Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Na China, pacientes desesperados contrabandeiam remédios ou fabricam por conta própria

Sistema de saúde chinês obriga doentes a produzir próprios remédios ou contrabandeá-los de outros países

Sui-Lee Wee, The New York Times

25 de novembro de 2018 | 06h00

JINZHOU, CHINA - Zhang Zhejun usou um largo canudo de plástico para depositar delicadamente o pó de remédio amarelo claro num pedaço de papel alumínio sobre uma balança eletrônica. Ele verificou que estava usando a quantia certa antes de derramá-la numa cápsula translúcida.

Quem prepara em casa remédios contra o câncer deve ser cuidadoso para não errar as medidas. Zhang não tem experiência como farmacêutico. O que o motiva é o desespero. Sua mãe teve câncer de pulmão e precisou de remédios caros que o sistema de saúde da China, ambicioso e problemático, não era capaz de oferecer.

Ele conhecia os riscos. O remédio que estava fazendo não tinha sido aprovado por nenhuma autoridade chinesa. Zhang comprou as matérias-primas na internet, mas não sabia exatamente de quem, ou mesmo se o material era autêntico. “Só nos resta acreditar na honestidade dos vendedores", disse ele.

O desespero nasce da necessidade. Cada vez mais velha, a população chinesa é cada vez mais afetada por doenças mortíferas como câncer e diabetes, mas poucas podem encontrar remédios ou pagar por eles. O rudimentar sistema de seguro do país mal cobre tratamentos à base de remédios. Alguns moradores do campo carecem de acesso a determinados remédios.

Apesar de uma cara e nova rede de assistência oferecida pelo governo, a doença ainda é o principal motivo que leva as famílias chinesas a ficarem abaixo da linha da pobreza. Para se manter vivos, muitos doentes na China - e as pessoas que cuidam deles - violam a lei. 

Os mercados na internet estão cheios de remédios ilegais. Contrabandistas administram farmácias clandestinas. Em alguns casos, pacientes com câncer e seus parentes fazem os remédios em casa, encontrando os ingredientes e as instruções na internet.

Os desafios da China são observados em todo o mundo. Muitos dos mesmos problemas levaram lideranças mundiais a enfrentar as grandes empresas farmacêuticas. As empresas se queixam de obstáculos regulatórios e demoras nas aprovações. O alto preço dos remédios leva americanos a procurarem o Canadá e o México em busca dos remédios dos quais necessitam. Pacientes de lugares como Rússia e Grã-Bretanha procuram desesperadamente remédios em “clubes de compras” na internet - redes que procuram os genéricos mais baratos em diferentes países do mundo.

Na China, o sucesso da mais recente temporada de verão nos cinemas, “Morrendo para sobreviver”, foi adaptado da história real de um paciente chinês com leucemia que administrava um clube de compras, contrabandeando remédios genéricos da Índia para salvar a si mesmo e a outros. Foi elogiado por chamar atenção para a dificuldade enfrentada pelos pacientes com câncer para encontrar remédios na China.

A popularidade do filme levou o premiê Li Keqiang a fazer um apelo para que o preço dos medicamentos seja objeto de cortes mais rápidos. A crescente projeção internacional da China levou a expectativas mais elevadas entre seus habitantes. O controle do Partido Comunista no país depende muito da criação de oportunidades melhores para o público, incluindo um sistema público de saúde que o atenda bem.

Custos proibitivos

No ano passado, a polícia fez uma batida no modesto apartamento de Hong Ruping. Sob um televisor, eles encontraram o que estavam procurando: remédios para o tratamento de uma doença renal crônica. Hong, que está desempregado e faz diálise três vezes por semana, explicou que os remédios - imitações baratas de remédios ocidentais feitas na Índia - eram para ele.

Os policiais apreenderam os remédios, alertando que não tinham sido aprovados pelas autoridades de vigilância sanitária do país. Em seguida, eles o soltaram. Depois da batida, Hong continuou a receber remédios - que não eram todos destinados ao seu tratamento. Hong é o que os chineses chamam de “daigou” dos remédios, um “agente de compras" que obtém fármacos por meios questionáveis para pessoas que não podem arcar com o custo ou não têm acesso a esses remédios.

Enquanto muitos chineses usam daigou para comprar máscaras cosméticas sul-coreanas feitas de fluido de lesma e ninhos de pássaro comestíveis, ou leite em pó da Austrália, outros dependem de pessoas como Hong para se manter vivos. “Tenho uma doença e, se eles quiserem me condenar, não há nada que eu possa fazer", disse Hong. “Qual é a diferença entre ser preso e viver doente? Não há liberdade.”

Embora a China tenha conseguido um sistema de saúde quase universal, a abrangência dessa cobertura é muito restrita. A situação expõe centenas de milhões de chineses a custos cada vez mais altos. Isso leva muitos chineses ao contrabando, principalmente vindo da Índia, onde há um limite para o preço de muitos remédios. Na China, o remédio do qual Hong necessita custa pouco mais de US$ 4.200 por ano, dez vezes mais do que na Índia.

A Dra. Shen Lin, oncologista do Hospital do Câncer da Universidade de Pequim, disse que muitos de seus pacientes viam-se agora impossibilitados de pagar por seus remédios, perguntando a ela se poderiam usar genéricos da Índia. Ela tentou dissuadi-los, dizendo que não poderia garantir a eficácia de remédios provenientes de fontes não oficiais. Ainda assim, ela reconheceu, “se continuassem naquele rumo, logo ficariam falidos".

Obstáculos burocráticos

Os remédios estrangeiros podem custar caro na China - quando podem ser encontrados. Primeiro, os remédios precisam de aprovação. Entre 2001 e 2016, a China aprovou apenas pouco mais de 100 novos medicamentos, cerca de um terço do número observado em países avançados. Alguns remédios levam seis ou sete anos para receber a luz verde, fazendo assim com que o câncer seja uma sentença de morte para muitos.

No fim do ano passado, as autoridades chinesas disseram que permitiriam às empresas farmacêuticas que enviassem dados de testes clínicos no exterior. O tempo de aprovação caiu para dois ou três anos. A China reduziu a fila de remédios à espera de aprovação de 22 mil em 2017 para 4 mil. O governo pressiona também pelo desenvolvimento de fármacos mais inovadores para o combate a doenças mortais.

Ainda assim, a agência ainda sofre com o número insuficiente de funcionários. A China tinha cerca de 600 analistas no fim de 2016, enquanto há milhares nos Estados Unidos. Depois de aprovados, os remédios precisam ser aceitos na cobertura de um dos planos de seguro saúde da China. Isso significa conquistar um lugar na Lista Nacional de Remédios Reembolsados - e isso pode levar anos. Pequim acrescentou 36 remédios à lista em 2017 e mais 17 neste ano. A última atualização foi em 2009.

Quando os remédios chegam à China, muitos pacientes, como Yao Xianghua, não podem arcar com o valor. Ex-professora do ensino infantil, Yao teve um câncer de pulmão que não respondeu a cirurgia nem a um tratamento chamado bioterapia. Ela tinha 68 anos em 2011, quando o câncer foi diagnosticado, e pensou que já era velha demais para enfrentar quimioterapia e radiação.

“Desisto", disse ela ao filho, Zhang Zhejun. “Aceito meu destino resignada.”

O médico receitou a ela o remédio Iressa, produzido pela AstraZeneca. O remédio foi acrescentado à lista de reembolso depois que a AstraZeneca concordou em reduzir o preço para pouco menos de 1 mil dólares por mês.

Tudo era muito caro. Yao recebia uma pensão mensal de 460 dólares e o seguro dela não pagava por remédios importados. Zhang prometeu salvá-la. Largou o emprego decente e se mudou com os pais para um apartamento de pouca mobília na cidade industrial de Jinzhou.

Zhang descobriu que a Índia produzia uma versão genérica do Iressa, mais barata. Funcionou durante algum tempo. Mas Yao desenvolveu tolerância ao medicamento depois de cerca de nove meses. Zhang precisava de alternativas.

Ele tentou a internet. ‘Quero milagres’

A China se tornou o lar do maior número de usuários da internet. Muitos chineses fazem compras em bazares online que oferecem de tudo, como carros e compras de supermercado. Também podem comprar remédios - e até os ingredientes e matérias-primas para fabricá-los.

Muitos começam em fóruns dedicados a pacientes e seus entes queridos quando eles não conseguem mais encontrar respostas. Os mais populares são “I Want Miracles", dedicado a ajudar pessoas com câncer de pulmão, e “Dances With Cancer". Somados, os fóruns têm pouco mais de 440 mil membros.

“Esse é o estado atual do sistema de saúde na China", disse Chen Yun, administrador do “I Want Miracles". “Todos os médicos estão ocupados demais, e não podem explicar claramente a situação ao paciente. Os interessados em entender precisam aprender sozinhos.”

Há publicações ensinando as pessoas a fazerem os próprios remédios. Os interessados são orientados a comprar os ingredientes na internet, em mercados administrados pelo gigante do comércio eletrônico Alibaba Group, e em outras fontes. Dúzias de fornecedores oferecem amostras grátis e entrega gratuita.

“A qualidade dos nossos produtos é superior à dos produtos encontrados no mercado", anunciava a Xian Health Biochem Technology, que vende os ingredientes para o remédio vandetanib, que combate o câncer.

Os vendedores enviam o produto em envelopes, pelo correio, ou em cilindros nos casos de quantidades maiores.

O Alibaba respeita a lei e conta com “regras e sistemas” que ajudam a identificar ofertas que violem suas políticas, de acordo com uma porta-voz.

Remédios para ajudar a mãe doente

Desesperado para ajudar a mãe, Zhang fez algumas pesquisas: “O que fazer quando um paciente desenvolve tolerância ao Iressa?”. Ele descobriu o “Dances With Cancer” e entrou em contato com um paciente que vive há anos com câncer, apelidado de “Bean Spirit", que escreveu um manual ensinando a preparar os remédios em casa.

Zhang, que trabalhou numa fábrica farmacêutica mas nunca se envolveu na fabricação de remédios, desenvolveu uma versão própria. Comprou os ingredientes do remédio Tagrisso, fabricado pela AstraZeneca para o câncer de pulmão. Gastou cerca de 150 dólares para comprar ingredientes suficientes para um mês, além de cápsulas e uma balança eletrônica.

Quando os remédios pararam de funcionar para sua mãe, Zhang desenvolveu outros. Ele tinha medo de não encontrar os ingredientes necessários sempre que um remédio perdia o efeito.

“Não sabemos se o que há diante de nós é uma estrada ou um abismo", disse ele, enxugando as lágrimas. “Mas é preciso continuar. Não podemos parar.”

Em julho de 2017, Zhang começou a fazer o remédio WZ4002, descoberto em 2005 pelo Instituto do Câncer Dana-Farber, em Boston, mas sem aprovação das autoridades dos EUA e da China.

A mãe contou a Zhang que o remédio lhe causava tonturas. Antes, ela ficara hospitalizada por um mês depois de uma diarreia provocada por um dos remédios caseiros. Mãe e filho faziam pouco dos efeitos colaterais.

“Como se sente depois de tomar o novo remédio?” Zhang perguntou à mãe.

“Bem, me parece um pouco menos doloroso agora", disse Yao.

“Menos doloroso?” perguntou ele.

“Lembre-se, eu disse que às vezes sentia dores aqui, aqui e aqui", enumerou ela. “Agora, esses pontos estão menos doloridos.”

Yao morreu em outubro de 2017, dois anos depois de Zhang começar a preparar os remédios para ela. A causa da morte foi hemorragia gastrointestinal e bronquite aguda.

Zhang disse que era difícil saber se os remédios preparados por ele tinham influenciado esse quadro.

Elsie Chen, Zoe Mou, Tang Yucheng e Zhang Tiantian contribuíram com a reportagem.

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