Christopher Gregory para The New York Times
Christopher Gregory para The New York Times

Na pequena Guiana, petróleo traz esperança e muita preocupação

Este país, ainda subdesenvolvido, é o improvável cenário para o próximo grande boom do petróleo no mundo

Clifford Krauss, The New York Times

29 Julho 2018 | 10h15

GEORGETOWN, GUIANA - Guiana é um vasto território úmido e selvagem que conta com apenas três estradas asfaltadas. Há algumas estradas de terra entre os vilarejos que repousam sobre palafitas ao longo de rios que serpenteiam pela floresta tropical. As crianças das regiões mais remotas vão à escola de canoa e brincam nuas em meio ao calor.

Ao longo da costa há mofadas cidades de madeira como a capital, Georgetown, cortada por canais construídos primeiro pelos colonos holandeses e, depois, pelos escravos africanos. A rede elétrica é tão instável que os apagões são um problema constante nas cidades, enquanto boa parte do interior vive sem nenhuma eletricidade.

Este é o improvável cenário do próximo grande surto de exploração do petróleo.

Nos três anos mais recentes, a ExxonMobil perfurou oito generosos poços oceânicos de prospecção. Com o potencial de gerar uma receita de US$ 20 bilhões anuais a partir do petróleo já no fim da próxima década, pode haver uma recompensa grande o bastante para melhorar a vida de praticamente todos os guianenses. 

Um dos países mais pobres da América do Sul pode se tornar um dos mais ricos do continente. 

Subitamente, o assunto mais falado de Georgetown é uma proposta de fundo soberano para administrar todo esse dinheiro, aos moldes de um emirado do Golfo Pérsico.

Mas os países que descobrem petróleo em seu território costumam desperdiçar a oportunidade, conforme o recurso natural é apropriado pela corrupção. 

Países com instituições políticas fracas como a Guiana são especialmente vulneráveis. “Temos um alinhamento de dinheiro e poder nas mãos do estado, o que faz com que o partido do governo controle os recursos", disse Floyd Haynes, consultor de finanças guianês a serviço do ministério dos negócios. “E o dinheiro costuma ser desperdiçado, investido de maneira errada ou simplesmente roubado.”

As autoridades locais têm pouca experiência na regulamentação de uma grande indústria do petróleo ou na negociação com empresas internacionais. Os servidores públicos são corruptos, e o setor privado é lento na inovação, de acordo com empresários e assessores do governo.

Ainda assim, há otimismo. “Para nós, a descoberta desse petróleo é quase como uma providência", disse Raphael Trotman, ministro dos recursos naturais. “Recebemos uma segunda chance para o desenvolvimento do país.”

A primeira chance foi a independência em relação à Grã-Bretanha em 1966, mas a praga da política tribal e étnica produziu um estado frágil cuja economia é impulsionada pelo tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e contrabando de ouro e diamantes. A grande maioria dos jovens com ensino superior emigra para os Estados Unidos ou Canadá, enquanto os que ficam para trás enfrentam a alta incidência de infecção pelo HIV, criminalidade e suicídios.

“Os desafios são imensos e não devem ser subestimados", disse Lars Mangal, presidente da Totaltec Oilfield Services, empresa guianense que busca treinar trabalhadores locais em questões de segurança e operações básicas com petróleo. “Temos que superar o nepotismo, os privilégios, a corrupção, o cinismo e o ceticismo.”

O governo guianense, que fechou um acordo com a Exxon, receberá metade do dinheiro proveniente da produção de petróleo assim que a empresa quitar os custos iniciais. Economistas apontam que isso significa que o PIB atual do país, US$ 3,6 bilhões, vai triplicar em cinco anos.

Mas, com a exploração ocorrendo num ponto distante (no oceano, a 190 quilômetros da costa) e a ausência de planos para uma refinaria, os benefícios econômicos para a população foram limitados por enquanto, despertando o cinismo de alguns. Apenas cerca de 600 guianenses conseguiram emprego diretamente nas plataformas de perfuração, bases costeiras de apoio e escritórios, e esse número só vai aumentar para mil aproximadamente.

‘Números favoráveis’

Coloridos monumentos hindus decoram os campos de arroz da Guiana, um lembrete da distância cultural entre o país e seus vizinhos latino-americanos. O idioma local é o inglês, por causa do legado da colonização britânica, e os maiores grupos étnicos são os afro-guianenses e os indo-guianenses - descendentes de escravos da África e de servos da Índia trazidos do subcontinente indiano no século 19.

Tradicionalmente, o país negocia a colheita de arroz com a Venezuela, trocando a produção por combustível. Agora a Guiana está atraindo experientes executivos do petróleo do Texas, como Doug McGehee, gerente de operações da Exxon na Guiana. Em mais de 37 anos trabalhando para a ExxonMobil, McGehee já esteve em campos de petróleo em Angola, Cazaquistão e Guiné Equatorial.

Em todos esses lugares, a riqueza gerada pelo petróleo chegou ao topo da sociedade, deixando para trás os pobres. Mas, enquanto monitorava as operações a bordo do navio de perfuração Noble Bob Douglas recentemente, McGehee insistiu que, na Guiana, as coisas seriam diferentes.

“Os números são favoráveis", disse ele, apontando para a pequena população do país (menos de 800 mil habitantes) entre a qual a riqueza seria distribuída. O governo da Guiana deve receber anualmente US$ 6 bilhões em royalties e tributos já no final da década de 2020, de acordo com a consultora norueguesa Rystad Energy. “Se o governo souber administrar a exploração do recurso, cada guianense deve ser beneficiado com escolas melhores, instalações de saúde melhores, estradas melhores", disse McGehee.

Mas, nesse caso, a palavra-chave é “se". Para os guianenses, basta olhar para a vizinha Venezuela para ver um exemplo de estado fracassado, onde as maiores reservas de petróleo do mundo não impediram a miséria.

Trinidad e Tobago, país também próximo, oferece outro exemplo de como países dependentes do petróleo podem negligenciar as indústrias tradicionais e, como consequência, sofrer graves choques econômicos quando caem os preços do petróleo bruto e do gás natural.

Os especialistas chamam essa dinâmica de “maldição dos recursos naturais".

Há alguns exemplos de países que conseguiram usar o petróleo para diminuir a pobreza. A Malásia, que tem uma grande produção oceânica de petróleo, manteve o crescimento e a diversificação de sua economia. No Oriente Médio, Omã é um modelo de uso da riqueza do petróleo e do gás para modernizar sua economia.

Mas não faltam desanimadores exemplos de oportunidades desperdiçadas.

Nas palavras do primeiro-ministro Moses V. Nagamootoo, “todos estão preocupados com os aspectos negativos". 

‘Mudança definitiva na situação do país’

Antes da recente e revolucionária descoberta, várias empresas de petróleo já tinham perfurado mais de 40 poços na costa da Guiana e do vizinho Suriname desde os anos 1960. Todos foram apenas buracos secos, ou sem potencial de exploração econômica. Mas, com a alta do preço do petróleo nos anos mais recentes, Exxon e Royal Dutch Shell decidiram tentar novamente (a Shell acabou desistindo).

A principal geóloga e cientista da Exxon no local era Kerry Moreland, de Oklahoma. Lembrando do dia em que decidiu evitar as reuniões de negócios em Georgetown para visitar a plataforma de perfuração, três anos atrás, ela disse que não havia mais de 20% de chance de encontrar um volume considerável de petróleo a uma profundidade de cinco quilômetros abaixo do leito oceânico.

Quando o helicóptero dela pousou na plataforma, a broca chegou ao reservatório. Quando fragmentos de rocha chegaram à superfície, algumas horas depois, estavam pingando petróleo.

“Naquele momento, pensei ‘Que ótimo, fizemos uma descoberta’”, disse Kerry. “Mas, naquele momento, me dei conta que isso poderia mudar definitivamente a situação do país, um dos mais pobres do Ocidente.”

Em questão de três meses, a empresa enviou duas embarcações para realizar o maior teste sísmico tridimensional já feito pela Exxon, numa área de mais de 17 mil quilômetros quadrados, em busca de mais petróleo.

A Exxon começou a perfurar o primeiro de 17 poços que começarão a produzir petróleo em 2020, com uma embarcação de produção, armazenamento e descarga com capacidade para 120 mil barris por dia.

Outra embarcação do tipo está nos planos, e é possível que haja uma terceira. No total, 500 mil barris por dia poderão ser produzidos na próxima década (a espanhola Repsol, a britânica Tullow Oil e outras também estão explorando a região).

O operário Gorshum Inniss, 25 anos, trabalha na equipe responsável por um guindaste que instala a tubulação de novos poços, dobrando o salário que ganhava num rebocador. Ele disse que agora tinha dinheiro o bastante para visitar os pais e o irmão mais novo em Nova York, e planejava construir uma casa para si e para a filha. “Vejo a Guiana como o novo Oriente Médio", disse ele.

‘Na boca de uma onça’

Os ambientalistas temem que o petróleo possa retardar o desenvolvimento de energia renovável, e dizem que o governo e as empresas do petróleo não estão preparados para responder a um eventual vazamento.

“Faltam apenas dois anos para o início da produção, e não temos um plano nacional de contingência contra vazamentos de petróleo", disse Annette Arjoon-Martins, diretora da Sociedade de Preservação Marinha da Guiana. “Estamos com as mãos na boca de uma onça.”

Annette disse que o acordo do governo com a Exxon não especifica detalhadamente as responsabilidades da empresa em caso de vazamento. Mas funcionários do governo disseram que as leis do país tornam a empresa plenamente responsável.

Executivos da Exxon dizem que a empresa está fazendo todo o possível para minimizar os riscos de um desastre envolvendo um vazamento. A empresa tem à disposição escumadeiras e barreiras de contenção para recolher o petróleo em caso de vazamento, e solicitou ao governo autorização para o uso de dispersantes químicos em caso de emergência, para dissipar o petróleo de um eventual acidente.

A Exxon vai mapear os mangues da costa e estudar as rotas de migração de peixes, aves e tartarugas para definir as prioridades em caso da necessidade de uma limpeza. A empresa planeja também construir uma tubulação de gás natural para substituir o combustível pesado consumido pelas usinas de energia do país, reduzindo o custo para consumidores residenciais e comerciais. “Temos o compromisso de explorar esses recursos da maneira mais responsável, com um impacto mínimo para o meio ambiente", disse Rod Henson, da Exxon.

‘Vejo muitos problemas’

O presidente da Guiana, David A. Granger, comandante militar da reserva que lidera uma fragmentada coalizão, tentou estabelecer uma estrutura jurídica para a prosperidade vindoura. Para evitar o envolvimento das autoridades corruptas, Granger anunciou sua intenção de formar um departamento de energia encarregado de definir as políticas de exploração, subordinado ao presidente, e uma comissão independente para regulamentar a indústria e conceder licenças de exploração e produção.

Pressionado a romper com a tradição de acordos sigilosos com empresas internacionais, em dezembro Granger publicou num site do governo o contrato da Guiana com a Exxon, dando início a um vigoroso debate dos termos do documento. Ele prometeu acabar com as licitações de direitos de exploração a portas fechadas e abrir os leilões para o desenvolvimento futuro.

Muitas das mudanças foram promovidas por Jan Mangal, assessor de Granger para assuntos ligados ao petróleo e irmão do empresário Lars Mangal. Nascido na Guiana, Jan Mangal, ex-diretor de projetos da Chevron, orientou o presidente a fazer uma pausa nas licitações até que a comissão do petróleo possa ser formada, e pediu a investigação de várias concessões de exploração do petróleo feitas pelo governo anterior a empresas pequenas do ramo.

“Vejo muitos problemas", disse Mangal. “Não podemos permitir que a indústria guianense seja erguida em torno desse alicerce instável afetado pela corrupção.”

Newell Dennison, diretor interino da Comissão de Minas e Geologia da Guiana, disse que ele e seus colegas do governo estavam sob pressão para acertar no modelo. “É claro que eu me preocupo", disse ele. 

 

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