Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Na Itália, imigrantes enfrentam ameaça de populistas e mafiosos

Consideradas um santuário para imigração, cidades como Palermo estão na mira do ministro Matteo Salvini e da máfia italiana

Jason Horowitz, The New York Times

30 de maio de 2019 | 06h00

PALERMO, SICÍLIA - As bancadas estavam repletas de laranjas e amêndoas da Sicília. A superfície negra dos mariscos do mediterrâneo reluzia. Fios amarelos ligavam a barbatana nas caudas dos peixes frescos, com as costas arqueadas formando quase vírgulas.

Mas muitos dos imigrantes fazendo compras nesse dia no mercado Ballarò, em Palermo, passavam direto pelos artigos sicilianos, procurando as vagens de jacinto que os bengalis chamam de sheem. As vagens costumavam ser importadas, disse Sumi Dalia Aktar, política local nascida em Bangladesh. Segundo ela, agora, os bengalis descobriram uma forma de cultivá-las e vendê-las em Palermo, irritando os mafiosos para quem o cultivo das vagens é uma ameaça ao seu controle.

A máfia não é o único problema. Um medo dos imigrantes, seus costumes e, às vezes, até aquilo que eles consomem se enraizou na Itália, impulsionando a ascensão do populismo e de Matteo Salvini, o ministro do Interior de linha dura e líder de extrema-direita do partido Liga, contrário aos imigrantes.

Salvini impediu repetidas vezes a entrada de navios carregando imigrantes na Itália e, recentemente, propôs uma versão mais rigorosa de uma lei já dura criada para dificultar a vida dos imigrantes, apesar as críticas das Nações Unidas, do Vaticano e de grupos de defesa dos direitos humanos.

Ele disse que a atualização da lei teria como objetivo reprimir a ação da máfia, mas também formalizaria o fechamento dos portos da Itália a imigrantes resgatados no Mediterrâneo por grupos de ajuda humanitária que Salvini descreve como aliados dos traficantes de seres humanos.

Mas o sentimento dos italianos comuns em relação aos imigrantes é mais complicado, especialmente em Palermo, cidade cuja história remonta aos fenícios que se adaptaram a conquistadores e a ondas de imigrantes. E o mercado Ballarò, no centro da cidade, é onde muitas dessas complicações podem ser observadas.

Lojistas bengalis e outros imigrantes ajudaram a enfrentar a máfia que Salvini promete erradicar. Os imigrantes trabalham em um restaurante que paga pelas operações de ativistas pró-imigração e inimigos da máfia. Crianças jogam futebol ao lado de uma parede com a pixação “Salvini parasita” e sob um mural de São Benedito, nascido em Messina no século 16, filho de escravos, e se tornou o padroeiro de Palermo.

Mas os comerciantes imigrantes do Ballarò disseram que a extorsão não chegou ao fim. Em vez de bandidos levando o dinheiro dos caixas, os filhos pequenos deles levam o que querem das prateleiras. Alguns comerciantes que resistiram tiveram as suas lojas incendiadas.

E, no que seria a apoteose de muitos pesadelos italianos, mafiosos nigerianos substituíram ou se aliaram à máfia siciliana para intimidar tanto nativos quanto imigrantes. Traficantes de drogas de uma máfia nigeriana chamada Machado Negro controlam muitas das esquinas do mercado e mantêm-se postados perto de apartamentos onde mulheres traficadas são obrigadas a trabalhar como prostitutas.

Para Salvini e seus defensores, esses criminosos nigerianos simbolizam a ameaça dos imigrantes da África. “Em Turim, um nigeriano de 23 se recusou a ser identificado e arrancou A DENTADAS o dedo de um policial!”, escreveu Salvini em publicação recente no Twitter.

Os imigrantes no mercado alertaram a respeito de ruas que deveriam ser evitadas, mas disseram também que a maior ameaça ainda vem da máfia siciliana. Durante décadas, a máfia foi o flagelo do Ballarò. Todos que puderam deixar o mercado para trás o fizeram. Com o êxodo, vários edifícios do Ballarò ficaram desocupados, e os imigrantes aproveitaram o espaço.

Nos últimos 25 anos, a repressão do governo enfraqueceu a máfia. Mas, em 2016, um mafioso atirou em um imigrante gambiano, deixando-o em coma. Para um grupo de imigrantes, principalmente bengalis, aquela foi a gota d'água. Eles se recusaram a pagar por proteção e levaram os mafiosos à justiça. Um conhecido membro das famílias criminosas acabou atrás das grades.

“Tenho orgulho dos comerciantes", disse Leoluca Orlando, prefeito de Palermo e inimigo de Salvini, a partir do seu gabinete. Ele disse ter se reunido em segredo com os comerciantes no escritório do chefe de polícia, insistindo para que apresentassem queixa. Antes da era de terror da máfia, “Palermo era uma cidade de imigrantes", disse ele. “Árabes e normandos conviviam. Costumo dizer, ‘Em Palermo, o cachorro, o gato e o rato trabalham juntos’.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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