Melissa Golden para The New York Times
Melissa Golden para The New York Times

Na igreja com Jimmy Carter

Para conseguir um lugar no santuário da Igreja Batista Maranatha, onde o ex-presidente leciona, é preciso chegar ao local antes das 6h da manhã

Margaret Renkl, The New York Times

28 Abril 2018 | 10h00

Eu sabia que estava numa enrascada assim que cheguei ao estacionamento do hotel Quality Inn, em Americus, Geórgia, numa noite de sábado. Estava escuro, mas foi possível reparar nas placas de fora do estado: Novo México, Pensilvânia, Califórnia, Alasca, lugares distantes desta terra de fazendas de amendoins.

Todos estavam ali pelo mesmo motivo: ver o ex-presidente Jimmy Carter lecionando na escola dominical da Igreja Batista Maranatha, na cidade de Plains, nas imediações. E, a julgar pelo estacionamento lotado, encontrar um assento na manhã seguinte seria um desafio. Depois que Ronald Reagan assumiu a presidência, em 1981, Carter Voltou para Plains, sua cidade natal. Durante a mais longa e influente carreira pós-presidencial da história dos Estados Unidos, ele continuou lecionando na escola dominical, e as aulas sempre foram abertas ao público.

O compromisso de Carter com os direitos humanos, exercido principalmente por meio das organizações Habitat for Humanity e Carter Center, que trabalham para erradicar a pobreza e as doenças e cultivar a democracia, valeu a ele o Prêmio Nobel da Paz de 2002. Em seu discurso na cerimônia de premiação, ele disse, “Deus nos dá a capacidade de escolha. Aliviar o sofrimento alheio pode ser nossa escolha. Trabalhar juntos pela paz pode ser nossa escolha”.

Mesmo quando não está lecionando na escola dominical, sua inabalável fé cristã informa tudo que ele diz e faz. Minha própria fé nas instituições religiosas e democráticas não foi tão inabalável assim, principalmente depois que os cristãos brancos colocaram na Casa Branca um demagogo. Mas sempre quis assistir a uma de suas aulas na escola dominical. Quando Carter, 93 anos, anunciou que reduziria sua participação nas aulas da igreja e publicaria um novo livro, “Faith: A Journey for All”, interpretei isso quase como um sinal. Carter ainda tem fé nos EUA, e eu torci para que sua aula na escola dominical ajudasse a restaurar minha própria fé no país.

O santuário da Igreja Batista Maranatha tem lugar para 350 pessoas, e há uma sala para o excedente, com transmissão em vídeo ao vivo, acomodando cerca de 100 pessoas. “Com base nas tendências recentes de participação, os visitantes que chegaram antes das 6h da manhã conseguiram tranquilamente um lugar no santuário", diz o site da igreja.

Pus o despertador para um horário que eu não via desde 1998, a última vez em que havia um recém-nascido em casa. Quinze minutos antes do alarme tocar, acordei com o barulho do encanamento enquanto alguém no quarto ao lado começava a tomar banho, o que me fez entrar no banho também. Disputar uma vaga na escola dominical com desconhecidos não é algo que evoque o espírito da caridade cristã, mas eu não queria perder o lugar naquele santuário.

Cheguei na igreja e recebi um número — 41 —, sendo instruída a parar no pomar porque o estacionamento já estava cheio. Às 7h45 foi hora de entrar na fila para a revista do serviço secreto. Um membro da igreja disse que eu não tinha chegado a tempo de garantir um lugar no santuário, mas não seria completamente impossível resolver isso.

Graças ao madrugador do hotel, consegui entrar no santuário. Enquanto esperávamos a chegada de Carter, conversei com um pastor batista sentado no banco atrás de mim a respeito de uma entrevista recente com Stephen Colbert, na qual Carter deu a entender que considera o atual presidente dos EUA um mentiroso.

Quando Colbert perguntou a ele o que era necessário para se tornar presidente, ele respondeu: “Antes, eu pensava que o necessário era dizer a verdade. Mas, recentemente, mudei de opinião".

Relances da mesma ironia foram mistos na igreja de Plains. “Temos algum visitante esta manhã?” brincou Carter, falando ao público. Ele perguntou de onde vinham os frequentadores, e as vozes evocaram lugares tão distantes quanto Camarões, Israel e Usbequistão.

Quando chegou a hora da aula em si, ele sorriu e falou sem consultar anotações, aproximando-se do púlpito apenas para ler alguns versículos. O texto era dos Atos dos Apóstolos, passagens que falavam das prioridades da igreja primordial. “Eles rezavam juntos. Comungavam juntos. E mais uma coisa: cuidavam das necessidades uns dos outros, chegando até a sacrificar-se", disse ele. Falou particularmente a respeito da generosidade de Barnabé, que vendeu a própria terra e deu o dinheiro aos apóstolos de Jesus para que o distribuíssem entre os necessitados.

Carter não é um orador que gesticula, nem caminha para lá e para cá e nem possui uma voz poderosa, mas é um professor brilhante, transitando com agilidade entre suas memórias, suas preocupações com o mundo e aquilo que os Atos têm a dizer a respeito do relacionamento dos seres humanos com seus próximos. Ele faz perguntas, incentiva os participantes quando estes de aproximam das respostas, mas segue provocando até que alguém chegue ao ponto que ele quer expor.

“Perdemos a fé em muitas coisas que sempre nos deram força", disse ele. “Muitos no mundo perderam a fé na democracia. Perdemos a fé na santidade de dizer a verdade e no valor do ensino. Perdemos a fé na igualdade entre as pessoas. Na história dos EUA, algumas de nossas maiores batalharas giraram em torno da questão da igualdade.”

Então ele perguntou à congregação em que ano as mulheres americanas conquistaram o direito ao voto. Vários responderam, “1920!”, mas tratava-se de uma pergunta capciosa. “Essa foi a data para as mulheres brancas", ele lembrou a todos. “Muitos brancos se esquecem dessa distinção.”

Ele falou a respeito da sua primeira reunião de segurança como presidente eleito, da solene responsabilidade do comandante-em-chefe do país de afastar o perigo das armas nucleares. “Se não descobrirmos enquanto seres humanos como conviver uns com os outros, mesmo com aqueles com quem discordamos, por exemplo, americanos e russos, americanos e chineses, americanos e seja mais quem for, se não descobrirmos coletivamente como conviver uns com os outros e como cuidar uns dos outros, este pode ser o fim da humanidade.”

Carter é um realista, e está preocupado com o estado do mundo, mas também teve o cuidado de dizer que não acredita no pior: “Sou um cristão, e acredito na vontade de Deus, acredito que o amor Dele prevalecerá, mas fico preocupado com tudo". E voltou a exortar todos a “cuidarem uns dos outros, mesmo daqueles de quem não gostamos, até dos nossos inimigos". Na Igreja Batista Maranatha, a aula da escola dominical ensina com maestria responsabilidade, bondade e, acima de tudo, amor.

Carter lembrou à congregação que Barnabé era conhecido entre os primeiros cristãos como o “exortador”. E, claramente, exortar é uma arte que o ex-presidente domina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.