(Tony Luong The New York Times)
(Tony Luong The New York Times)

Na pandemia, médicos dos EUA prescrevem um tratamento inusitado: votar

Um número crescente de médicos e enfermeiras está registrando seus pacientes para votar na eleição presidencial deste ano

Farah Stockman, The New York Times - Life/Style 

02 de setembro de 2020 | 05h00

BOSTON — O cartaz está bem à vista na sala de espera da ala de emergência do Massachusetts General Hospital, próximo da mesa de recepção e ao lado de um recipiente com desinfetante de mão. “Registre-se para votar aqui”, está escrito sobre um iPad preso a uma bancada. O estande está ali desde novembro, antes do início da pandemia e lá permaneceu durante as piores semanas de abril, quando 12 pacientes com dificuldades para respirar foram colocados em ventiladores durante um penoso período de 12 horas.

E com o número de pacientes do coronavírus reduzido ao mínimo, Alister Martin, médico de 31 anos que criou o estande continua determinado a manter o serviço de registro de eleitores.

“Haverá um momento em que, depois de todo esse sofrimento vamos perguntar, ‘como usar isto para fazer algo que melhore nossa situação’, disse Martin que carrega sempre um crachá com a frase Ready to Vote? (Pronto para Votar?). O seu projeto, chamado VotER, se tornou mais urgente uma vez que a pandemia tem impedido o tradicional registro presencial dos eleitores e à medida que a relação entre as falhas do poder público e as mortes que vêm ocorrendo fica ficou particularmente clara.

Agora, apesar de uma epidemia global – ou talvez por causa dela – seu projeto vem se estendendo pelo país. Desde maio, mais de três mil provedores de saúde requisitaram kits para registrar seus próprios pacientes para votarem, incluindo hospitais diferenciados na Pensilvânia, Kansas e Arizona.

Os partidários do movimento afirmam que o sistema de saúde tende a funcionar melhor nas comunidades que votam, portanto incentivar o eleitor a dar o seu voto é uma estratégia para melhorar a saúde do paciente no longo prazo. 

Jonathan Kusner, estudante do quarto ano de medicina que codirige a iniciativa Med Out the Vote, que visa incentivar as pessoas a irem votar, e foi lançada pela American Medical Student Association, diz que seu grupo está encorajando médicos de ambulatórios a incluírem a frase “Você já se registrou para votar?” nos questionários que os pacientes têm de preencher quando chegam em busca de auxílio médico, como ocorre no caso de violência doméstica.

“Do mesmo modo que pedimos para as pessoas mudarem seu comportamento em termos de alimentação ou se exercitarem, também pedimos para mudarem seu comportamento cívico”, diz Kusner, cuja organização se uniu ao movimento VOtER com o fim de promover o registro de eleitores em hospitais pelo país.

Mas alguns profissionais de saúde desaprovam esses esforços, temendo que as pessoas achem que estão tomando partido. Depois de anos se mantendo como republicanos fiéis, agora os médicos estão mais propensos a se tornarem democratas.

Outros se preocupam de que o ato de registrar eleitores extrapole o escopo do que os médicos devem pedir a seus pacientes. Poucos médicos foram treinados para debater o registro de eleitores de uma maneira apartidária e muitos que trabalham nas unidades de emergência já estão saturados de trabalho.

“Há uma voz forte que nos diz, ‘não é nosso trabalho’”, disse Harrison Alter, diretor-executivo do The Andrew Levit Center for Social Emergency Medicine, que ajudou a popularizar um novo campo médico chamado “social emergency medicine” (Medicina de emergência social) que ensina os médicos a afrontarem as condições sociais que levam os pacientes a adoecerem.

Mas os médicos recém-formados nessa área costumam ser mais expansivos quanto à necessidade de se envolverem nessa estratégia de registro de eleitores para tentar recuperar um sistema de saúde falido.

“Anteriormente, os médicos que adotavam uma posição política eram vistos como não profissionais”, disse Kelly Wong, estudante de medicina e fundadora do movimento Patient Voting, em Rhode Island, que visa fornecer a pacientes hospitalizados informações que os ajudem a enfrentar o desafio de votar a partir de um leito de hospital. “A participação cívica de nossos pacientes e nossas comunidades é muito importante para mudar o futuro do sistema de saúde”.

No ano passado, alguns meses depois de Martin ser contratado como médico formado na unidade de emergência e se tornar membro do Center for Social Justice and Health Equity, da Faculdade de Medicina em Harvard, ele pediu aos administradores do hospital permissão para instalar os estandes de registro de voto. Eles concordaram desde que o esforço fosse apartidário e não prejudicasse os tratamentos.

Martin instalou o software TurboVote em alguns iPads que ficou em bancadas que comprou online. E também colocou cartazes com os códigos QR que os pacientes podem escanear com seus celulares e acessar automaticamente um website onde podem se registrar para votar.

O projeto só havia começado, com cerca de um paciente por dia fazendo seu registro para votar e uma dezena de hospitais manifestando interesse pelo serviço – quando a pandemia atingiu o país. As salas de emergência ficaram lotadas de pessoas aterrorizadas pedindo para serem testadas. As telas do iPad se tornaram uma fonte de possíveis infecções. Os hospitais antes interessados não mais retornaram as suas chamadas.

O Massachusetts General Hospital instalou uma tenda num campo militar para desabrigados que aguardavam seus resultados. Em abril, com a pandemia chegando ao seu pico, Martin observou que muitas das pessoas mais doentes eram de língua espanhola – trabalhadores de setores considerados essenciais que não podiam ficar protegidos em casa. O vírus mostrou as disparidades do sistema de saúde que Martin já vinha combatendo.

Em vez de anular o movimento, a pandemia despertou o interesse no projeto. Depois de meses presenciando a má condução da resposta e o temor por suas próprias vidas, tanto como a de seus pacientes, muitos médicos enfermeiros hoje veem mais claramente que existe uma conexão entre seu trabalho e política.

“Há mais enfermeiros e enfermeiras interessados, e também mais médicos”, diz Aliza Narva, diretora de ética do hospital universitário da Pensilvânia. “Acho que as pessoas de fato viram a implicação que a política tem no sistema de saúde real que conseguimos oferecer”.

Até agora cerca de 500 pessoas registraram seu título de eleitor usando o código QR inscritos nos posters do VotER e nos crachás usados pelos atendentes de saúde, ou seja, um número duas vezes maior de registros nos últimos três meses. E Martin recebeu tantas encomendas que não sabe se a sua pequena equipe de voluntários conseguirá atender a todos.

A pandemia deixou mais inquieto esse jovem normalmente animado. E na sua visão, se os provedores de saúde querem um sistema que funcione eles têm de “intervir”. “Acabou o tempo de nos mantermos imparciais e apolíticos e nos colocarmos à margem”, afirmou.

O vírus também ofereceu a Martin uma outra maneira de levantar a questão do voto com seus pacientes. Ele os avisa, especialmente os mais frágeis, que é mais seguro votar a partir de casa em novembro. “Já tem sua cédula de voto enviada pelo correio?”, ele pergunta a eles, apontando para o código QR em seu crachá. “Você pode obtê-la aqui”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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