Gianfranco Tripodo para The New York Times
Gianfranco Tripodo para The New York Times

Na Espanha, aumento recorde do salário mínimo desencadeia debate

Críticos afirmam que medida vai provocar perda de empregos e elevar custo das empresas

Liz Alderman, The New York Times

19 de março de 2019 | 06h00

MADRI - No momento em que a Espanha está às voltas com uma crise política, um dos últimos governos socialistas da Europa poderá cair dentro em breve enquanto o país assiste à ascensão de um novo nacionalismo. Mas qualquer que seja o desfecho, o primeiro-ministro Pedro Sánchez deixa um legado que o distingue particularmente: um aumento recorde do salário mínimo.

O crescimento de 22%, que entrou em vigor no dia 1º de janeiro, para 1.050 euros (cerca de US$ 1.200) ao mês, é o mais elevado da Espanha em 40 anos. Entretanto, a medida desencadeou um debate em que se discute se exigir que os empregadores paguem mais  aos seus empregados constitui um divisor de águas social ou um arriscado experimento de engenharia econômica.

Sánchez insiste que o plano sustentará o crescimento colocando mais dinheiro nos bolsos dos trabalhadores que ganham pouco, dinheiro que voltará para a economia com o aumento dos gastos com o consumo. Os críticos, como o próprio banco central da Espanha, alertaram que a medida acabará eliminando dezenas de milhares de empregos, aumentando os custos para as empresas.

Trata-se de um debate que está ocorrendo em todo o mundo, enquanto políticos e autoridades tentam solucionar os problemas da desigualdade que causa danos à economia. Em todo o continente, a crise a respeito do atual padrão de vida vem alimentando protestos, como o movimento dos Coletes Amarelos na França, que obrigou o presidente Emmanuel Macron a aumentar o salário mínimo por meio de subsídios.

Na Espanha, a revolta contribuiu para a ascensão de um novo partido de extrema direita, o Vox, com uma plataforma nacionalista que se alimenta do temor de que os imigrantes roubem os empregos locais. É possível que nas eleições de abril o Vox consiga pela primeira vez cadeiras no Parlamento nacional.

Sánchez tentou acabar com as medidas de austeridade na Espanha. Ao contrário da tendência a a implementar o ajuste fiscal em outros países europeus, ele procurou aumentar os gastos sociais, para as crescentes camadas da população que desceram na escala econômica.

Mas como o partido socialista detém apenas 84 das 350 cadeiras no Parlamento, Sánchez forçou a aprovação do aumento do salário mínimo com um decreto. O seu orçamento para 2019 propunha mais gastos para a previdência social e as aposentadorias, e um aumento dos impostos sobre as empresas e os ricos.

Os parlamentares rejeitaram a sua proposta em fevereiro, obrigando Sánchez a convocar eleições gerais antecipadas em abril, que provavelmente determinarão a sua saída. Entretanto, Sánchez está apostando que a sua pressão para os aumentos dos salários amainará a indignação com a desigualdade das rendas. Ele se referiu ao risco de adotar uma linha populista ao apresentar uma plataforma de gastos sociais.

“Um país rico não pode ter trabalhadores pobres”, afirmou Sánchez no Parlamento. Embora a economia da Espanha tenha se recuperado rapidamente da crise financeira que golpeou a Europa, a desigualdade das rendas cresceu. Cerca de 14% dos espanhóis hoje são considerados trabalhadores na pobreza: pessoas que têm empregos mas não podem prover regularmente as suas necessidades básicas. 

No ano passado, a parcela da renda nacional paga aos trabalhadores  que em 2007 era de 63%, caiu para 56%, enquanto o ritmo de crescimento dos salários reais declinava, afirmou José Manuel Amor, sócio da AFL, uma empresa de pesquisas sediada em Madri. María López, 57, trabalha como funcionária do check-in no aeroporto internacional de Madri.

María disse que o aumento salarial permitirá que ela e o marido, que perdeu o emprego de motorista e recebe auxílio-desemprego, gastem mais com itens que haviam deixado de lado, como uma nova lavadora de roupas. “Temos muitas necessidades que não podemos satisfazer”, disse María. “Agora, precisamos começar a gastar imediatamente”.

O número de trabalhadores que recorrem aos bancos para conseguir pagar as contas aumentou, disse Amor. O crédito aos consumidores na Espanha saltou de 110 bilhões de euros em 2015, para 131 bilhões no ano passado, acrescentou. O banco central da Espanha alertou que cerca de 125 mil empregos poderão se perder este ano. O BBVA, o maior banco espanhol, estima que é possível que o número chegue a 160 mil.

É provável que o aumento das margens de lucro nas grandes companhias espanholas permita que elas absorvam o aumento dos custos do trabalho. Mas as pequenas empresas enfrentarão problemas maiores. Mais de 95% das empresas da Espanha são pequenas e médias, e muitas delas operam com margens mínimas, disse Celia Ferrero, a vice-presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores Autônomos.

“Você não encontrará alguém que conteste a necessidade de salários mais altos”, disse Celia. “A questão é se as firmas terão condições de pagar”. Lucio Montero, proprietários da General Events, que produz estandes para convenções, emprega oito pessoas. Ele paga a cada uma 1.400 euros por mês. “Vou ter de pensar duas vezes antes de contratar mais gente”, disse.

As autoridades afirmam que a medida não visa afetar pessoas como Montero. O alvo são as empresas maiores que podem pagar mais, depois de segurarem os salários durante anos. “Esta é uma luta para o retorno a um trabalho estável, bem pago”, disse Magdalena Valerio, ministra do Trabalho da Espanha. “Precisamos garantir que os trabalhadores tenham condições justas. De outro modo, voltaremos ao século 18”, declarou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.