Julia Le Duc/Associated Press
Julia Le Duc/Associated Press

Na peleja pela sobrevivência, pai e filha morrem durante travessia para os EUA

Fugindo da pobreza, jovem de 25 anos e sua filha de dois anos se afogaram no Rio Grande, na fronteira com México, em processo imigratório para os Estados Unidos

Kirk Semple, The New York Times

04 de julho de 2019 | 06h00

SAN MARTÍN, EL SALVADOR - Rosa Ramírez implorou ao filho para que não deixasse El Salvador para seguir rumo ao norte com a mulher e a filha pequena. Os riscos eram grandes demais. Para ele, não havia alternativa. O jovem casal mal conseguia pagar as contas, disse Rosa, e tinha depositado suas esperanças na imigração para os Estados Unidos.

Eles nunca chegaram ao fim do caminho. O filho de Rosa, Óscar Alberto Martínez Ramírez, de 25 anos, e a filha de quase 2 anos, Angie Valeria, se afogaram no dia 23 de junho na tentativa de chegar ao Texas. O destino deles, capturado em uma foto mostrando pai e filha boiando nas águas lamacentas do Rio Grande, se tornou um ponto focal no debate a respeito do fluxo de imigrantes que tentam vencer a fronteira do sul dos EUA - e da determinação do presidente Donald J. Trump em detê-lo.

Mas, para muitos moradores de San Martín, cidade natal de Martínez, os esforços de Trump para impedir os imigrantes tiveram pouco impacto na decisão de enfrentar a perigosa jornada. “Não importa o que ele diz - ameaçando construir um muro de não sei quantos metros", disse José Alemán, de 48 anos, sócio de um lava-rápido. “Eles continuam tentando”.

A morte de Martínez e da filha destacou um dos principais motivos que mobilizam os imigrantes da América Central e de outras partes do mundo: as dificuldades econômicas. A pobreza e a falta de bons empregos leva muitos a abandonar seus países. A família Martínez chegou até a cidade mexicana de Matamoros, na fronteira norte do México, onde, de acordo com parentes, esperavam entrar nos EUA e solicitar asilo. Ao saber que a ponte que leva ao Texas estava fechada, eles decidiram tentar a travessia do Rio Grande.

Martínez foi na frente com a filha do casal, carregando-a nas costas, sob a camiseta. Às autoridades, a mulher, Tania Vanessa Ávalos, disse que os seguia logo atrás, montada nas costas de um amigo da família.

Quando Martínez se aproximava da margem oposta, estava ficando visivelmente cansado nas águas agitadas, disse Tania às autoridades. Nervosa, ela decidiu nadar de volta, mas viu o marido e a filha serem levados pelas águas. “Não queria que eles partissem", disse Rosa em entrevista concedida na pequena casa geminada de dois quartos que dividia com o filho e a família. “Mas eles não ouviram meus conselhos”.

Rosa disse que o filho e a família não estavam fugindo da perseguição nem de ameaças - requisitos para a obtenção de asilo nos EUA. Eles imigraram “simplesmente por causa da situação econômica", lembrou. “Lamentavelmente, os salários aqui são muito baixos e insuficientes", acrescentou.

“Não há oportunidades nem empregos", afirmou Víctor Manuel Rivera, prefeito de San Martín. Ele calculou que aproximadamente 50% dos moradores com escolaridade média estão desempregados. “Todos os dias, ouço alguém dizer que está partindo para tentar a vida nos EUA”.

Aqui, todos falam a respeito de “la situación” - a situação -, referindo-se às dificuldades econômicas que muitos enfrentam. Com frequência, o contraponto é simples: “O sonho americano". Martínez e Tania viviam uma situação difícil com o salário que ganhavam, cerca de US$ 300 ao mês, trabalhando em restaurantes de fast-food. No segundo semestre do ano passado, começaram a falar em imigrar para os EUA. Nos anos mais recentes, o município observou um aumento acentuado no número de famílias optando pela imigração, parte de uma onda de famílias imigrando a partir da América Central.

Rosa lembra do filho como um pai leal e dedicado, e também “um filho respeitoso, responsável e carinhoso". A neta, Angie Valeria, era “alegre e inteligente".  Depois que os corpos foram descobertos, Rosa se viu olhando para as imagens do filho e da neta no celular. A filha as apagou para poupá-la da dor. “Não coloquem em risco a vida de seus filhos", aconselhou, na esperança de alertar outros contra a ideia de enfrentar a perigosa jornada até a fronteira. “Se alguém estiver pensando em fazer isso, desista”. E continuou: “Prefiro viver aqui, na pobreza, do que arriscar minha vida. Mas nem todos pensam assim”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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