Yan Cong para The New York Times
Yan Cong para The New York Times

Na contramão das tensões políticas, China celebra artista taiwanesa

Cantora sem fronteiras, Teresa Teng é considerada o símbolo daquilo que o país tem em comum com Taiwan

Javier C. Hernández, The New York Times

08 de fevereiro de 2019 | 06h00

PEQUIM - Com uma cerveja na mão e um microfone na outra, Meng Xiaoli subiu no palco de um restaurante lotado e começou a cantar.

"Seu sorriso é doce como o mel,

Como flores se abrindo na brisa da primavera.

Imagino onde te vi."

Durante a semana, Meng, 53 anos, que usa um broche vermelho do Partido Comunista Chinês na lapela, passa os dias entre reuniões e relatórios como analista orçamentário de uma empresa estatal. Mas, no fim de semana, ele se recolhe no que chama de seu "lar espiritual", um restaurante e museu de dois andares em Pequim que é um santuário dedicado à mulher que ele considera uma deusa: a cantora pop taiwanesa Teresa Teng, uma das artistas mais celebradas da Ásia.

"Ela sabe como é ser humana - encontrar o amor e cometer erros", disse ele.

Teresa, que morreu subitamente aos 42 anos em 1995, era conhecida por transformar canções tradicionais taiwanesas e chinesas em sucessos no estilo ocidental. Chegou a ser proibida na China continental, com as autoridades denunciando sua música como "decadente" e "pornográfica". Mas seus fãs dedicados nunca a abandonaram, mesmo com o aumento nas tensões entre China e Taiwan, ilha independente que Pequim considera parte do seu território.

Agora, seus seguidores mais fanáticos se reúnem num restaurante temático inspirado na música de Teresa Teng no oeste de Pequim. Um imenso retrato de Teresa, sorrindo com uma rosa branca nas mãos, decora a porta da frente. Do lado de dentro, cantoras usando vestidos interpretavam versões de baladas que ficaram famosas na voz dela, como "A lua representa meu coração" e "Doce como o mel".

Mais de duas décadas após a morte dela, os fãs de Teresa no continente dizem que sua voz doce e personalidade graciosa continuam sem igual. 

"É uma contadora de histórias", disse Zheng Rongbin, executivo de mídia que inaugurou o restaurante em 2011. "Parece nossa vizinha".

Muitos habitantes do continente consideram Teresa uma conterrânea, embora ela tenha nascido em Taiwan. O pai, que cresceu na província chinesa de Hebei, era membro das forças nacionalistas que resistiram aos comunistas de Mao Tsé-tung na Guerra Civil Chinesa. Ele fugiu para Taiwan em 1949, quatro anos antes do nascimento dela.

Teresa foi uma das primeiras cantoras estrangeiras cuja música chegou à China depois que o país começou a abrir sua economia para o restante do mundo no fim dos anos 1970.

Mas a música dela logo foi banida como parte de uma campanha do governo comunista para deter a "poluição espiritual" vinda do Ocidente. O governo taiwanês usou a música dela como arma psicológica, tocada num volume altíssimo em falantes posicionados perto do continente. Mas Teresa nunca se apresentou na China. Nos anos mais recentes, o governo começou a aceitar a música dela, e a mídia estatal celebrou seus elos com o continente.

Zheng contou que a música de Teresa era popular no continente por lembrar as pessoas dos anos após o caos da Revolução Cultural de Mao.

"Para muitos, foi uma experiência muito nova e muito diferente do que ouviam durante a Revolução Cultural", disse ele. "Agora, quando as pessoas escutam essas canções, lembram de como eram as coisas na sua juventude".

Teresa é celebrada como símbolo de algo que China e Taiwan têm em comum num momento em que as relações entre os dois países se deterioraram. Mas Zheng disse que não estava pensando em política quando abriu o restaurante: "A música não pensa em fronteiras". / Charlotte Pu e Albee Zhang contribuíram com a reportagem.

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