 e início do 19 na Casbá está arruinado, "e o restante está se desfazendo", disse Mebtouche. Um edifício da Casbá desabou no mês passado após chuvas pesadas, matando cinco integrantes de uma família de sem-teto.

De forte viés nacionalista, o governo tem se mostrado reticente em aceitar ajuda internacional. A Unesco se recusou a incluir a Casbá em sua lista de locais ameaçados, sendo que, "objetivamente, o lugar está ameaçado", explicou o arquiteto Karim Ben Meriem, do Instituto para o Desenvolvimento e Urbanismo da Região de Paris.

O instituto esteve no centro de uma polêmica que veio à tona no fim do ano passado, quando o prefeito de Argel afirmou querer contar com a experiência da agência e o talento de um arquiteto francês, Jean Nouvel, ganhador do prêmio Pritzker (principal reconhecimento na arquitetura), para revitalizar a área.

Dúzias de historiadores, arquitetos, autores, ativistas e estudantes reagiram furiosamente ao plano em uma carta aberta enviada em dezembro ao jornal L'Humanité. A carta falava no espectro do "colonialismo francês" e convidava Nouvel a abandonar o projeto. Ele não o fez. Em resposta por escrito, Nouvel prometeu "formular uma contribuição capaz de se desenvolver e evoluir na escala do ambiente". 

O plano é começar reinvestindo nos espaços mortos, instalando estruturas temporárias como espaços de brincadeira para crianças ou ateliês de artistas, para que os habitantes possam "recuperar sua herança", disse Ben Meriem.

Entre os edifícios desocupados, "oitenta por cento são de proprietários que abandonaram seus imóveis", explicou Mebtouche. Os sem-teto ocupam esses espaços; suas roupas lavadas pendem dos telhados. Há edifícios cuja fachada ou os fundos ruíram. Há pilhas de entulho, e terrenos baldios onde as ervas daninhas ocultam as ruínas.

Mas é também um bairro em que as crianças brincam pelas passagens elaboradas, mães com lenços na cabeça escalam os becos íngremes depois de buscar as filhas na escola, e o tecido urbano caiado sobrevive o bastante para dar ao visitante uma ideia do seu passado.

"Aqui, os vizinhos se sentem à vontade conosco, e nós nos sentimos à vontade com eles", contou Jamila Hamouda, cujo marido, Mohamed, 73 anos, nasceu no dar (casa) otomano do século 18 que pertence a eles. Ele era um adolescente quando paraquedistas franceses explodiram o fabricante de bombas dos revolucionários argelinos, Ali la Pointe, durante a Batalha de Argel em 1958. "Ficamos chocados depois de tudo que vivemos", disse Mohamed. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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