Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Na Índia, teste utiliza IA para prevenir cegueira

Parceria com Google visa instituir sistemas na detecção de sinais de doenças

Cade Metz, The New York Times

26 de março de 2019 | 06h00

MADURAI, ÍNDIA - O Hospital Oftalmológico Aravind trata todo mundo. Diariamente, mais de duas mil pessoas chegam aqui de todas as partes da Índia e às vezes de outras partes do mundo, lotando os corredores e as salas de espera deste hospital inaugurado há 43 anos. Recentemente, Muthusamy Ramalingamm, um morador da cidade, entrou em uma sala no segundo andar, sentou e colocou o queixo sobre um aparelho instalado sobre uma mesinha, que apontou uma câmera diante dos seus olhos.

Um técnico deu um toque sobre uma tela na parte posterior de um scanner de olho, e em segundos, apareceu um diagnóstico em um computador na parede. Ambos os olhos mostraram sinais de uma retinopatia diabética, doença que pode causar cegueira se não for tratada.

Na maioria dos hospitais e clínicas em todo o mundo, médicos especializados fazem este tipo de diagnóstico. Mas o Aravind tenta automatizar o processo. Trabalhando com a equipe de pesquisadores que utiliza a inteligência artificial do Google sediado na Califórnia, o hospital testa um sistema capaz de reconhecer a doença por conta própria.

O Google e a sua companhia irmã Verify escolheram este tipo de cegueira por ser muito difundida e por ser o tipo de doença que um sistema de IA pode detectar bem no começo. Os pesquisadores esperam que este sistema de IA ajude os médicos a examinar um número maior de pacientes em um país em que a retinopatia diabética está cada vez mais difundida. 

Cerca de 70 milhões de indianos são diabéticos, segundo a Organização Mundial da Saúde, e todos correm o risco de ficar cegos. Mas o país não tem condições de preparar um número suficiente de médicos para examiná-los. Para cada milhão de pessoas na Índia, há somente 11 oftalmologistas.

O projeto faz parte de uma ampla iniciativa que visa criar e implantar sistemas capazes de identificar automaticamente sinais de doença e enfermidade com os aparelhos usados pelos médicos. Nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Cingapura, os hospitais também realizaram testes clínicos com sistemas que identificam sinais de cegueira diabética.

Pesquisadores do mundo todo estão explorando tecnologias que detectam o câncer, derrame, doenças cardíacas e outras. As agências reguladoras certificaram recentemente o método para ser utilizado na Europa com o nome Verify, e os Estados Unidos aprovaram um sistema semelhante. Mas os hospitais estão se mostrando cautelosos.

O fundador do Aravind, Govindappa Venkataswamy, uma personalidade icônica na Índia, onde ficou conhecido como “Dr. V”, e faleceu em 2006, idealizou uma rede de hospitais e centros de oftalmologia que operam como franquias do McDonald’s, reproduzindo sistematicamente formas baratas de tratamentos oftalmológicos em todo o país. Há mais de 40 destes centros de olhos em toda a Índia, e o hospital planeja instalar a tecnologia do Google em regiões vizinhas.

Por trás dos novos métodos de exame há redes neurais, complexos sistemas matemáticos que podem aprender tarefas analisando grandes quantidades de dados. Avaliando milhões de exames de retinas que mostram sinais de retinopatia diabética, uma rede neural pode aprender a identificar a doença por conta própria. Os pesquisadores ainda lutam para compreender completamente como funcionam estes sistemas. Mas alguns especialistas acreditam que poderão melhorar fundamentalmente os tratamentos médicos.

Durante o seu exame, Ramalingamm, 60, disse que se sentiu muito à vontade com uma máquina que diagnosticava a condição dos seus olhos, em parte porque foi um exame rápido. Depois do rastreamento inicial por um sistema de IA, os médicos poderão tratar os olhos de maneira a afastar o perigo da cegueira. Segundo um estudo, o sistema trabalha no mesmo nível de um oftalmologista formado. Mas está longe de poder substituir completamente um médico.

Anteriormente, Pambaiyan Balusamy, 55, sentara na mesma sala. O sistema do Google diagnosticou retinopatia “proliferativa” no seu olho esquerdo - a forma mais grave da doença - mas não conseguiu ler o exame do seu olho direito, provavelmente porque o olho estava com catarata. Às vezes, os médicos podem fazer um diagnóstico diante de catarata e de exames pouco claros dos olhos. O sistema do Google ainda tem dificuldade para fazer isto.

Hoje, os técnicos do centro de visão enviam os exames dos olhos aos médicos em Madurai para serem analisados. O diagnóstico automático pode simplificar e ampliar o processo, ajudando um maior número de pessoas em um número maior de lugares - o tipo de “McDonaldização” proposto pelo Dr. V. A tecnologia ainda enfrenta obstáculos em matéria de regulamentação na Índia, em parte por causa da dificuldade de se mover na complexa burocracia do país.

Segundo Luke Oakden-Rayner, o diretor de pesquisa médica por imagem do Royal Adelaide Hospital na Austrália, estes sistemas precisariam de novas metodologias reguladoras. “No papel, o sistema Google funciona muito bem”, disse Oakden-Rayner. “Mas quando você o apresenta a uma população enorme, poderá esbarrar em problemas que não aparecem durante anos”.

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