Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Na China, talvez você tenha de pagar para conhecer seu bebê

Um hospital chinês exigiu que uma mulher pagasse a conta antes que pudesse ver as filhas recém-nascidas

Sui-Lee Wee, The New York Times

05 Junho 2018 | 10h00

GUANGZHOU, CHINA - Um dia depois de Juliana Brandy Logbo ter dado à luz gêmeas, recentemente, em uma cesariana de emergência em um hospital chinês, ela pensou que o pior havia passado. Então, as cobranças por dinheiro começaram.

Primeiramente, afirmou Juliana, o hospital lhe disse que ela tinha de pagar US$ 630 em taxas de internação se quisesse ver suas meninas. Três dias depois, ela contou, o montante chegou a aproximadamente US$ 800.

Ela não tinha o dinheiro. As cobranças a levaram às lágrimas.

“Quero pegar minhas meninas porque preciso amamentá-las”, afirmou Juliana, uma liberiana de 28 anos que vive em Guangzhou. “Dei à luz minhas bebês e nem sequer posso vê-las. Em que tipo de país estou?”.

Na maioria dos países desenvolvidos, pacientes de urgência têm prioridade, podendo ou não pagar pelo atendimento. Esse não é necessariamente o caso na China.

Juliana está vivendo na China com um visto vencido e não sabe falar mandarim. A experiência dela, porém, é um exemplo extremo do que milhões de chineses enfrentam em um sistema de saúde que, às vezes, exige dos pacientes pagamento adiantado pelo tratamento.

A China deu início a um pacote de ajuda de US$ 130 bilhões para tornar o atendimento de saúde mais acessível. O país possui atualmente seguro-saúde quase universal para seu 1,4 bilhão de habitantes. O sistema, porém, está impregnado de falhas na cobertura. Pais de primeira viagem estão vulneráveis, de acordo com notícias da mídia estatal chinesa.

Em 2012, um casal de Shenzhen foi impedido de ver seus gêmeos recém-nascidos durante dois meses porque não podia pagar os US$ 19 mil em taxas de internação. Em 2011, um hospital em Dongguan informou a pais que deviam mais de US$ 1.600 que seu bebê recém-nascido tinha sido enviado a um orfanato, para “assustá-los" e convencê-los a pagar. Enquanto as famílias tentam recuperar seus bebês, funcionários de hospitais podem usar suas ameaças para receber os pagamentos de maneira mais rápida e completa.

Rebecca Taylor, uma conselheira de amamentação que vive em Pequim, qualificou o caso de Juliana como uma “violação dos direitos humanos”. Ela afirmou que separar mãe e filho pode ser “quase catastrófico” em termos da produção de leite materno.

“Estou entristecida, desapontada e horrorizada, mas não estou surpresa”, afirmou Rebecca. “As pessoas que vão a hospitais locais precisando de algo sabem que precisam antes passar em um caixa eletrônico para sacar um maço de notas. Você literalmente fica sem atendimento até pagar”.

Juliana reconheceu que a situação dela complicou as coisas. Seu namorado, também liberiano e pai das gêmeas, está preso na China desde setembro, afirmou ela, acusado de emprestar a conta bancária que tem na China a um amigo para uma transferência de dinheiro.

No Hospital Popular do Distrito de Huadu, em Guangzhou, onde Juliana deu à luz, as exigências por dinheiro logo começaram. Em 5 de maio, quando ela entrou em trabalho de parto, teve de pagar US$ 130 por uma “taxa de ambulância”. Depois da cesárea, no dia seguinte, ela teve de pagar um depósito de US$ 790. Ela deu à luz às 3h30, e as enfermeiras levaram as gêmeas para longe dela sem permitir que ela as segurasse. Quando ela pediu para ver as bebês, no dia seguinte, o hospital exigiu uma taxa de liberação de US$ 630, ela afirmou.

Sua amiga Salome Sweetgaye a ajudou a arrecadar o dinheiro, mas era tarde demais. Em 10 de maio, elas foram informadas que tinham de pagar US$ 800, afirmou Juliana. Ela disse ao hospital que não tinha o dinheiro. O preço foi reduzido para US$ 707. Cópias dessas contas foram vistas pelo New York Times.

Naquela tarde, ela segurou as crianças no colo pela primeira vez.

Uma mulher de sobrenome Tang, que trabalha no departamento de litígios médicos do hospital, contestou o relato de Juliana. “Definitivamente não existiu essa situação de exigir pagamento antes de permitir que ela visse as filhas”, afirmou Tang, que se recusou a fornecer seu nome completo. Ela disse que os funcionários do hospital estavam simplesmente “recordando" Juliana de que ela teria de pagar. Tang afirmou que as bebês de Juliana eram prematuras e não podiam ser retiradas da maternidade. 

Juliana rejeitou as alegações de Tang, afirmando que suas bebês nasceram saudáveis, após 37 semanas de gestação. Salome, 28 anos, corroborou o relato da amiga e afirmou que o hospital estava “mentindo”.

Juliana e suas gêmeas foram liberadas em 13 de maio, após o pagamento do montante de aproximadamente US$ 3.500, dinheiro captado por doações. Ela batizou as meninas de Grace Annabelle e Gracious Anna (“Porque sou grata a Deus por tudo”).

Felicity Miller, uma britânica que trabalhava em uma fábrica na China, afirmou que um hospital de Xangai se recusou a aplicar em sua filha prematura, nascida em 2011, uma injeção para evitar falência pulmonar, porque não tinha recebido um depósito de aproximadamente US$ 1.600. Posteriormente, a maternidade ameaçou retirar o tratamento porque a empresa de seu seguro-saúde não tinha feito um depósito de aproximadamente US$ 7.900 ao hospital. Ela contou ter deixado a China por causa dessa experiência.

“Gosto muito da China", afirmou, “mas a sensação é de que, se algo dá errado, lá não é o lugar certo para estar”.

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