Al Drago / The New York Times
Al Drago / The New York Times

Na busca pela vitória, Trump se vale de ameaças

O presidente dos EUA anunciou que não colocaria em prática tarifas que ele pretendia aplicar ao México dois dias antes da data anunciada 

Peter Baker, The New York Times

16 de junho de 2019 | 06h00

WASHINGTON - Durante nove dias, ele manteve o dedo no gatilho, pronto para disparar. Por nove dias, deixou de cabelo em pé dois países, indústrias multinacionais inteiras, consumidores, trabalhadores e até seus próprios assessores e aliados republicanos, sem saber o que ocorreria a seguir e com bilhões de dólares em jogo. E então, quase tão abruptamente quanto começou, tudo chegou ao fim. O presidente Donald J. Trump anunciou que não colocaria em prática novas e pesadas tarifas que ele pretendia aplicar ao México dois dias antes da data anunciada porque estabeleceu um acordo de última hora envolvendo a imigração - cujo resultado era basicamente reafirmar acordos anteriores.

Esses nove dias proporcionaram um vislumbre da abordagem de Trump para algumas das questões mais desafiadoras enfrentadas por ele e pelos Estados Unidos: quando o objetivo parece fora do alcance pelos meios tradicionais, ele ameaça com medidas drásticas, define um prazo, exige concessões, estabelece um acordo - real ou imaginário -, evita o terrível resultado e declara vitória. No mínimo, ele chama a atenção para o problema em questão. É menos claro se essa abordagem rende resultados sustentáveis.

Trata-se muitas vezes de dramas criados pelo próprio presidente, narrativas nas quais ele é naturalmente o herói. Mas, às vezes, a tática parece pouco além de uma ilusão de progresso sem que o problema seja resolvido.

“Para Trump, a vitória é garantida em qualquer caso", disse Ned Price, diretor de políticas da organização progressista National Security Action, voltada para a política externa. Mas “o perdedor costuma ser o povo americano e, com frequência, a base de apoio do próprio presidente".

Em abril, Trump ameaçou fechar a fronteira com o México a não ser que o país fizesse mais para deter a imigração ilegal. O México prometeu agir. Trump recuou da ameaça. Mas então o fluxo de imigrantes aumentou, levando Trump a fazer nova ameaça no dia 30 de maio, dessa vez impondo tarifas mais altas que entrariam em vigor a partir de 10 de junho.

Essa ameaça abalou o México a ponto do ministro das relações exteriores do país correr até Washington para, novamente, prometer novas medidas. Sob os termos do acordo anunciado no início de junho, o México concordou em mobilizar sua guarda nacional, recém-formada, para impedir que imigrantes cheguem aos EUA, além da expansão de um programa que faz com que alguns imigrantes esperem no México enquanto seus pedidos de asilo são ouvidos nos EUA.

Mas o México já tinha se comprometido a cumprir esses objetivos antes, e recusou uma demanda mais significativa, a de um tratado de “terceiro país seguro”, que daria aos EUA a capacidade de rejeitar solicitantes de asilo se eles não tiverem antes buscado asilo no México. Em vez disso, o México concordou em seguir debatendo a medida nos próximos 90 dias.

Ainda assim, defensores de medidas mais duras contra a imigração aplaudiram o acordo de Trump. Para eles, mesmo que o ganho fosse levar o México a ser mais agressivo na implementação de políticas com as quais o país já tinha concordado, isso justificaria o esforço e poderia render ganhos futuros. “São, sem dúvida, táticas de negociação pouco comuns", apontou Alfonso Aguilar, presidente da Parceria Latina para os Princípios Conservadores. Ele acrescentou que o presidente usou a ameaça “para alcançar metas específicas em pouco tempo".

Os especialistas não conseguem lembrar de outro comandante-em-chefe que recorresse tão regularmente às ameaças enquanto ferramenta de liderança quanto Trump. “Não há precedente", afirmou a professora Shirley Anne Warshaw, da Universidade Gettysburg, na Pensilvânia, que escreveu livros a respeito das decisões tomadas pelos presidentes.

Mas é isso que faz o ameaçador-em-chefe. Ele desequilibra o que está equilibrado. Ousado para alguns, irresponsável para outros, ele mantém o público tenso, como tentou fazer por 14 anos em seu reality show. Ele faz muitas ameaças que jamais cumpre. Costuma ameaçar adversários de processo e diz que vai reescrever as leis de difamação para castigar a mídia. Ameaçou revogar a licença da NBC, eliminar uma isenção fiscal da liga nacional de futebol americano (NHL) e retirar as forças americanas da Coreia do Norte.

Ameaçou prender Hillary Clinton. Ameaçou divulgar gravações de suas conversas com James B. Comey quando este era diretor do FBI, para em seguida ter de admitir que não havia gravação nenhuma. Ameaçou castigar a General Motors pelo fechamento de uma fábrica.

Algumas ameaças são mais apocalípticas. Ele ameaçou a Coreia do Norte com “fogo e fúria” e anunciou “oficialmente o fim do Irã” caso um deles ameaçasse os EUA. Sua retórica em relação à Coreia do Norte levou a um diálogo sem precedentes com o líder do país, Kim Jong-un, ainda que um acordo nuclear continue distante. O Irã trouxe de volta dois navios de mísseis, descarregando-os. A ameaça de Trump de acabar com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte levou a negociações que tiveram como resultado uma revisão do pacto.

Ainda assim, seria um erro supor que trata-se de uma série de blefes. O presidente já levou a cabo um grande número de ameaças, como quando aplicou tarifas ao aço e alumínio de aliados americanos ou recuou do acordo nuclear estabelecido pelo ex-presidente Barack Obama com o Irã, e também do acordo climático de Paris. Trump recuou da ameaça de aumentar as tarifas para a China no fim do ano passado, mas, quando as negociações voltaram a emperrar, ele a levou a cabo no primeiro semestre desse ano.

Falou repetidas vezes em fechar o governo para conseguir do congresso a aprovação do financiamento para o muro na fronteira, até finalmente fazê-lo em dezembro. É claro que o resultado não foi o que ele esperava; depois de 35 dias, ele recuou e reabriu o funcionamento do governo sem ter obtido mais dinheiro para a construção do muro. Em seguida, ameaçou declarar emergência nacional para gastar o dinheiro no muro como desejado.

O ranger de dentes acaba criando tanto desgaste com os aliados quanto com os adversários. Os republicanos no senado e as corporações americanas ficaram perplexos com a perspectiva de tarifas aplicadas às importações mexicanas, que teriam um profundo impacto na cadeia de fornecimento da indústria automobilística e outros setores, ao mesmo tempo aumentando o preço final para o consumidor. A única coisa previsível a respeito da presidência de Trump é a imprevisibilidade.

“Não quero que as pessoas saibam exatamente o que estou fazendo - ou pensando", escreveu ele no livro de sua campanha. “Gosto de ser imprevisível. Isso mantém os adversários desequilibrados”. Nesse sentido, o sucesso dele tem sido inquestionável. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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