Andrea Mantovani para The New York Times
Andrea Mantovani para The New York Times

Na França, alta súbita na morte de golfinhos preocupa biólogos

As carcaças resgatadas indicam ferimentos por redes de pesca, elevando as tensões entre pesquisadores e pescadores

Elian Peltier e Andrea Mantovani, The New York Times

17 de maio de 2019 | 06h00

LA ROCHELLE, FRANÇA - No raiar do dia de um sábado recente, a tripulação do pesqueiro L'Arlequin II recolheu sua rede em forma de cone no Golfo da Biscaia e encontrou centenas de peixes no fundo, como de costume. Havia também dois golfinhos mortos.

Um número recorde de 1.200 golfinhos apareceram mortos na costa atlântica da França desde janeiro, a maioria com ferimentos indicando que teriam morrido depois de ficarem presos em redes de pesca. Para cada carcaça que chega às praias, há muitas outras apodrecendo no mar, de acordo com biólogos marinhos, o que indica que até 6 mil dos 200 mil golfinhos comuns que habitam o Golfo da Biscaia podem ter morrido no intervalo de apenas quatro meses. A maioria concorda que a pesca é responsável, mas esse é o limite do consenso. 

Pescadores afirmam que a captura acidental de golfinhos ainda representa uma minoria dos casos, chegando a ser excepcional, enquanto cientistas alertam que os pesqueiros representam uma grande ameaça aos mamíferos.

Ativistas do grupo ambiental the Sea Shepherd Conservation Society acabam de concluir uma iniciativa de dois meses documentando as mortes e as embarcações responsáveis por elas. "Trata-se de uma realidade pouco documentada, algo que ocorre em mar aberto, longe dos olhares do público", disse o voluntário Justin Barbati, 27 anos, enquanto pilotava um bote inflável perto do L'Arlequin II.

A presença dos ativistas enfurece os pescadores. "Tudo bem a Sea Shepherd combater os caçadores de baleias no Japão, mas por que eles perseguem a nós, pescadores decentes e pequenos? Só porque alguns de nós apanham golfinhos acidentalmente? É uma reação desproporcional", lamentou Jean Lagarde, 75 anos, do porto de La Rochelle, na costa do Atlântico.

Faz tempo que o Golfo da Biscaia, a vasta baía a oeste da França e ao norte da Espanha, é um santuário para golfinhos, repleto de cardumes de sardinhas, arenques e outros peixes que esses mamíferos comem. Os biólogos do Observatório Pelagis, em La Rochelle, financiado pelo governo, observaram uma alta nas mortes de golfinhos em 2017, quando 1.200 deles foram encontrados no litoral francês, seguidos por outros 900 em 2018.

   

Os pescadores disseram que não houve alteração no número de embarcações no golfo, que chega a 600 no inverno e na primavera. Mas, como resultado das restrições à pesca do linguado, que vive junto ao leito do mar, alguns barcos estão usando rendes mais altas, o que levou à captura indesejada de um maior número de golfinhos.

Uma proibição a métodos de pesca que capturam todas as criaturas presentes representaria uma ameaça ao sustento de centenas de pescadores. O governo financia a pesquisa de repelentes acústicos, que emitem um ruído para afastar os golfinhos. Mas o pesqueiro L'Arlequin II, que usa esses repelentes, ainda captura golfinhos inadvertidamente.

"No Golfo da Biscaia, os golfinhos são predadores, mas a indústria da pesca os está transformando em presa", disse Lamya Essemlali, diretora da Sea Shepherd na França. "Podemos debater quais seriam as melhores medidas, mas isso tem de acabar agora." /  TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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