(Joseph Michael Lopez/The New York Times)
(Joseph Michael Lopez/The New York Times)

Na era da internet, jornaleiro sobrevive mantendo boa relação com clientes 

Ram Badan Singh deixou o mestrado em Engenharia na Índia há 36 anos e virou jornaleiro em Nova York

Patrick Farrell, The New York Times

09 Maio 2018 | 10h15

Antes do amanhecer, numa manhã de abril de muita ventania, a única movimentação em uma esquina de Nova York vinha de um homem com um sobretudo de capuz manchado de tinta, calças largas e óculos grandes e redondos, que quase o escondiam enquanto ele movia uma pilha de jornais. 

Ele certamente parecia invisível ao crescente cortejo de transeuntes com ouvidos tapados por fones ou olhares fixos nas pequenas telas: o pessoal da corrida, por volta das 5h30, e as pessoas passeando seus cães às 6h.    

Então chegava o pessoal dele, congestionando a calçada ou parando os carros próximo ao meio-fio, para entregar-lhe notas de dólar, pegar o jornal da manhã e olhar seu rosto enrugado, envolto pelo capuz do agasalho.

“Tudo bem com você, Singh?”, perguntavam. “Quais as notícias do dia, Singh?”

O jornalismo impresso está em perigo. A audiência migrou para a internet. O dinheiro vivo está virando coisa do passado. Ainda assim, Ram Badan Singh, que deixou um emprego de engenheiro civil na Índia para vir a Nova York aos 42 anos, ainda consegue ganhar a vida apesar desses três fatores, no mesmo ponto em que começou a trabalhar 36 anos atrás.

Ele vendeu jornais diante de uma estação de metrô, sem nenhum dia de folga, sob tempestades de neve e chuvas pesadas ou em meio a intensas ondas de calor.

Tudo leva a crer que, em julho, ele completará 81 anos de idade sem deixar o posto na entrada lateral de um prédio de apartamentos construído antes da 1ª Guerra Mundial, conhecido como Casa Branca. “Me recordo de tantos furacões”, afirmou sorrindo, com pesar. “Trezentos e sessenta e cinco dias por ano, sem faltar.”

Essa Casa Branca alterna momentos em que o recebe bem e ocasiões em que o rejeita. A atual administração do prédio proibiu sua entrada num saguão ao qual ele recorria nas madrugadas mais frias e molhadas.

Mas ele persevera há tanto tempo nessa esquina em razão da dedicação que tem ao seu trabalho e da dedicação que seus clientes têm a ele.

Eles tomaram a decisão de continuar comprando seus jornais, pagando o preço integral cobrado nas bancas e frequentemente desviando vários quarteirões em relação ao caminho mais curto, preferindo isso a ler as notícias online ou receber as publicações em casa.

Eles buscam as refeições para viagem que Singh come. Compram para ele novos casacos, cachecóis e tênis. Alguns trocam e-mails entre si a respeito da saúde dele (“Ele só chegou à esquina às 5h30, não às 3h, como de costume”, contou um vizinho a outro, em uma mensagem de 2014. “Ele disse que agora tem de tomar xarope para tosse duas vezes durante a noite e, desta vez, apagou por causa disso”).

Um médico da Casa Branca conseguiu para ele um exame gratuito de raio-x do tórax. O zelador de um outro prédio deixa ele usar o banheiro.

Sujeito discreto, Singh pode parecer triste e taciturno em alguns dias, e vívido e cheio de opiniões em outros.

“Continuei com Singh por lealdade”, afirmou Ken Coughlin, que administra um site de informações jurídicas e tem comprado dele o New York Times todos os dias há pelo menos 20 anos - o que lhe custa anualmente cerca de US$ 1.250. “Ele faz parte da vizinhança, faz parte da minha vida. Quero ajudá-lo.”

Coughlin e outros sabem pouco a respeito da vida do jornaleiro, mas Singh conhece todas as preferências e peculiaridades deles. Ele percebe quando os clientes não aparecem um dia e se oferece para guardar seus jornais. Retira o lixo da calçada, avisa os usuários do metrô quando os trens não estão circulando, alimenta pássaros e cachorros e segura a porta quando algum morador da Casa Branca precisa de ajuda.

Seu lar é um apartamento de hotel arrendado, onde vive sozinho. Ele não tem parentes nos Estados Unidos. 

Para Singh, tudo se resume a sua esquina. “Se não estou lá para os meus vizinhos, não me sinto bem”, afirmou. “Gosto dos meus clientes. Cumpro a minha função.”

Singh nasceu no estado de Bihar, nordeste da Índia, o terceiro filho de uma família com seis crianças. Seu pai morreu quando ele tinha 8 anos.

Ele obteve um mestrado em engenharia e então conseguiu um emprego público. Mas foi ficando cada vez mais desiludido em razão dos subornos e da corrupção institucionalizada. “Eu era o único sujeito honesto”, afirmou.

Singh chegou ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy em 1980, com 300 dólares no bolso e o endereço do amigo de um amigo. Mas o diploma indiano de engenharia valia pouco nos EUA. Ele trabalhou com vendas antes de se aproximar do Times, onde um gerente sugeriu a ele que vendesse jornais diante da Casa Branca. Começou em 23 de abril de 1982.

Singh ganha cerca de 25 dólares nos dias da semana (40 dólares aos domingos).

Para alguns na vizinhança, ele evoca uma cidade menos darwiniana. “É como se ele fosse parte de uma Nova York dos velhos tempos, na qual as pessoas ainda cuidavam umas das outras”, afirmou Maxine Davis, que vive na região desde 1979. “Quem constitui a vizinhança no longo prazo? Tenho uma forte impressão que as pessoas precisam disso.”

Apesar de suas vendas terem caído de aproximadamente 800 exemplares ao dia para cerca de 80, os resultados dele superam os de muitas bancas de jornal, de acordo com os registros do Times.

Os vizinhos se perguntam se ele tem meios para se aposentar em Nova York; alguns cogitam deixar algo para ele em seus testamentos. Por hora, seu plano é simplesmente continuar trabalhando.

Mas ele é um pouco desonesto com as pessoas que lhe fornecem os jornais, temendo que decidam que ele está velho demais para o trabalho. “Digo que tenho 62 anos”, afirmou Singh com um sorriso maroto. 

“Deste modo, tenho mais três anos pela frente antes de ter de me aposentar.”

Jack Begg colaborou com reportagem.

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