Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Na Índia, construindo pontes entre a vida e a arte

A bienal de Kochi-Muziris usa interatividade para ajudar os indianos a se conectar com a arte contemporânea

Vindu Goel, The New York Times

01 Fevereiro 2019 | 06h00

KOCHI, ÍNDIA - Vestindo o mundu branco dos mercadores de peixes da cidade, Bashir se destacava entre os visitantes mais abastados presentes na abertura da maior exposição de arte contemporânea da Índia, a bienal de Kochi-Muziris.

Bashir parou para estudar as paisagens do fotógrafo Chandan Gomes, de Délhi, formando pares com cenas imaginárias desenhadas por uma garota que morreu aos 12 anos. "Não compreendo o significado interno da arte", disse ele. "Simplesmente gosto daquilo que é belo".

Sua disposição em se envolver com as obras de arte representou uma vitória para os organizadores da exposição. O estado de Kerala, no sul da Índia, bem como o restante do país, padecem de uma escassez de espaços públicos destinados à arte. Assim, os organizadores da bienal, que seguirá até 29 de março, se esforçaram para criar um evento capaz de atrair um público variado.

"Estamos fazendo um festival cultural", disse Bose Krishnamachari, um dos responsáveis por fundar a exposição oito anos atrás.

Apresentações da banda Oorali, um conjunto de folk-reggae de Kerala, são misturadas a obras como "Canes of Wrath" (Canavial da ira), de B.V. Suresh, uma sala escura cheia de representações de pavões mortos, pés de cana e esfregões giratórios que evocam as táticas opressivas dos extremistas hindus da Índia.

O celebrado artista sul-africano William Kentridge ganhou espaço para uma instalação de vídeo em oito telas com suas silhuetas dançantes. Mas a curadora da bienal, Anita Dube, também optou por expor a obra de Bapi Das, artista pouco conhecido de Kolkata, que pilota um táxi simples e borda cenas do cotidiano.

Muitas das obras são interativas, e às segundas a entrada na bienal é gratuita, uma tentativa de atrair trabalhadores locais como Bashir, que seria afastado pela cobrança de 100 rúpias (cerca de US$ 1,40) pelo ingresso. Uma exposição paralela dá espaço à nova geração de artistas, com cerca de 130 projetos de estudantes de todo o Sul da Ásia.

O título da bienal, "Possibilities for a Non-Alienated Life" (Possibilidades para uma vida não alienada), reflete o esforço de Anita no sentido de construir elos entre as comunidades, não apenas em Kochi, mas além. Um porto com séculos de história, Kochi já foi governada pelos portugueses, holandeses e britânicos. Faz tempo que o lugar reúne uma mistura de diferentes culturas e religiões. Para essa bienal, Anita recrutou mais de 100 artistas da Índia e 30 outros países. Mais da metade é composta por mulheres.

A Índia é um país de 1,3 bilhão de pessoas que oferece pouco ensino da arte, poucos museus e quase nenhum apoio do governo para as belas artes. A única arte que recebe financiamento tende a ser aquela que defende objetivos políticos. O governo acaba de gastar cerca de US$ 430 milhões na construção da estátua mais alta do mundo - um monumento de 180 metros em homenagem ao líder da independência Sardar Vallabhbhai Patel, do escultor Ram V. Sutar - em Gujarat, estado natal do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.

"Só se fala em estradas de ferro, mais aeroportos, mais estradas, mais arranha-céus e, agora, as maiores estátuas do mundo", queixou-se Anita. "A cultura está no fim da lista".

Em 2016-17, a exposição recebeu cerca de 600 mil visitantes. Os planejadores esperam que a edição atual alcance a marca de 700 mil. Para Kerala, atingido pelas enchentes das monções do ano passado, a exposição é uma das poucas oportunidades de trazer dinheiro ao estado, com turistas esperados nas praias, nos barcos e nos rios da região.

Alguns dos artistas expostos estão homenageando as vítimas das enchentes. A obra de Marzia Farhana, "Ecocide and the Rise of Free Fall" (Ecocídio e a ascensão da queda livre), mostra geladeiras e livros suspensos, objetos recuperados de lares inundados, como representação simbólica da impermanência.

Mas algumas das obras expostas, como as camisetas que oscilam ao vento à beira d'água, interessaram a poucos visitantes. A obra "One Hundred and Nineteen Deeds of Sale" (Cento e dezenove escrituras de venda), da artista sul-africana Sue Williamson, lembrou os nomes, idade, gênero e preço de venda de moradores de Kochi capturados por comerciantes holandeses do século 17 e vendidos como escravos na Cidade do Cabo.

Poucos artistas são de Kerala, mas Sebastian Thomas, um músico da região, ainda estava encantado com o tear de um tecelão que tinha recebido cordas para soar como uma cítara - uma colaboração entre a artista mexicana Tania Candiani e artesão locais fazedores de instrumentos.

"Que tipo de artista faria música com aquilo?", indagou Thomas.

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