Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Na Caxemira, sangue, luto e uma guerra pessoal

Disputa na fronteira entre Índia e Paquistão está difundindo cultura da morte

Jeffrey Gettleman, The New York Times

12 Agosto 2018 | 10h30

QASBAYAR, Caxemira - Eram 21h30 quando Sameer Tiger apareceu na porta, trazendo um fuzil pendurado no ombro. A maioria dos habitantes do vilarejo de Qasbayar, isolado assentamento montanhês cercado por pomares de macieiras entre os picos da Caxemira, estava se preparando para dormir. "Bashir está em casa?" indagou Sameer Tiger. "Podemos falar com ele?".

A família de Bashir Ahmad não sabia o que fazer. Ahmad não era um combatente, mas um farmacêutico de 55 anos. E Sameer Tiger era um verdadeiro mistério. Já fora um garoto magrelo que cresceu na mesma rua e costumava praticar halterofilismo com os filhos de Ahmad na academia de ginástica do bairro.

Mas Sameer Tiger desapareceu por algum tempo e ressurgiu como um cabeludo militante, membro de um grupo separatista da Caxemira que já matou muitas pessoas, a maioria delas da própria Caxemira.

A guerra na Caxemira, uma disputa territorial entre Índia e o vizinho Paquistão, manteve-se em baixa intensidade durante décadas. Agora, a situação de relativa paz ameaça ruir. Os episódios de violência estão se tornando mais pessoais e difíceis de escapar.

Anos atrás, o Paquistão empurrou milhares de militantes para o outro lado da fronteira para usá-los como combatentes aliados capazes de levar o caos às partes da Caxemira controladas pela Índia. Agora, a resistência dentro das áreas indianas é doméstica.

O conflito agora se tornou menos uma questão de geopolítica e mais um problema da política interna da Índia, que adota cada vez mais uma posição antimuçulmana. A maioria dos combatentes é de jovens como Sameer Tiger, de vilarejos pacatos como Qasbayar, valendo-se do apoio de uma população profundamente ressentida com o partido que governa a Índia e os anos de ocupação.

Todos aqueles que se envolvem minimamente com a política vivem ameaçados. Isso inclui Ahmad, que organizava eventos para um partido político local da Caxemira.

"Não se preocupem", disse Sameer Tiger, ainda na porta de Ahmad. Olhou nos olhos do filho de Ahmad.

"Não faremos mal a ele", disse. "Seu pai é como se fosse nosso pai".

Ahmad voltou correndo do trabalho para casa e convidou Sameer Tiger para entrar e tomar chá. Conversaram calmamente, e então Ahmad se despediu da mulher e do filho com um aceno, partindo com o visitante. Não havia escolha. Sameer Tiger estava armado e foi insistente, acompanhado por três outros que esperaram do lado de fora.

De acordo com uma testemunha, Sameer Tiger e Ahmad começaram a discutir. Quatro tiros foram ouvidos. Ahmad gritou. As poucas luzes restantes do bairro se apagaram.

O nome da Caxemira já é suficiente para evocar um conjunto de imagens opostas: picos nevados e protestos caóticos, campos de flores selvagens e intermináveis mortes. Trata-se de um lugar belíssimo e cheio de charme, ainda que os momentos de calmaria na região pareçam prenunciar algo pior.

O conflito

A Caxemira fica na fronteira entre Índia e Paquistão, e ambos os países já derramaram rios de sangue por causa dela. Três guerras foram travadas, e dezenas de milhares de pessoas morreram no conflito. Trata-se de um dos pontos mais inflamáveis da Ásia, onde um milhão de soldados já se enfrentou ao longo da fronteira disputada. Ambos os lados têm armamento nuclear. E ambos são divididos pela religião, com a Caxemira entre eles.

A Índia, que controla a maior parte do Vale da Caxemira há 70 anos, segue o hinduísmo. O vale em si é de população muçulmana, assim como o Paquistão. Mas o conflito se distanciou da questão religiosa. A rebelião é agora "indígena", diz Imran Khan, novo líder eleito do Paquistão. Khan se diz determinado a negociar um fim para as hostilidades.

A guinada da Índia à direita nos anos mais recentes, com a ascensão do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata, afastou muito a minoria muçulmana. Alguns pegam em armas, outros apanham pedras, mas a emoção que os move é a mesma: agora, muitos na Caxemira odeiam a Índia.

"Toda a população local está resistindo", afirmou Siddiq Wahid, historiador da Caxemira. As adesões mais recentes são de crianças e idosos.

Caminhando pelos vilarejos da Caxemira, quando indagamos às pessoas o que elas desejam, a resposta mais comum é a independência. Soldados bloqueiam estradas e invadem lares. Quando ocorrem protestos violentos, os serviços de segurança indianos respondem disparando munição de verdade contra a multidão.

A militância armada se tornou pequena, em parte porque o Paquistão oferece, atualmente, menos ajuda do que antes. Funcionários dos serviços de segurança dizem haver apenas cerca de 250 militantes armados agindo no Vale da Caxemira Valley, uma redução considerável em relação aos milhares de militantes ativos duas décadas atrás. A maioria recebe pouco treinamento.

A caça a Sameer Tiger

A caçada a Sameer Tiger começou na noite em que ele matou Ahmad, no dia 15 de abril de 2017. Para a maioria, ele ainda era Sameer Bhat, jovem de 17 anos que abandonou o colégio e trabalhou numa padaria local.

O primeiro lugar vasculhado pela polícia foi Drabgam, o vilarejo onde ele morava. Como boa parte do sul da Caxemira, Drabgam depende da colheita das maçãs. Quando a colheita chega ao fim, não há muito para se fazer.

Os pais de Sameer Tiger disseram que o filho era um militante em conflito. No início de 2016, foi acusado de arremessar pedras contra policiais. Na época, Sameer Tiger trabalhava na padaria, e seus pais insistiram que o episódio foi um acidente, alegando a inocência dele. Mas a polícia o arrastou pelos cabelos, disseram. O jovem passou alguns dias na prisão. Depois disso, desapareceu.

Logo o rosto dele começou a aparecer em sites de separatistas, com os olhos fixos na câmera, o cabelo crescido até a altura dos ombros, e uma Kalashnikov nas mãos.

"Quando vimos aquilo", disse Mohammed Maqbool Bhat, pai dele, "nós nos despedimos".

Mais de 250 mil soldados do exército indiano, guardas de fronteira, policiais e reservistas estão mobilizados na região do vale, colocando os militantes em desvantagem numérica de mil para um. A maioria dos militantes morre em questão de dois anos.

Seus ataques tendem a ser quixotescos, e os combatentes costumam morrer numa saraivada de balas. Os assassinatos e as mortes que provocam não têm relevância militar, parecendo mais atos de protesto contra o governo indiano. De acordo com os policiais, dos cerca de 250 militantes conhecidos, apenas 50 vieram do Paquistão, e a maioria dos demais é formada por habitantes locais que nunca saíram do vale.

Na noite em que Ahmad foi morto, os militantes já tinham buscado outro ancião do vilarejo na sua casa, Mohamad Altaf, primo de Ahmad. Os dois faziam parte da elite de Qasbayar, proprietários de terras que defendem o Partido Democrático Popular, principal organização política da Caxemira.

O partido já defendeu o separatismo, mas, para conquistar o controle do parlamento estadual, deu as mãos ao partido Bharatiya Janata, do nacionalismo hindu, três anos atrás.

Em junho, a aliança se desfez, deixando um vácuo na assembleia estadual. O governo central da Índia se encarregou de administrar o estado. Agora, os habitantes da Caxemira temem que o governo intensifique as operações militares.

De acordo com Altaf, enquanto eles caminhavam pelas ruas escuras de Qasbayar com os militantes, Sameer Tiger insistiu para que ele e Ahmad renunciassem à filiação ao partido. Quando Ahmad começou a discutir, Sameer Tiger ordenou que ambos se deitassem de bruços e fechassem os olhos. Altaf levou um tiro atrás do joelho, mas não se feriu com gravidade. Ele acredita que a intenção era dar um recado.

Mas Ahmad levou três tiros nas pernas, as balas avançando na direção da sua cintura, disse Altaf. O primo, de quem fora amigo a vida toda, sangrou até morrer ali mesmo. Talvez a Kalashnikov tenha escapado das mãos de Sameer Tiger. Talvez ele tenha apertado demais o gatilho.

A traição ainda assombra Altaf. "Bashir convidou Sameer Tiger para entrar e beber chá, apenas chá", lembrou ele.

O maior desafio na caça aos militantes não é encontrá-los, disse o policial Ashiq Tak. "O truque está em preparar a armadilha", disse ele.

O policial Tak é outro exemplo de como esta guerra está encolhendo. Ele cresceu em Qasbayar, a alguns quilômetros de Sameer Tiger. Ahmad era irmão de sua mãe. No último inverno, atuando como comandante de uma unidade tática da polícia, ele se viu caçando o homem que matou seu tio.

"Quase o capturamos", disse o policial Tak em fevereiro. "Mas ele escapou, vestido de mulher".

O policial Tak parecia desanimado com todo o apoio demonstrado a Sameer Tiger, e com o fato de muitos na Caxemira considerarem policiais como ele como traidores. Diferentemente dos soldados do exército indiano, recrutados por todo o país, os policiais da região são em geral do estado de Jammu e Caxemira, e dúzias deles já foram mortos. Muitos na Caxemira os consideram colaboradores do governo.

Sameer Tiger ressurgiu no final de abril, um ano após a morte de Ahmad. A alguns quilômetros de sua casa, ele deteve um carro que transportava um político local e o matou, de acordo com testemunhas. Pela primeira vez, Sameer Tiger estava nas manchetes.

No dia 30 de abril, o exército recebeu uma dica dizendo que Sameer Tiger estaria escondido numa casa em Drabgam. Dessa vez, o exército indiano usou caminhões de lixo cheios de soldados vestidos com camuflagem tradicional e rifles escondidos. Os aldeões pensaram que fossem trabalhadores. Discretamente, os soldados cercaram a casa e pediram reforços.

Os soldados enviaram emissários, incluindo os anciãos da aldeia, na tentativa de convencer Sameer Tiger a se entregar. Ele respondeu com uma saraivada de balas.

Meninos, meninas, homens e mulheres correram para o local, armados com pedras. Os falantes da mesquita repetiam: "Sameer Tiger está preso! Venham ajudá-lo!". A cidade inteira ficou abertamente do lado do fora da lei.

Mais soldados e civis chegaram ao local. Um homem foi baleado e morto; a multidão não parava de aumentar. Mas a armadilha foi bem preparada, chegando a usar quase 300 soldados e policiais. Por maior que fosse a determinação dos civis, eles não conseguiram romper o cerco.

Vários comandantes da polícia dizem que as forças de segurança avançaram, disparando um foguete contra a casa. Sameer Tiger se equilibrou num telhado. Os soldados atiraram de diferentes direções. Ele foi atingido várias vezes.

Uma cultura mortífera está se espalhando pela Caxemira. Os militantes se tornaram os maiores heróis. Seus nomes são pintados nas paredes. Pessoas usam camisetas estampando seus rostos barbudos.

Na manhã de 1.º de maio, o corpo inerte de Sameer Tiger, cheio de buracos e empapado em sangue, foi erguido numa plataforma improvisada de madeira no pátio de uma das mesquitas de Drabgam. Milhares vieram de todo o vale, entoando o nome dele durante horas: "Tiger! Tiger! Sameer Tiger!". Uma mulher abriu um sorriso grave.

"Estamos vencendo", disse ela. "Esses cadáveres são nossos triunfos". / Hari Kumar e Sameer Yasir contribuíram com a reportagem.

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