Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Na Índia, lagos secam e campos dão lugar a construções

Os 5 milhões de habitantes da cidade litorânea de Chennai encaram as consequências das chuvas fracas e da urbanização desenfreada

Somini Sengupta, The New York Times

19 de julho de 2019 | 06h00

CHENNAI, ÍNDIA - Quando a água acaba, as pessoas tomam banho nas gotas que pingam do ar-condicionado. Ninguém pode desfrutar do luxo de um banho à noite depois de um dia escaldante. Todos correm até dois lances de escadas com os baldes na mão quando o vizinho avisa que o caminhão-pipa está chegando.

Todos os dias, cerca de 15 mil caminhões-pipa trazem água do interior para a cidade. Por toda parte, vemos fileiras de garrafas plásticas de cores fortes formando fila nas ruas, esperando. Assim é a vida em Chennai, uma cidade de quase 5 milhões de habitantes no litoral do sudeste da Índia.

As chuvas da mais recente temporada de monções foram particularmente fracas. Quando chegou o verão e o calor, os quatro principais reservatórios da cidade estavam praticamente secos.

Faz anos que Chennai enfrenta dificuldades com a água. A chuva é insuficiente ou exagerada, causando enchentes nas ruas antes de escorrer para a Baía de Bengala.

Mas o problema não está apenas nos caprichos da natureza. Não se veem mais muitos dos lagos e campos que antes engoliam as chuvas. Foram aterrados e transformados em terreno para construção. A terra é cara demais para ficar ociosa.

Até a água dos lençóis freáticos foi gasta em muitos bairros, extraída em demasia durante anos para satisfazer as necessidades de água, em vez de ser reabastecida e armazenada como reserva. Como resultado, pouca água sai hoje das torneiras da casa de Bhanu Baskar, motivo pelo qual ela deixa de tomar banho nos dias em que não precisa sair. Ela poupa a água para os filhos grandes, que trabalham em escritórios e precisam tomar banho todos os dias.

"É um grande desconforto", disse Bhanu, 48 anos, tentando ocultar a vergonha. "Uma situação muito difícil".

A cidade obtém a maior parte de sua água das breves e pesadas monções que começam em outubro. O truque está em captar a água da chuva e poupá-la para os tempos mais difíceis.

Chennai exige que todos os edifícios captem a água da chuva em seus telhados para jogá-la novamente na terra, mas isso não tem sido suficiente para evitar secas nem enchentes. Com isso, a cidade gasta muito dinheiro recolhendo a água do mar, que é convertida por caras usinas de dessalinização na água usada pelos moradores.

Para Sekhar Raghavan, 72 anos, que passou a vida morando em Chennai e é o principal defensor de práticas melhores para a captação da água da chuvas, a situação é absurda.

"Alguns de nós sabiam que esta crise estava chegando", disse. "Para nós, em Chennai, a coleta de água precisa trazer cada gota de volta ao chão".

E há a questão da mudança climática. Não é algo que influencie diretamente a crise de abastecimento de água em Chennai, mas agrava a situação. A cidade está mais quente do que antes. Em média, as temperaturas máximas aumentaram 1,3°C desde 1950, de acordo com o cientista climático Roxy Mathew Koll, do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical. 

Em uma cidade de clima já tropical - a temperatura ultrapassa com frequência os 32°C e a umidade é alta no verão - isso significa que a água evapora mais rápido, e a demanda pela água aumenta.

As sementes da crise podem ser encontradas em Velachery, bairro batizado com o nome de um dos muitos lagos de Chennai. O lago já foi largo e profundo, mas, conforme a cidade cresceu, partes dele foram aterradas 20 anos atrás para dar lugar a moradias. Hoje, o lago é um oásis cinza esverdeado e raso, com a orla tomada por  lixo e ervas daninhas. Perto do centro da cidade, a água dos lençóis freáticos está praticamente esgotada.

Cada um tem seus métodos para poupar água. Enxaguar o arroz e, em seguida, usar a mesma água para lavar o peixe. Esvaziar a água suja da pia nos vasos de plantas. Nunca deixar a torneira aberta, sob hipótese alguma.

Deixar de lado a máquina de lavar roupa, e lavar todas as peças usando apenas dois baldes de água cuidadosamente fracionada. Para evitar brigas, cada um deve encher apenas quatro recipientes quando o caminhão-pipa chegar. É muito cansativo esperar pela água, preocupar-se com ela e vigiar o fornecimento.

Rushyant Baskar, que trabalha em um centro de terceirização, afirma estar dormindo menos do que o normal. A mãe dele conta que não tem mais tempo de receber notícias dos parentes do outro lado da cidade. Segundo Baskar, antes, as pessoas vinham à cidade grande para correr atrás do dinheiro. "Agora, corremos atrás de água"./ Aruna Chandrasekhar contribuiu com a reportagem.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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