Smita Sharma/The New York Times
Smita Sharma/The New York Times

Na Índia, o mistério do ouro dos templos

Cerca de 160 bilhões de dólares em joias estão guardados em centenas de templos

Kai Schultz e Suhasini Raj, The New York Times

19 Julho 2018 | 15h00

PURI, Índia - Um grupo de homens cobertos apenas por uma canga reuniu-se em um templo do século 12 em um dia quente de abril em Puri, na Índia. Eles se preparavam para entrar em uma cripta totalmente escura, onde armazenadas debaixo de sete chaves havia pilhas de joias de ouro e prata.

Para entrar no Templo de Jagannath, dedicado a uma importante divindade hindu, o grupo de 16 pessoas, entre arqueólogos, sacerdotes hinduístas e funcionários do governo, teve de passar por detectores de metais. As cangas eram necessárias como medida de segurança, assim como máscaras de oxigênio, já que na cripta, que não era aberta havia 30 anos, o ar não ser respirável.

Suas instruções eram: verificar a integridade estrutural da cripta e ignorar as antiguidades no valor de milhões de dólares amontoadas no seu interior.

Trancafiada em centenas dos maiores templos do país há uma quantidade impressionante de objetos de ouro, pesando cerca de quatro mil toneladas, segundo calculou o Conselho Mundial do Ouro, no valor de aproximadamente 160 bilhões de dólares. Mas apesar da sua riqueza abundante, os templos frequentemente são mal administrados. E podem tornar-se alvos constantes dos ladrões.

Uma hora depois de entrarem no templo, os homens saíram e falaram aos peregrinos que não precisaram entrar na cripta trancada, conhecida como Ratna Bhandar, porque haviam conseguido espiar no seu interior através de uma grade de metal.

Entretanto, dois meses mais tarde, surgiu outra explicação: os homens não haviam conseguido entrar porque faltavam as chaves da cripta.

Um funcionário do templo foi demitido. As autoridades do governo do Estado de Odisha, ao qual pertence Puri, pediram uma investigação. Logo em seguida, descobriu-se que faltavam cerca de quatro quilogramas de ouro doados por visitantes.

Imediatamente surgiram as suspeitas de que parte das antigas joias da cripta havia sido levada por “um conluio criminoso entre representantes do templo e empregados” que tinham acesso às chaves, segundo um jornalista local, Sandeep Sahu.

O roubo das riquezas dos templos é comum na Índia. Em um dos casos mais importantes, um negociante de arte de Manhattan, Subhash Kapoor, foi implicado em um roubo no valor de 100 milhões de dólares em antiguidades raras em templos remotos de toda a Índia que não costumam ser protegidos.

Depois do furor despertado este ano pela perda das chaves da cripta do templo de Puri, os seus guardiões encontraram uma cópia dela na sala de registros do gabinete do magistrado local. Em vez de acalmar a ira, a aparente descoberta suscitou mais indagações: Quando foi feita a cópia da chave? 

Era verdade? E onde estava o original?

Dibyasingha Deb, um membro da família real de Puri e presidente da comissão de gestão do templo, disse que as acusações de má administração não tinham fundamento. Ele culpou por sua vez pessoas de fora que tentavam “destruir a nossa credibilidade”.

No mês passado, funcionários do Partido Bharatiya Janata, da oposição, de Odisha, fez uma queixa à polícia contra funcionários do Estado encarregados de monitorar os valores guardados nos templos, acusando-os de não terem feito o inventário das joias da cripta e questionando a existência de uma cópia da chave.

Fora do templo, em uma praça lotada de gente, onde estavam sendo feitos os preparativos de uma festa, a revolta era palpável. Quando o sol se pôs, os devotos subiram os degraus para receber as bênçãos. Os sacerdotes estavam acocorados à luz das lâmpadas. Nas proximidades, a entrada da cripta estava mergulhada nas trevas.

Sonalata Das, 67, demorou um pouco no lugar. À pergunta sobre a chave que estava faltando, seu rosto endureceu.

“Pedi a Deus que acabe com a pessoa que nos enganou e levou a chave para enriquecer”, ela disse. “Que ela seja destruída”.

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