Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Na Índia, mensagens de um passado longínquo gravadas em pedras

Ao longo dos últimos sete anos, pesquisadores descobriram ao menos 1.200 figuras rupestres que podem datar de 40 mil anos atrás

James Gorman, The New York Times

24 de maio de 2019 | 06h00

RAJAPUR, ÍNDIA - No topo de uma colina coberta de pedras, a um dia de viagem ao sul de Mumbai, Sudhir Risbud caminhava entre diversas pedras cobertas de gravuras indicando o casco de um barco, aves, um tubarão, figuras humanas e dois tigres em tamanho natural.

"É masculina", disse, notando que o escultor havia esculpido uma genitália óbvia demais para ser ignorada. No local havia cerca de 20 figuras desenhadas em uma pedra dura e porosa chamada laterita. 

As gravuras são apenas uma amostra das 1.200 figuras que os engenheiros e naturalistas Risbud e Dhananjay Marathe foram descobrindo desde 2012. Os dois fazem parte de uma tradição de arqueólogos amadores, segundo Tejas Garge, diretor do Departamento de Arqueologia e Museus do Estado de Maharashtra, e os litóglifos que eles encontraram constituem um tesouro de importância mundial. Esta é a mais recente coleção de arte rupestre ao lado de outras imagens deixadas por povos da Idade da Pedra em todo o globo.

Garge calcula que as gravuras mais antigas deste gênero datam de 10 mil a 40 mil anos atrás. Algumas das imagens parecem relatar uma vida de caça e coleta - com veados, peixes, tartarugas. Outras mostram animais poderosos, como tigres e elefantes. E há seres humanos, provavelmente figuras da fertilidade, como as imagens de uma deusa mãe semelhante às encontradas em outras partes da Índia e no mundo todo. Algumas delas são abstratas.

Segundo Garge, o Estado destinou cerca de US$ 3 milhões para a preservação dessas obras e à pesquisa para determinar de maneira mais precisa sua idade, a fim de tentar conhecer a respeito do povo que as deixou.

Ao contrário da maioria das gravuras rupestres da Idade da Pedra, estas imagens não foram desenhadas nas paredes ou em rochas, mas recortadas nas pedras expostas no topo das colinas ao longo do planalto costeiro de Konkan que margeia o Mar da Arábia. A maior parte dos animais, como os elefantes, é de tamanho natural; um dos sítios com inúmeras gravuras é o maior do sul da Ásia, disse Garge. E nem sua opinião, deveria ser declarado monumento nacional.

Segundo o editor da International Newsletter on Rock Art, Jean Clottes,  em outras partes foram encontradas gravuras bem preservadas no solo, mas isso não é comum.

Algumas das gravuras eram conhecidas pelos moradores locais antes que Risbud e Marathe começassem sua investigação. Além disso, alguns pesquisadores já haviam empreendido um estudo no local em 1980. Mas foi somente depois que os dois engenheiros começaram a explorar sistematicamente a área e a chamar outros pesquisadores foi possível ter uma ideia clara do número e a da variedade das gravuras. Pastores e suas famílias indicaram alguns locais, acrescentando muitas vezes relatos mitológicos de como as gravuras apareceram.

Marathe apontou para uma depressão na pedra que poderia ser considerada a marca deixada por alguém que se deitara nesse lugar. De acordo com os aldeões, a marca foi deixada por Sita, esposa do Senhor Rama, que foi raptada pelo rei dos demônios, Ravana, no poema épico Ramayana. Foi ali que Ravana se deitou com Sita.

A datação das gravuras rupestres não é fácil, mas existem algumas indicações, segundo Garge. Uma delas é que, quando surgiu a agricultura, as pessoas passaram a desenhar imagens de touros. Entretanto, não são estas as imagens que estão nos desenhos do Maharashtra, que mostram toda a variedade de animais selvagens, sugerindo que foram desenhadas por um povo de caçadores e coletores.

Se as gravuras foram feitas antes do desenvolvimento da agricultura, é possível que datem de ao menos 10 mil anos atrás. Outra indicação é que as gravuras incluem imagens de rinocerontes e hipopótamos, o que sugere uma época ainda mais remota, de 20 mil ou 30 mil anos atrás, porque as evidências fósseis mostram que estes animais viviam na região.

Finalmente, há ferramentas de pedra. Quando Rhutvij Apte, que integra a equipe de Garge, começou a coordenar a pesquisa, encontrou micrólitos, pequenas ferramentas características do período Mesolítico, que remonta a até 40 mil anos atrás.

O departamento de Garge também deverá procurar evidencias do povo que fez as gravuras. As figuras são encontradas somente em morros batidos pelos ventos e inundados durante as monções, locais onde não deve ter existido qualquer tipo de abrigo. Os autores dos desenhos provavelmente vinham para estes lugares com a finalidade de fazer as gravuras.

O fato, de acordo com Garge, levanta interessantes indagações: "Será que a sociedade estava suficientemente avançada para pagar pelas obras artísticas", por exemplo, compartilhando alimentos, ou liberava um membro do grupo da caça e da coleta para gravar cenas na pedra? 

Além disso, ele notou que as gravuras rupestres são de uma época em que os seres humanos começavam a refletir sobre o significado das forças que afetavam sua existência, talvez quando estavam se formando as primeiras ideias religiosas. Muitos animais representados nos desenhos talvez inspirassem medo, tais como !elefantes, rinocerontes, arraias, tubarões", disse Garge, para não mencionar os tigres.

Para o pesquisador, faria sentido que estas criaturas perigosas fossem investidas de algum poder espiritual. "As pessoas costumam adorar primeiramente os deuses malignos". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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