Santi Carneri / The New York Times
Santi Carneri / The New York Times

Na batalha contra a corrupção no Paraguai, ovos e papel higiênico

Sobrevivente de um impeachment, José María Ibañes foi o primeiro de três senadores que renunciaram ao cargo após ação de manifestantes

Ernesto Londoño e Santi Carneri, The New York Times

02 de maio de 2019 | 06h00

ASSUNÇÃO, PARAGUAI - A advogada criminalista Maria Esther Roa estava furiosa. Mais uma vez, um parlamentar poderoso havia escapado da condenação por seus crimes. Mas fora do Congresso na capital do Paraguai, Assunção, no início de agosto do ano passado, Maria Esther achou um plano nada convencional para que o poderoso funcionário fosse de algum modo responsabilizado. As armas seriam penicos, panelas, dezenas de ovos e uma quantidade de papel higiênico - e o objetivo era inspirar uma cruzada  nacional contra a corrupção neste pequeno país sul-americano.

Enquanto nos últimos anos outras nações latino-americanas  começavam a combater a corrupção de políticos e empresas poderosas, como reação do público ultrajado, o Paraguai acabou ficando para trás por causa de suas fracas instituições e de um  sistema judiciário ineficiente.

Mas Maria Esther e um grupo de organizadores, na maioria mulheres, decidiram tentar mudar esta situação tornando a humilhação pública um instrumento que consideram muito mais eficaz do que a instauração de um processo criminal. Seu primeiro alvo foi o senador José María Ibañez, que no dia 1º de agosto de 2018 sobreviveu ao impeachment depois de admitir que usou recursos públicos para pagar os salários de três empregados em sua fazenda. Na noite depois da votação, Roa e alguns conhecidos se reuniram em frente à casa do parlamentar para exigir a sua renúncia.

“Abaixo Ibañez!” gritaram, batendo nas panelas. Logo, a casa do congressista foi coberta de papel higiênico e ovos podres atirados pelos manifestantes ficaram escorrendo pelas paredes. “Limpem-se”, disse a advogada, descrevendo o simbolismo do papel. Quanto aos ovos: “O cheiro é bem nojento, para lembrar que o protesto durará alguns dias”. O que aconteceu em seguida deixou Maria Esther pasma: Ibañez renunciou ao cargo.

Ele foi o primeiro de três senadores famosos acusados persistentemente de corrupção a deixar o posto. Os promotores no Paraguai entraram com ações criminais contra cinco outros políticos visados pelos manifestantes por seus atos de corrupção, e abriram investigações contra vários outros.

Os políticos que estão na mira dos manifestantes consideram os protestos escandalosos e carregados de emoção - os chamados escraches -  uma perigosa tendência  que arruinou carreiras e reputações sem o processo devido. “Esta forma de violência social que passa por cima dos direitos individuais e coletivos assemelha-se aos linchamentos públicos de séculos atrás”, comparou Ibañez.

Mas os protestos espalharam-se por todo o país. Nos últimos meses, os manifestantes estão de olho em dezenas de personalidades políticas, governadores, parlamentares federais e provinciais suspeitos de crimes. “Não podemos impedir que uma pessoa seja corrupta”, explicou Roa meses depois do primeiro protesto. “O que não podemos aceitar é este grau de impunidade”.

Enquanto vídeos dos protestos eram transmitidos online, políticos visados pelo movimento  começaram a não ser aceitos nos restaurantes caros. As esposas não foram mais atendidas nos salões de beleza comuns. Os oponentes dos protestos destacaram que poderão tornar-se violentos. Em alguns casos, os manifestantes vandalizaram casas comerciais e se envolveram em brigas. Em outros, foram atacados os próprios organizadores, o que deu à Roa e a outros uma pausa.

A advogava criminalista reconheceu que o movimento que pretendia educar e servir de inspiração gerou ramificações desordenadas, e ela disse esperar que isto não se torne um instrumento permanente da luta. “Alguns escraches acabaram se tornando muito violentos”, afirmou. “Isto me preocupa”. Mas ela ressaltou que pretendia continuar os protestos.

Uma tarde, apareceu em frente à casa de um político encarregado de uma entidade que investiga juízes. Os manifestantes provocaram um tumulto, com a ajuda de trombetas, apitos e cumbias (músicas típicas da Colômbia) a todo volume, pedindo a renúncia do funcionário, acusando-o de proteger juízes lenientes com políticos corruptos. “Ele precisa renunciar” exigiu Roa. Enquanto ela falava, os alto-falantges começaram a berrar uma música, a fim de quebrar deliberadamente a quietude da sesta da tarde. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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