Alessandro Grassani / The New York Times
Alessandro Grassani / The New York Times
Steven Erlanger, The New York Times

22 de março de 2020 | 06h00

BRUXELAS – O “Museu dourado” da Europa está vazio e cheio de ecos. As grandes praças e estádios estão despovoados, os museus fechados, as igrejas hesitam com os seus serviços, os restaurantes finos e os bares também fecharam as portas. O coronavírus não está apenas se espalhando, mas também contaminando as sociedades com uma sensação de insegurança. Acima de tudo, cortou a humanidade do seu conceito de controle e da invencibilidade das instituições, ciência e democracias.

Se isto for verdade, em toda parte onde o vírus for, principalmente na Europa, com sua história do Iluminismo, em que a vida é vivida em uma escala íntima, com beijos nos rostos. Isto acabou. Hoje os europeus recebem a ordem de se esconderem, criando fronteiras entre os países, dentro das cidades, ao redor de suas casas – para se protegerem dos vizinhos, até mesmo dos netinhos.

Combater um vírus que não respeita as fronteiras, esta Europa moderna está erguendo em toda parte. Mas diferentes países têm respostas diferentes, e cada passo desigual aumentou a sensação de divisão. e o sentimento de que o problema foi criado por alguém mais.

“O paradoxo de um vírus que não conhece fronteiras é que a solução exige que elas existam”, disse Nathalie Tocci, assessora da União Europeia. “Mas erguê-las de uma maneira não coordenadas não ajuda”. Na realidade, erguê-las pode não fazer muita diferença. A ameaça invisível já se encontra no seu interior.

Mesmo assim, há um inevitável retorno ao Estado em busca de controle e mais segurança. À medida que a pandemia se espalha, há um senso crescente da necessidade de métodos duros, até mesmo autoritários, muitos deles adotados pela China. Depois de olhar a epidemia na China com indiferença, a Europa ficou aterrorizada pela Itália.

De repente, muitos países do continente estão tentando fechar as portas, para se protegerem e aos seus cidadãos. A ideia de solidariedade europeia, e de uma Europa sem fronteiras onde os cidadãos estão livres para viajar e trabalhar, parece muito distante. Se a pandemia tem a lógica da guerra, exigindo uma ação forte, o inimigo talvez seja a pessoa que está ao seu lado.

"Não é mais uma questão de fronteiras entre estados, mas entre indivíduos”, disse Ivan Krastev, que dirige o Center for Liberal Strategies em Sofia, Bulgária, e colaborador do New York Times. “Agora, você teme o indivíduo”, afirmou. “Todo mundo ao seu redor pode ser um perigo”, Krastev escreveu sobre a crise da imigração da Europa, e a definiu como um choque tão profundo quanto o da queda do comunismo. “Agora, não são os imigrantes que você teme, mas todo mundo”.

A narrativa da crise dos migrantes incluiu metáforas de hordas e até mesmo insetos, e afirma que os migrantes levaram doenças; Eles queriam deixar suas vidas desgraçadas e chegar a uma Europa que consideravam segura e rica. Mas ela não é mais segura. Agora, os migrantes se perguntam: ‘Será esta praga pior do que a guerra? disse Krastev. “Você não pode negociar com a praga, nem fugir dela”.

Há dez anos, Dominique Moïsi, um cientista político francês casado com uma italiana, escreveu um livro intitulado The Geopolitics of  Emotion, explicando as tensões causadas pela globalização em termos de humilhação, esperança e medo. “Hoje”, afirmou, “a emoção predominante é o medo”.

“A crise do Covid-19  adiciona incerteza  à incerteza, medo ao medo, acelerando um processos de ansiedade a respeito de um mundo que está andando depressa demais”, acrescentou Moïsi, referindo-se  à doença causada pelo vírus. Com o terrorismo, o pânico econômico, a mudança do clina e a imigração, afirmou, “os elementos fundamentais são incertos e o futuro desconhecido”. Ele sente falta dos abraços e dos beijos dos seus netos e começa a pensar na morte.

Entretanto, a movimentação da sociedade “é ainda mais difícil e necessária porque o inimigo é invisível”, observou Moïsi. Parfis viveu o terrorismo e viu 150 mortes em uma única noite em 2015, observou. “Foi algo brutal, mas visível”, prosseguiu, enquanto “no final, o número de mortos por causa do vírus será maior, mas invisível”.

Por isso, é difícil para os governos aprender a pedir calma durante os ataques terroristas a pessoas agora apavoradas para agirem pelo bem comum. Durante a grande Peste Negra do século 14, as pessoas acreditavam que Deus condenara os que morreram e escolheu os que decidiu poupar. “É mais difícil encontrar moralidade em quem está morrendo, acrescentou Krastev.

Em 2003, George Steiner, o filósofo europeu que morreu no mês passado aos 90 anos, escreveu um ensaio intitulado The Ida of Europe. A identidade cultural da Europa, escreveu, baseia-se em uma cultura de café e cafés, onde as pessoas se encontram, leem, escrevem e conspiram. São lugares, disse Steiner, “para convocações, para o debate intelectual e o mexerico, para o flâneur e o poeta ou o metafísico e o seu caderno de notas”, abertos a todos.

A da Europa é também uma cultura pedestre, fundada nas praças. A Europa “é percorrida a pé”, escreveu, “em uma escala humana”. Agora, com os cafés fechados e as praças vazias, ambas estas características  foram destruídas, levando ao isolamento e à solidão, disse Krastev. Mas talvez o mais importante, segundo Steiner, é a sensação europeia de morte e decadência, que ele chamou de uma “autoconsciência que, acredito, talvez seja a única para a consciência europeia”.

Profundamente arraigada no cristianismo e na filosofia europeia está “uma finalidade trágica, escreveu, acrescentando: “É como se a Europa, ao contrário de outras civilizações, tivesse intuído que um dia, entraria em colapso sob o peso paradoxal de suas realizações e da riqueza e complicação sem paralelos de sua história”.

O tom é sombrio. No entanto, disse Tocci, às vezes é quebrado por atos surpreendentes de humanidade e solidariedade comuns. Ela fica em casa, em Roma, como marido e os filhos, e tenta concentrar-se nos melhores aspectos da quarentena. Os italianos cantam juntos dos seus terraços segregados e demonstram uma simpatia comum pelos trabalhadores médicos esgotados, ela observou.

“A beleza disto, até agora, é que não levou à alienação”. “As pessoas têm medo, mas em geral mostram responsabilidade e solidariedade. Há tantas mensagens por aí, algumas delas cheias de humor e de uma comunidade compartilhada’. A filha de Krastev acabava de voltar da Espanha e não entendeu por que não poderia ficar aqui. “Mas eu disse a ela: ‘A Espanha que você ama desaparecera em 48 horas’”, contou.

Muitos veem La Peste, um romance alegórico de Albert Camus publicado em 1947, como uma lição não só pelo modo como as pessoas se comportam em uma pandemia, mas em como a natureza irrompe em zombarias pelas nossas pretensões. Quando a peste bubônica  finalmente acaba nesta alegre cidade, o personagem principal, Bernard Rieux, lembra que a doença “nunca morre ou desaparece”, mas espera o momento. “Talvez chegue o dia”, ele pensa, “em que para infelicidade e instrução dos homens a praga desperte os seus ratos e os mande morrer em uma cidade feliz”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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