Nadia Shira Cohen para The New York Times
Nadia Shira Cohen para The New York Times

Na Itália, vida é solitária para repórteres com escolta policial

Por causa dos perigos de escrever sobre a máfia, jornalistas ficam anos sem ir a um parque, praia, cinema e até mesmo impedidos de fazer compras sozinho

Gaia Pianigiani, The New York Times

01 Junho 2018 | 10h00

ROMA - Na maior parte do tempo, nos últimos quatro anos, Paolo Borrometi viveu no isolamento, embora não esteja completamente só. Há anos, ele não passeia em um parque ou na praia em sua Sicília natal. Não pode ir livremente a um restaurante, ou ao cinema. Nem pode dirigir um carro sozinho, ou fazer compras sozinho.

Antes de ir ao trabalho diário de repórter que cobre a máfia, ele começa toda manhã com um ‘espresso’, um cigarro - e sua escolta policial.

Enraivecer a máfia, como faz um jornalista, na Itália, significa ter uma vida solitária. E no entanto, Borrometi, 35, está em boa companhia. Cerca de 200 repórteres na Itália vivem sob a proteção da polícia, o que a torna única entre os países do Ocidente, afirmam grupos de defensores dos direitos humanos.

“Nenhum de nós quer ser um herói ou um modelo”, disse recentemente Paolo em uma conferência a alunos do curso secundário em Roma, onde vive atualmente. “Nós só queremos fazer o nosso trabalho e a nossa obrigação, contar histórias”.

Entretanto, os assassinatos ligados ao crime organizado estão aumentando na Itália, afirmam as autoridades, e os observadores internacionais consideram as redes criminosas a principal ameaça aos jornalistas na Europa.

“Não pare de escrever, Paolo”, dizia um e-mail que Paolo recebeu dois dias depois de ser atacado em 2014 em frente à casa de campo da família na Sicília, por dois homens que usavam máscaras de esqui. “O nosso país precisa de um jornalismo investigativo e livre. Você tem todo o nosso respeito”.

A nota era de autoria de Daphne Caruana Galizia, a jornalista investigativa que foi morta em um atentado com um carro bomba no ano passado, depois de revelar os vínculos da sua ilha nação com os paraísos fiscais e de relatar os crimes de políticos locais durante dezenas de anos. Quando ela morreu, aos 53 anos, havia 47 ações criminais contra ela, inclusive uma do ministro da economia do país.

Além de Daphne Galizia, que foi assassinada em outubro, um repórter de 27 anos, Jan Kuciak, foi morto com a noiva na Eslováquia, em fevereiro. Ele também estava investigando a corrupção e os prováveis vínculos com a máfia italiana.

Entre os que têm a proteção da polícia 24 horas por dia está Lirio Abbate, um especialista em máfia da revista “L’Espresso”, que está sob proteção há 11 anos, desde que a polícia frustrou um atentado a bomba em frente à sua casa em Palermo. Federica Angeli, uma repórter do jornal “La Repubblica”, e sua família estão com escolta policial há cinco anos. E Roberto Saviano, autor de “Gomorra”, um livro best-seller, filme e seriado da televisão sobre o sindicato do crime de Nápoles, vive com escolta desde 2006.

Para Borrometi, demorou apenas um ano fazendo reportagens sobre os negócios secretos e os vínculos políticos clandestinos da máfia no sudeste da Sicília para o seu site de notícias independente, La Spia(O espião), para os criminosos começarem a ameaçá-lo. Em cinco anos, ele recebeu centenas de ameaças de morte dos mafiosos locais.

No mês passado, eles decidiram intensificar suas ameaças. A polícia diz ter interceptado um mafioso siciliano que discutia um plano com seus filhos para eliminar Borrometi com um carro bomba.

“Precisamos de uns ‘fogos de artifício’ como os dos anos 90, quando a gente podia até caminhar pela rua”, disse o homem, que foi apanhado em uma escuta telefônica. “Um morto de vez em quando é útil, para os mocinhos se acalmarem um pouco”.

Borrometi, evidentemente, agradece à polícia por sua intervenção antes que o plano contra ele fosse posto em ação. “Devo a minha vida ao meu Estado, a estes policiais e magistrados”, afirmou.

E deve a sua vida aos homens que o protegem continuamente, embora uma vez que as portas blindadas do seu apartamento no centro de Roma se fechem, ele esteja sozinho.

“Estou longe da família e dos meus entes queridos”, ele disse sorrindo, cercado pelos reconhecimentos por sua luta contra a máfia. “Mas tenho o meu trabalho maravilhoso”.

Mais conteúdo sobre:
Roma [cidade Itália] jornalismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.