Miguel Medina/Agence France-Presse
Miguel Medina/Agence France-Presse

Na Itália de Salvini, ‘bons moços’ são os piores

O termo virou marca da política no país, onde ser bom demais é ruim e os dados econômicos são submetidos a uma análise dadaísta

Jason Horowitz, The New York Times

19 de abril de 2019 | 06h00

ROMA - O idioma italiano é bem servido de insultos criativos. Há maldições para os parentes mortos, todo o tipo de caricatura anatômica e incontáveis maneiras de se chamar alguém de imbecil. Mas, hoje, parece que uma das maiores ofensas é chamar alguém de bom moço. E, na boca de Matteo Salvini, líder do partido italiano Liga, contra os imigrantes, e político mais poderoso da Itália, a expressão buonista, ou fazedor do bem, é uma arma.

“O sonho europeu está sendo enterrado pelos burocratas, os bons moços e os banqueiros que já governam a Europa há muito tempo", afirmou Salvini ao apresentar recentemente uma nova aliança de partidos populistas e de extrema-direita antes das eleições para o parlamento europeu, marcadas para maio. A proliferação do insulto improvável se tornou marca do estado caótico da política na Itália, onde ser bom demais é ruim, a experiência é mal vista e os dados econômicos são submetidos a uma análise dadaísta.

Os defensores da União Europeia expressaram preocupação com a possibilidade de os populistas italianos plantarem as sementes da destruição em um bloco que proporcionou ao continente 70 anos de paz. “Alguns defendem o nacionalismo", disse o presidente Emmanuel Macron, da França, em entrevista concedida em março ao popular apresentador italiano Fabio Fazio. “Mas pretendo combater essas pessoas pela força, pois acredito que elas nos farão perder 10 ou 20 anos ao arrastar-nos para antigos cismas”.

Para os defensores de Salvini, a entrevista não passou de uma pequena reunião de bons moços. Eles também caçoaram das mais de 200 mil pessoas que se manifestaram em Milão, em março, contra o que acreditam ser políticas racistas do governo populista. “Em Milão, um desfile de bons moços", reproduzia a manchete do Il Giornale, publicação de direita. Como a polarização atual, a investida parece ter raízes na era em que Silvio Berlusconi era o primeiro ministro.

Em 2002, o comentarista político Luca Sofri destacou que buonista tinha se tornado “um álibi para a má conduta dos maus: quem faz o bem é tratado como bom moço". Em 2008, o diário liberal La Repubblica, de Roma, escreveu que a centro-direita tinha redefinido o termo como “sinônimo de molenga".

Em julho de 2016, depois de comparar Laura Boldrini, então líder da maioria no parlamento italiano, a uma boneca inflável, Salvini escreveu que ela era uma “hipócrita, boa moça, racista contra os próprios italianos". Alguns liberais abraçaram a nova definição, usando orgulhosamente camisetas com a expressão buonista. Mas outros enxergam nisso uma perigosa erosão dos valores na Itália. Com Salvini atacando cada vez mais os imigrantes verbalmente, o número de ataques físicos cometidos por italianos também aumentou, de acordo com a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa.

Fazio não quis ser entrevistado para a reportagem. Mas, já em 2014, ele se queixava ao ouvir tal insulto. De acordo com ele, em um país construído com a raiva, como a Itália, “interpretar as boas maneias e a civilidade básica como bom-mocismo é um convite à encrenca". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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