Federico Rios Escobar para The New York Times
Federico Rios Escobar para The New York Times

Na Colômbia, progresso após acordo de paz segue a passos lentos

Depois de cinco décadas de guerra, a recuperação de áreas rurais não atinge os patamares esperados; novo governo hesita em manter compromissos firmados

Nicholas Casey, The New York Times

14 de junho de 2019 | 06h00

Quando o governo da Colômbia assinou um acordo de paz com o principal grupo rebelde do país, encerrando décadas de guerra e instabilidade, os dois lados apontaram para o início de uma nova era. Mas, passados dois anos e meio desde que os militantes aceitaram depor suas armas, muitas das promessas feitas deixam de ser honradas, e a perspectiva da paz não é nada certa.

Até 3 mil militantes podem ter retomado os combates. Milhões de colombianos seguem aguardando a chegada de estradas, escolas e eletricidade. Pelo menos 500 ativistas e líderes comunitários foram mortos, e mais de 210 mil pessoas foram obrigadas a deixar seus lares. E o novo presidente do país, Iván Duque, quer alterar um compromisso que foi fundamental para que os rebeldes aceitassem encerrar a violência.

As cinco décadas de guerra civil na Colômbia custaram pelo menos 220 mil vidas e devastaram o interior do país. Os serviços do governo desapareceram e a infraestrutura ruiu. Muitos recorreram à economia das drogas para sobreviver.

O acordo de paz de setembro de 2016, firmado entre o governo do então presidente Juan Manuel Santos e o maior dos grupos rebeldes, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, conhecidas como Farc, deveria encerrar a privação rural que abasteceu o conflito.

O acordo prevê ensino "universal" nas áreas rurais, cobrindo da educação pré-escolar até o ensino médio; garantia de acesso a água potável; e subsídios para programas de desenvolvimento. Em troca, os rebeldes encerrariam todas as hostilidades e entregariam suas armas.

Mas em cidades como Juan José, fica claro que pouco mudou. Essa comunidade de 8 mil habitantes ainda carece de água encanada, e nenhuma escola foi construída.

O assessor do governo Emilio Archila diz que muitas das promessas do acordo - como o fornecimento de água e eletricidade - levariam mais de uma década para serem cumpridas. "Aqueles que acham que isso pode ser resolvido em dois anos não compreendem a magnitude do problema", disse. O custo dessas mudanças foi estimado em aproximadamente US$ 45 bilhões. 

O acordo de paz pouco fez para limitar o violento comércio de drogas ao qual muitos agricultores recorreram durante a guerra. Um programa de substituição de cultivo aprovado dentro do acordo de paz prometeu remessas em dinheiro àqueles que arrancassem do chão seus pés de coca, cujas folhas são usadas na produção da cocaína, substituindo-as por gêneros cultivados legítimos.

Mas os moradores dizem que as remessas foram interrompidas depois que Duque assumiu o governo, em agosto. Foram retomados, mas as autoridades que deveriam trazer outros gêneros para o cultivo nunca vieram. Com isso, muitos retomaram o plantio da coca.

Um pilar central do acordo era a promessa de buscar a verdade de tudo que ocorreu durante o conflito, com o objetivo de alcançar a reconciliação nacional. O acordo estabelecia tribunais que ouviriam relatos de crimes e abusos.

Dez mil ex-rebeldes e 2 mil membros das forças armadas prometeram depor sob um amplo acordo de imunidade. Agora, o conservador Duque solicitou uma reforma dos tribunais, descrevendo-os como demasiadamente lenientes. Alguns temem que o objetivo dele seja desmantelá-los.

A promessa de imunidade foi fundamental para que as Farc assinassem o acordo de paz e aceitassem a desmobilização. Para os especialistas, se a pronessa for revogada, o acordo pode ser enfraquecido, com graves consequências.

Cerca de 23% das 578 provisões do acordo foram implementadas integralmente, de acordo com estudo recente. Mas o estudo projetou que, apesar do "progresso contínuo", apenas um terço dos compromissos definidos no acordo seria cumprido em um período de pelo menos 15 anos. De acordo com o estudo, o restante estaria em "estado mínimo de implementação", ou nem sequer foi iniciado.

"É inegável que o governo deixou de cumprir suas promessas, seja na reintegração de ex-combatentes, no desenvolvimento da zona rural ou nas reformas políticas", disse o senador Julián Gallo Cubillos, ex-comandante das Farc. "Houve uma negligência generalizada".

Um dos maiores fracassos é na área da segurança. O governo ainda não chegou em peso a muitas regiões rurais, e a desordem resultante da falta de policiamento se mostrou mortífera. Em maio, as Farc disseram que 130 de seus ex-combatentes foram mortos desde a assinatura do acordo. Os ex-rebeldes também se queixaram que a desmobilização os deixou indefesos diante de gangues paramilitares que ainda atuam no interior.

As coisas vão mal também na política. Líderes das Farc formaram um partido para participarem das eleições, mas seu histórico de envolvimento em sequestros e assassinatos significou uma baixa popularidade entre os eleitores, que chegaram a apedrejá-los. Desistiram da candidatura à presidência e não conseguiram se eleger para nenhum assento.

O otimismo quanto à proximidade da paz perdeu força entre pessoas como o agricultor Andrés Chica, que vive perto de Juan José. "Eles nos venderam um sonho", disse Chica a respeito de Santos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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