Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times
Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times

Na Austrália, cresce número de startups criadas por aborígenes

Grupo vê no empreendedorismo um caminho para o sucesso e uma ferramenta no combate ao preconceito

Isabella Kwai, The New York Times

15 de fevereiro de 2019 | 06h00

MELBOURNE, AUSTRÁLIA - O tratamento injusto em uma grande organização corporativa levou Morgan Coleman a se tornar um empreendedor. Inicialmente, ele tinha orgulho de trabalhar lá. Mas, em pouco tempo, sendo um dos poucos funcionários aborígenes, ele se sentiu tratado com condescendência e rejeitado por alguns colegas, temendo que seu supervisor nutrisse ressentimentos pelo fato de ele vir do Estreito de Torres.

Agora, como parte de um crescente número de aborígenes australianos que encontram sucesso como empreendedores, mesmo com a queda no número de negócios administrados por não aborígenes, ele tem a sensação de que seu futuro depende unicamente do seu mérito.

"Só depende de mim encontrar o sucesso", disse Coleman, 28 anos, em entrevista recente no escritório de Melbourne do Vets on Call, o aplicativo que ele fundou. "O mercado não se importa se somos aborígenes ou não".

O número de aborígenes australianos atuando como proprietários ou administradores de negócios aumentou cerca de 30% entre 2011 e 2016, de acordo com a Universidade Nacional Australiana. E, levando-se em consideração que a população indígena é mais jovem que a população geral do país - com média etária de 23 anos -, os empreendedores aborígenes dizem considerar atraente e libertadora a ideia de ter o próprio negócio.

Isso é particularmente significativo em um país que ainda luta com o legado de políticas racistas que separavam crianças aborígenes de seus pais, negavam aos aborígenes o direito às próprias terras e os impediam de votar. Para muitos, o empreendedorismo não é apenas um caminho para o acúmulo de riqueza, mas também uma luta para combater os estereótipos.

"Não somos apenas bons esportistas - somos bons cientistas e sabemos trabalhar com a tecnologia", disse Marsha Uppill, 45 anos, uma empresária da etnia Adnyamathanha que fundou a empresa Arranyinha. O empreendimento, cujo nome remete ao nome de batismo dela no idioma aborígene, está desenvolvendo uma ferramenta que vai ajudar a superar lacunas culturais e de outros tipos entre empresas ocidentais e as comunidades aborígenes locais e nacionais.

Em 2015, o governo da Austrália estabeleceu metas para a participação de empresas indígenas nas licitações públicas, e no ano passado, foi apresentado um novo pacote de apoio financeiro, complementando um Fundo do Empreendedor Indígena que oferece 90 milhões de dólares australianos, ou cerca de US$ 65 milhões, em auxílio.

Marsha obteve um financiamento do governo que possibilitou a fundação de sua empresa, mas Coleman não teve direito aos mesmos recursos. Ele usou de verba própria para financiar o Vets on Call, permitindo aos donos de bichos de estimação que agendem visitas domésticas com veterinários. Ainda não conseguiu lucrar, mas o aplicativo está crescendo.

Embora poucos tenham acumulado bens e criado para si uma rede de segurança financeira, isso não os impediu de apresentar ideias a investidores, criar projetos e cooperar entre si, segundo Dean Foley, 30 anos, da etnia Kamilaroi, e fundador da Barayamal, incubadora de empreendimentos indígenas. É esse tipo de ética que motiva Coleman, que teve o pai indígena afastado durante a infância, e Marsha, cuja mãe foi levada de casa na Cordilheira Flinders, sul da Austrália, quando ela tinha 7 anos.

Marsha disse ter ficado impressionada com a mentalidade dos anciãos. "Os aborígenes sempre foram empreendedores", disse ela, referindo-se a 80 mil anos de história durante os quais seu povo teve de se adaptar às mudanças. Ser indígena, de acordo com Coleman, é uma vantagem. "Somos muito determinados".

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