Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Na Bósnia, divisão étnica cria 'duas escolas sob o mesmo teto'

Aulas e material didático dos estudantes são elaborados com base nas origens sérvias, croatas ou muçulmanas

Barbara Surk, The New York Times

02 Fevereiro 2019 | 06h00

TRAVNIK, BÓSNIA E HERZEGOVINA - A escola dessa cidade medieval é dividida por uma cerca e pelo legado da guerra. Todos os dias, crianças entram num mesmo edifício escolar para aprenderem separadas. Os croatas do subúrbio têm aulas do lado direito do prédio. São principalmente católicos. Os muçulmanos bósnios do centro da cidade são ensinados do lado esquerdo.

Para muitos estudantes, a divisão é uma relíquia indesejável das guerras étnicas da Bósnia nos anos 1990 entres sérvios, croatas e muçulmanos. "Não querem que nos socializemos na escola, assim, vamos a cafés depois da aula e ficamos juntos ali", disse a estudante muçulmana Iman Maslic, 18 anos.

Mas o cisma está se aprofundando conforme os nacionalistas estimulam as rivalidades étnicas. A escola faz parte de um sistema de ensino conhecido no país como "duas escolas sob o mesmo teto". A Igreja Católica é a atual proprietária do edifício e mantém funcionando a escola do lado direito. Do lado esquerdo fica uma escola de ensino médio administrada pelo Estado que controlava o edifício durante a era comunista da ex-Iugoslávia.

A igreja quer expulsar a escola estatal, mas os dois lados estão misturados graças aos termos dos Acordos de Dayton, o tratado que pôs fim à guerra, mas delimitou espaços para sérvios, croatas e muçulmanos bósnios. Há na Bósnia pelos menos 50 escolas em que estudantes de diferentes origens étnicas são separados. Toda uma geração está aprendendo a partir de materiais didáticos desenvolvidos especificamente para seu grupo, conforme previsto na lei.

Alguns jovens políticos estão pedindo a abolição do sistema. "Não queremos que nossos filhos frequentem as 'Duas escolas sob o mesmo teto'", escreveu Lana Prlic, 25 anos, integrante do Partido Social-Democrata da Bósnia, em sua conta no Twitter durante uma campanha recente. Nascida durante a guerra, com um pai croata e uma mãe muçulmana, ela se formou numa escola segregada em Mostar.

Desde o fim da guerra, a Bósnia vive dividida entre uma região sérvia autônoma e uma federação muçulmana croata, com a presidência separada em três cargos eletivos, destinados especificamente a sérvios bósnios, croatas e bosniaks (muçulmanos bósnios). As eleições nacionais realizadas em outubro tiveram apelos à lealdade étnica.

Os nacionalistas croatas se mostram particularmente avessos a mudanças porque escolas estatais multiétnicas seriam um obstáculo ao seu desejo de criar uma região autônoma exclusivamente croata, semelhante àquela criada pelos sérvios durante a guerra por meio da expulsão e extermínio dos não sérvios.

Na escola de Travnik, cidade localizada 90 quilômetros a oeste da capital, Sarajevo, o lado destinado aos estudantes croatas foi reformado recentemente pela Igreja Católica. Do outro lado, vê-se tijolos desgastados e tinta descascando. As grades horárias não coincidem para evitar a socialização entre alunos de lados diferentes durante as pausas.

Iman, que é presidente da Associação de Secundaristas da Bósnia, conversa com estudantes do país inteiro. Ela disse que, para obter o ensino, muitos desenvolveram vidas paralelas à realidade da divisão étnica. "Vivemos separados no papel, mas a realidade é diferente", disse Iman.

Os estudantes disseram estar cansados dos fardos de uma guerra que ocorreu antes de terem nascido. O albanês Arsam Gasi, que frequenta o lado estatal da escola, joga futebol com os croatas e celebra o Ramadã com os muçulmanos, e o Natal (duas vezes: com os católicos e os ortodoxos). "Ninguém pergunta de qual lado sua família lutou na guerra", disse ele. "Podemos dividir a cidade: por que não podemos compartilhar também a escola?"

Estudantes do lado croata do pátio estavam jogando bola. Um deles chutou a bola para o outro lado. Um aluno da escola estatal a apanhou, arremessando-a de volta. Os dois sorriram, mas nada disseram.

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