Toby Melville/Reuters
Toby Melville/Reuters

Na Grã-Bretanha, risco de incêndio em edifícios assombra população

Dois anos após tragédia que deixou 72 mortos, o governo britânico fez pouco para endurecer leis que permitem uso de revestimentos perigosos em construções

Benjamin Mueller, The New York Times

16 de junho de 2019 | 06h00

LONDRES - Quando o fogo irrompeu no Edifício Grenfell, as chamas se alastraram com uma rapidez espantosa pela estrutura de 24 andares, matando 72 pessoas no incêndio que provocou mais vítimas em habitações desde a Segunda Guerra Mundial. Assim que os ingleses tomaram conhecimento de que o revestimento do prédio o havia transformado em uma armadilha mortal, a primeira-ministra Theresa May prometeu que o desastre nunca mais se repetiria. No entanto, dois anos mais tarde, dezenas de milhares de construções continuam ameaçadas.

Cerca de 16 mil apartamentos ainda estão revestidos externamente com o material que alimentou o fogo no Edifício Grenfell. Os proprietários sentem-se presos praticamente em barris de pólvora que não conseguem vender, e alguns mantêm patrulhas de guarda à espreita de sinais de fumaça. Embora o governo tenha procurado retirar os revestimentos dos edifícios públicos, 8.400 apartamentos privados ainda aguardam uma reforma completa.

Um ano antes do incêndio, as construtoras reformaram o Edifício Grenfell com painéis baratos de alumínio, proibidos em muitos países porque permitem que as chamas se espalhem rapidamente. Mas as normas inglesas são mais brandas. Como a superfície do revestimento - o alumínio - não é inflamável, o que havia em seu interior - neste caso, uma camada de plástico que não passava de combustível sólido - não foi considerado de muita importância.

Quando o prédio pegou fogo depois da explosão de um refrigerador, o plástico se incendiou e as chamas tomaram conta da fachada lateral da construção. O bloco de habitações foi reduzido a cinzas; a casca chamuscada ainda pode ser vista em Londres.

Para muitos, a imagem constitui a denúncia de uma cruzada que há décadas está sendo travada no país contra a regulamentação. Especialistas afirmam que sucessivos governos britânicos abrandaram as normas para a construção de edifícios, permitiram que empresas privadas assumissem a fiscalização das obras, e então abriram as portas para a utilização de material inflamável.

Os investigadores começaram a procurar arranha-céus com o mesmo revestimento usado no Grenfell. Encontraram nada menos que 433, e sua eliminação foi ordenada. Mas em abril deste ano, menos de cem haviam atendido à ordem.

"Se ficarmos pensando nisso, vamos enlouquecer", afirmou Rachel Guy, cujo edifício de apartamentos de dez andares, em South London, foi revestido em parte pelo mesmo alumínio e plástico do Grenfell. "A gente está morando em um edifício que fundamentalmente não tem segurança alguma".

Na Inglaterra, a maioria dos apartamentos é adquirida em prestações a longo prazo, e até o final do pagamento o comprador tem apenas o direito de locação do imóvel. Com isso, torna-se difícil responsabilizar os proprietários dos imóveis pelos revestimentos. Na realidade, muitos pressionaram os moradores a pagar pela substituição do material. A conta de Rachel chegou a 70 mil libras, ou US$ 89 mil por apartamento.

Em maio, o governo destinou uma verba de cerca de US$ 234 milhões para a obra. Mas ela poderá levar anos. E o revestimento do tipo do Grenfell, coberto pela verba, não é o único problema. Mais de 1.300 edifícios como hospitais, lares para idosos, escolas e hotéis têm exteriores de material inflamável, avalia a Rockwool, fabricante de outro tipo de isolamento, mas não são contemplados para a reforma. 

Em seu discurso de renúncia em maio, a primeira-ministra May vangloriou-se da resposta do governo ao incêndio do Grenfell como uma de suas maiores realizações.

Entretanto, um sindicato de bombeiros definiu como "desgraça" o fato de ela ter comemorado uma iniciativa que deixou em perigo dezenas de milhares de pessoas. Os especialistas estão particularmente preocupados com os escassos esforços empreendidos para proteger moradores com deficiências e idosos, que terão dificuldade para escapar.

"É uma questão de tempo para que inúmeros cidadãos vulneráveis venham a perecer", afirmou Jonathan O'Neill, diretor administrativo da Associação para a Proteção contra Incêndios, organização nacional de segurança contra o fogo da Grã-Bretanha. "Estou absolutamente convencido disso". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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