Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Na Índia, legado de Gandhi é contestado e venerado ao mesmo tempo

Figura de líder está sujeita a críticas de todo o espectro político indiano

Jeffrey Gettleman, The New York Times

31 de janeiro de 2019 | 06h00

NOVA DÉLI - Os últimos passos do homem, em concreto, vão de uma mansão toda branca até o lugar onde ele deu o último suspiro. Em um dia ameno de inverno, Mohandas K. Gandhi caminhava lentamente por um enorme gramado em Nova Déli, a capital da Índia, quando um assassino o saudou, tocou os seus pés e depois disparou três tiros contra o frágil homem de 78 anos. O local onde Gandhi caiu, e a elegante mansão onde ele passou os últimos dias, foram transformados em um memorial em homenagem à sua vida, e para lembrar sua morte violenta. Setenta anos depois do seu assassinato, a influência de Gandhi no mundo inteiro ainda é enorme, e a sua reputação como uma força voltada para o bem persiste firmemente intacta.

Como poucas outras personalidades da história, ele explorou o poder de fogo moral da resistência pela não-violência, e ajudou a arrancar a Índia do Império Britânico. O seu exemplo do que seria possível realizar com o protesto pacífico inspirou inúmeros outros. Mas na Índia contemporânea, Gandhi não é mais uma figura tão inspiradora de admiração, ou mesmo relevante. À medida que o tempo passa, ele parece estar fora de sincronismo com as tendências da política indiana, embora os políticos ainda explorem regularmente a nostalgia que permanece.

“Acho que Gandhi se tornou um marginal”, disse Pratap B. Mehta, cientista político que é vice-chanceler da Universidade Ashoka. “Na Índia moderna, as duas forças dominantes o odeiam”. Entre os nacionalistas hindus, que constituem parte da base de poder do Partido Bharatiya Janata da Índia, no governo, Gandhi é visto como um fraco, disse Mehta. 

Os supremacistas hindus estão revoltados com ele por expressar muita simpatia pela minoria muçulmana do país, e por permitir que o Paquistão se separasse da Índia. Alguns nacionalistas hindus até construíram estátuas do assassino de Gandhi, Nathuram Godse, que era membro de um grupo nacionalista hindu ao qual pertenciam a primeira-ministra Indira Gandhi e muitos dos seus aliados políticos.

Gandhi agrada também aos dalits, uma classe de indianos que há séculos estão no degrau mais baixo da sociedade hindu do país, mas que agora, com uma população estimada em mais de 200 milhões, desfruta de um considerável prestígio político. Gandhi amava muito os pobres, inclusive os dalits, lutava contra a exploração, e vivia quase como um monge, cobrindo o corpo com um simples pano branco preso à cintura e comendo parcamente. Mas Gandhi era próximo de alguns dos mais ricos capitalistas da Índia durante a sua vida, e frequentemente ficava na mansão que hoje é o seu memorial.

Os dalits e os da esquerda política culpam Gandhi por não fazer o suficiente para desmantelar o sistema de castas frequentemente brutal da Índia. “Eles acham que Gandhi não era suficientemente radical e sim paternalista em seu apelo pela emancipação dos dalits”, disse Mehta. Quase 75 anos depois que Gandhi ajudou a Índia a conseguir a independência, as pessoas da classe inferior ainda são abertamente discriminadas. Recentemente, um homem desta classe foi escalpelado apenas porque pediu os salários que lhe eram devidos.

Apesar das críticas, os políticos indianos muitas vezes rivalizam entre si tentando superar Gandhi, principalmente o partido ao qual ele continua mais associado hoje em dia. Gandhi foi um dos primeiros membros do principal partido da oposição do país, o Congresso Nacional Indiano, ajudando a transformar o que era inicialmente um clube de debates da elite em uma força nacional. Frequentemente, os políticos colocam a imagem de Gandhi em suas bandeiras, principalmente quando fazem greves de fome como Gandhi.

O governo de Modi também às vezes procura apelar para o espírito de Gandhi. As aldeias indianas frequentemente têm a imagem de um par de óculos de arame preto na parede - os óculos icônicos de Gandhi - como símbolo de um dos maiores programas sociais de Modi, a campanha ‘Índia Limpa’. Segundo o governo, o programa entregou cerca de 100 milhões de banheiros novos.

Todas as crianças indianas em idade escolar aprendem que Gandhi encarava com toda a seriedade a limpeza, por isso o simbolismo destes óculos que encontramos em todo lugar não passa despercebido. O seu aniversário em outubro continua sendo um dos feriados nacionais da Índia. “Nenhum partido político pode reivindicar de maneira convincente o legado moral de Gandhi”, disse Ramachandra Guha, um dos seus biógrafos mais aclamados, destacando as razões - a corrupção espetacular, a política dinástica, a divisão religiosa.

Os únicos guardiões autênticos do legado de Gandhi estão fora do governo, afirmou Guha, como os grupos ambientalistas, os comitês que tentam proteger a existência tradicional das aldeias, e os grupos que promovem a harmonia religiosa. Esta dança política com Gandhi - que às vezes abraça o seu legado, e às vezes o despreza - não surpreende Guha. “Gandhi é como Churchill, Napoleão, Mao, Lincoln, todas as grandes figuras”, afirmou. “A sua marca sobe e desce. O seu legado será um tema de debates sem fim”.

Suhasini Raj e Hari Kumar contribuíram para a reportagem.

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