Vivek Singh para The New York Times
Vivek Singh para The New York Times

Na Índia, publicações falsas dominam o Facebook

Com a aproximação das eleições no país, executivos da plataforma trabalham para conter redes de desinformação

Vindu Goel e Sheera Frenkel, The New York Times

12 de abril de 2019 | 06h00

NOVA DÉLHI - Depois que um homem-bomba cometeu um ataque na disputada região da Caxemira em 14 de fevereiro, a Índia acusou o país vizinho, Paquistão, de proteger terroristas. Os dois países logo trocaram ataques aéreos. Na internet, outra batalha era travada.

Um vídeo amplamente divulgado no Facebook e em outros serviços alegava mostrar um ataque aéreo da Índia contra um suposto acampamento terrorista no Paquistão. Na verdade, tratava-se de imagens tiradas de um videogame. Fotografias de corpos embalados em sacos brancos, que seriam de militantes paquistaneses mortos no ataque, eram, na verdade, imagens das vítimas de uma onda de calor em 2015. E as redes sociais correram para divulgar detalhes "exclusivos" a respeito das hostilidades, boa parte deles simplesmente falsos.

Os executivos do Facebook dizem que o dilúvio foi extraordinário. "Nunca vi nada assim antes - tamanha a quantidade de conteúdo falso circulando a respeito de uma mesma história", publicou no Twitter Trushar Barot, ex-jornalista da BBC que comanda as iniciativas da rede social para o combate à desinformação na Índia.

A enxurrada de informações falsas deu ao Facebook uma amostra do que esperar para as eleições indianas, as maiores do mundo. O primeiro-ministro Narendra Modi e seu partido Bharatiya Janata querem mais cinco anos no governo, e espera-se que até 879 milhões de pessoas depois tem seus votos ao longo das cinco semanas contadas a partir de 11 de abril.

Mas o Facebook está com dificuldades para conter a desinformação na sua principal rede social e no WhatsApp, seu popular serviço de mensagens.

Este mês, a empresa disse ter removido centenas de páginas enganosas e contas ligadas ao PBJ e seu principal rival, Congresso Nacional Indiano, muitas das quais publicavam informações falsas.

O inflamado legislador hindu Raja Singh, de direita, refere-se aos muçulmanos como "assassinos de vacas" - expressão depreciativa que já levou a algumas mortes, pois a maioria hindu do país considera as vacas animais sagrados. O Facebook apagou a página de Singh na rede social depois que a reportagem do New York Times perguntou a respeito dela.

A Índia - onde a empresa tem 340 milhões de usuários, mais do que em qualquer outro país - traz desafios únicos. Publicações e vídeos em mais de uma dúzia de idiomas frustram regularmente o software de triagem automatizada do Facebook e seus moderadores humanos, cujo trabalho gira em torno principalmente do inglês.

Muitas publicações problemáticas são feitas diretamente por candidatos, partidos políticos e veículos de notícias. E, no WhatsApp, onde as mensagens são criptografadas, a empresa tem pouca visibilidade em relação ao que é compartilhado.

Outras das principais redes sociais estão enfrentando o problema das notícias falsas e do discurso de ódio em torno das eleições na Índia. Pela primeira vez, a Comissão Eleitoral do país pediu aos serviços online que vigiem conteúdo ligado às eleições.

Todos os principais partidos indianos têm sofisticadas estratégias de disseminação de desinformação, que incluem a publicação de fotos e vídeos falsos e manipulados e publicações coordenadas usando uma rede de asseclas pagos e voluntários.

Nos últimos 12 meses, o Facebook recorreu a organizações independentes encarregadas de fazer a checagem de informações de um punhado de publicações na Índia diariamente. Mas alguns responsáveis pela verificação podem estar contribuindo para a desinformação. O site indiano Alt News, que se dedica à checagem de fatos, descobriu recentemente que dois dos parceiros da rede social tinham publicado repetidas vezes informações falsas a respeito da Caxemira.

O fundador do Alt News, Pratik Sinha, disse que o Facebook não parece considerar as notícias falsas um problema sério. "Tudo não passa de uma iniciativa de relações públicas", disse ele.

Ajit Mohan, ex-executivo da Fox que se tornou o primeiro diretor do Facebook na Índia em janeiro, afirmou que a empresa reconheceu que havia muito trabalho a ser feito. "A situação vai evoluir e continuar melhorando", disse. "Somos muito sinceros na nossa tentativa de acertar". /Suhasini Raj contribuiu com a reportagem.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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