Dmitri Kostyukov para The New York Times
Dmitri Kostyukov para The New York Times

Na França, serviços de entrega são acusados de explorar imigrantes

Entregadores afirmam que companhias estão contratando mais ciclistas e que remuneração está piorando

Liz Alderman, The New York Times

25 de junho de 2019 | 06h00

PARIS - Aymen Arfaoui prendeu a embalagem de plástico da Uber Eats e deu uma olhada no celular para procurar o caminho mais rápido de bicicleta, antes de mergulhar no trânsito de automóveis da Place de La République. Tempo é dinheiro, e Arfaoui, um nervoso imigrante de 18 anos, precisava de grana.

“Estou fazendo isso porque preciso comer”, disse. “É melhor do que roubar ou pedir esmola na rua”. Aymen não tem documentos que lhe permitam trabalhar, por isso, receberia pouco mais do que a metade dos ganhos com as entregas do dia. Ele disse que devia o restante a um entregador de bicicleta francês que acha o que a Uber Eats paga uma mixaria - 3,50 euros (pouco menos de US$ 4) por pedido, mais um pouco de acordo com a distância - para ele próprio fazer o serviço.

O entregador parisiense terceirizou de maneira ilegal Argaoui, que mora há um mês em um carro abandonado, desde que chegou da Tunísia. O imigrante adolescente contou que naquele dia ganhou 17 euros por quatro horas de trabalho. A entrega de comida tornou-se um negócio multibilionário porque a Uber, a plataforma de entrega Deliveroo, de Londres, e ambiciosos concorrentes brigam para conseguir mercados e consumidores. Mas a concorrência reduziu os ganhos dos entregadores, fazendo com que alguns explorem os que estão mais desesperados por um trabalho.

Na França, alguns entregadores que se registraram nestes aplicativos alugam a sua autorização. Os ciclistas que os substituem muitas vezes são migrantes ilegais, gente que busca asilo e menores  adolescentes dispostos a trabalhar longas horas por uma remuneração mínima. Os entregadores negociam estes acordos na rua ou por meio do Facebook, WhatsApp e Telegram, e ficam com 30 a 50% dos ganhos.

“Estes trabalhos tornaram-se mais precários”, disse Jean-Deniel Zamor, presidente da associação Coletivo de Entregadores Independentes de Paris. “O fato de haver menos dinheiro das plataformas levou pessoas pobres a terceirizar esta atividade para gente ainda mais pobre do que elas”.

Até o momento, tratava-se de uma atividade em pequena escala, com aproximadamente 20 mil entregadores na França, mas o problema foi constatado na Grã-Bretanha e também na Espanha. A Uber Eats e as concorrentes Stuart, um aplicativo francês, e Glovo, na Espanha, afirmaram que têm consciência do crime.

“Estamos preocupados porque estas são práticas ilegais em que algumas pessoas se aproveitam da vulnerabilidade de outras”, disse Nicolas Breuil, um gerente da Stuart. A Uber Eats disse que não tolerará trabalho ilegal ou de menores. A Glovo monitora o tempo gasto nas entregas para identificar os comportamentos suspeitos. A Stuart informou que chegou a descobrir pelo menos doze substitutos ilegais por mês.

O fiscal do trabalho em Nantes, uma das maiores cidades da França, abriu um inquérito. Stuart e Deliveroo disseram que conversaram com as autoridades francesas a fim de impedir eventuais abusos. “É um grave problema”, afirmou Alexandre Fitussi, diretor geral da Glovo na França, acrescentando que descobriu que pelo menos 5% dos seus 1.200 entregadores semanais estavam na França ilegalmente.

Até pouco tempo atrás, os serviços de entrega de comida não chamavam muito a atenção na França, onde as refeições à mesa são um totem cultural. Em 2015, a Deliveroo começou a oferecer comida fora dos cardápios dos bistrôs e dos restaurantes de fast food. A Uber Eats e outras surgiram em seguida.

As plataformas atraíram milhares de trabalhadores, principalmente nos bairros franceses onde o desemprego é muito elevado. No entanto, os entregadores afirmam que as companhias estão contratando mais ciclistas e que a remuneração está ficando pior. Os candidatos devem se apresentar como autônomos para que as companhias evitem as despesas relacionadas ao trabalho em tempo integral.

“A cada ano, ganhamos menos, entregamos menos”, disse Florent, um ciclista com cerca de 25 anos. “Eles mudam as condições, cortam o pagamento ou mudam as regras do pagamento”. Florent já trabalhou para três aplicativos de entrega e agora aluga a sua identidade em cada aplicativo a trabalhadores sem papéis regulares por 30% dos seus ganhos.

Yoyussef El Farissi, 18, que vive em Avignon, no mês passado alugou a sua autorização da Uber Eats a uns dez trabalhadores sem documentos. Seis dos seus amigos estão fazendo o mesmo. “Se fosse mais bem pago, todo mundo ficaria com a sua própria autorização e trabalharia”, ele disse.

Como os migrantes não cessam de chegar à Europa, a França tem uma população cada vez maior de pessoas que pedem asilo e não podem ser empregados enquanto o governo analisa os vários casos. Arfaoui disse que tinha poucas alternativas. Deixou a Tunísia, onde a economia é problemática, e em setembro pegou um barco com centenas de outras pessoas que saíram da Líbia. Desembarcou na Itália, contou, e se escondeu em trens que iam para a França. Ele poderá candidatar-se ao asilo.

“Conheci um sujeito que me alugou a sua autorização na Uber Eats por 100 euros por semana”, ele disse, e trabalhou até 13 horas por dia, ganhando cerca de 200 euros por semana. O sonho de Arfaoui é ter um emprego de peixeiro, mas para isto precisaria de papéis que ainda não tem. “Ser um entregador de comida é mais fácil”, admitiu, “Ninguém verifica a sua identidade, e você pode achar logo uma autorização”. / Constant Meheut contribuiu com a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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