Cameron Spencer/Getty Images
Cameron Spencer/Getty Images

Na Austrália, temores de possível recessão no mercado imobiliário

Em pouco tempo, os preços subiram demais nesse setor estimulante

Isabella Kwai e Adam Baidawi, The New York Times

14 Agosto 2018 | 10h00

SYDNEY - A casa não era perfeita; a habitação de dois quartos não tinha garagem e nem quintal. Fica perto de uma rodovia importante e de uma estação de trem, o que torna as noites barulhentas para os seus moradores.

Mas, como muitos jovens australianos, Georgia Blackie achou que precisava comprá-la ou alugá-la para sempre.

Ela mora em Melbourne, um dos mercados imobiliários mais efervescentes e caros do mundo. Os valores das habitações subiram mais de 50% nos últimos seis anos. Em Sydney, a outra grande capital imobiliária da Austrália, o aumento foi até maior. As duas cidades estão entre as menos acessíveis  do mundo em matéria de moradias, piores que Nova York e Londres. As dívidas com as hipotecas fazem com que os australianos sejam os maiores tomadores de empréstimo do mundo.

Agora, pessoas como Blackie podem pagar o preço.

Ela e o seu parceiro fecharam o negócio da casa na cidade, em agosto do ano passado, por 720 mil dólares australianos, cerca de US$ 533 mil. Mas desde o pico do mercado, em novembro, os valores das casas do bairro caíram cerca de 6%.

“Se os preços das propriedades voltarem ao que eram”, disse Georgia, uma advogada de 31 anos, “onde é que vamos parar?”

O mercado imobiliário aquecido em Sydney e Melbourne transformou alguns proprietários de habitações em milionários; e muitos jovens da geração do milênio acreditam que nunca terão a chance de comprar uma casa.

Mas uma queda sustentada poderá reduzir os gastos com o consumo e pressionar os proprietários que contraíram empréstimos excessivos em condições generosas para as hipotecas, em uma época de estagnação dos salários. As taxas de juros globais também estão subindo, o que significa que muitos australianos poderão se deparar com maiores aumentos dos juros, por causa de hipotecas com juros populares ajustáveis.

Sydney e Melbourne constituem cerca de 40% da população e a maior parte do valor do mercado imobiliário. Até o momento, em 2018, os preços das moradias caíram mais de 2% em Sydney e quase 2% em Melbourne.

O declínio se deve em parte às novas restrições impostas aos compradores estrangeiros, que desanimaram imigrantes ricos e investidores da China. Mas os preços, segundo muitos especialistas, simplesmente subiram demais e depressa demais.

“Todos os fatores que provocaram aumentos no setor da habitação e no da dívida nos últimos 20 anos estão chegando a um ponto crucial”, afirmou Martin North, da empresa de pesquisas Digital Finance Analytics.

No entanto, as taxas de inadimplência no setor de hipotecas permaneceram em grande parte estáveis, no ano passado, segundo a S&P Global, uma empresa de ratings.

A alta dos preços das habitações reflete a economia da época da expansão econômica, na Austrália, que não vê uma recessão em mais de 25 anos. A demografia ajudou Sydney e Melbourne, as cidades mais atraentes para australianos e imigrantes.

Cerca de 25% das famílias australianas têm menos de um mês em dinheiro extra guardado na poupança para pagar a próxima prestação da hipoteca.

“Por quase toda parte onde que você olha, vê icebergs”, disse North.

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