Carsten Snejbjerg para The New York Times
Carsten Snejbjerg para The New York Times

Na Suécia, chegada de imigrantes testa políticas de bem-estar

Modelo nórdico, que oferece saúde, educação e aposentadoria para todos, pode entrar em colapso com o aumento vertiginoso no número de refugiados

Peter S. Goodman, The New York Times

21 de julho de 2019 | 06h00

FILIPSTAD, SUÉCIA - No início, os líderes locais estavam dispostos a encarar os refugiados como uma oportunidade. As minas de minério de ferro estavam fechadas. O mesmo ocorrera com uma fábrica que produzia maquinário para a indústria madeireira. A cidade estava abandonada, com a população reduzida pela metade. Uma tentativa de renovação parecia ao alcance.

Era o verão de 2015, e havia gente chegando de alguns dos lugares mais problemáticos do planeta - Síria, Somália, Iraque. Essas pessoas preencheriam lares vazios, aprenderiam a língua sueca e assumiriam empregos tomando conta dos suecos mais velhos. Pagariam impostos, ajudando a financiar os abrangentes programas de bem-estar social que fizeram da Suécia uma raridade no mundo, um país aparentemente em paz em uma era de tempestuoso capitalismo global.

Mas, passados quatro anos após o desembarque em massa, um crescente número de suecos nativos passou a ver os refugiados como desperdício de dinheiro público. Alguns denunciam um ataque contra o "patrimônio sueco", ou a "cultura sueca", ou outros termos que significam branco, protestante e conhecido. A antipatia em relação aos imigrantes ameaça, agora, erodir o apoio ao estado de bem estar social da Suécia.

"Ninguém quer pagar impostos para sustentar pessoas que não trabalham", disse Urban Pettersson, 62, integrante da câmara de vereadores de Filipstad, cidade a oeste de Estocolmo. "Noventa por cento dos refugiados não contribuem com a sociedade. São pessoas que dependerão a vida toda dos programas de bem-estar social. Trata-se de um imenso problema".

Em uma economia global cada vez mais sitiada pela fúria diante da desigualdade e das armadilhas do capitalismo, faz tempo que a Suécia se destaca como país mais receptivo e gentil, um potencial modelo para outros países ansiosos por evitar o destrutivo populismo.

O chamado modelo nórdico que prevalece em países como Suécia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Islândia foi pensado para proteger as pessoas das aflições econômicas comuns que afetam muitas nações desenvolvidos. Sob o modelo nórdico, os governos oferecem saúde, educação e aposentadoria a todos. O estado fornece subsídios para moradia e creches. Quando as pessoas perdem o emprego, recebem benefícios para desempregados e têm acesso a programas de requalificação profissional.

Enquanto lideranças mundiais debatem a melhor forma de preservar as forças inovadoras do capitalismo e gastar de maneira mais igualitária a sua recompensa, o modelo nórdico é frequentemente apontado como abordagem promissora.

Mas a resistência do modelo nórdico depende de dois elementos cruciais - a disposição do eleitorado de pagar um dos impostos mais altos do planeta e o entendimento de que todos devem trabalhar. A chegada de um grande número de imigrantes na Suécia - o maior entre os países europeus - testa diretamente essa proposta. No seu auge, em 2015, cerca de 160 mil refugiados buscaram asilo na Suécia, país de 10 milhões de habitantes.

Nas duas últimas décadas, a parcela de pessoas nascidas no exterior aumentou de 11% para 19% da população sueca. Muitos têm baixa escolaridade e não falam sueco, o que torna difícil a busca por emprego.

Levantamentos da opinião pública mostram que os suecos continuam dispostos a aceitar o fardo dos impostos. Mas, conforme os cidadãos se dão conta de que muitos refugiados vão depender do bem-estar social por anos, alguns hesitam diante do custo, ao mesmo tempo exigindo limites para o auxílio do governo aos desempregados. 

"As pessoas se mostram bastante abertas a demonstrarem solidariedade a outros como elas", disse Carl Melin, diretor de políticas da instituição de pesquisas Futurion, em Estocolmo. "Elas não demonstram solidariedade em relação a quem é diferente".

O principal veículo do descontentamento é o partido político Democratas da Suécia, de direita, com raízes no movimento neonazista. O partido ganhou força em meio à raiva diante de uma economia que estagnou nos anos mais recentes e dos cortes aos serviços sociais que vêm sendo aplicados há pelo menos 25 anos século.

O partido também foi impulsionado por reações violentas ao multiculturalismo em cidades como Filipstad, onde muçulmanas de véu empurram hoje crianças pequenas em carrinhos pelas calçadas.

"Esses imigrantes não falam o mesmo idioma", disse Pettersson, dos Democratas da Suécia. "Têm religiões diferentes, maneiras de viver diferentes. Quando as diferenças são muitas, é mais difícil conviver. É interessante conhecer alguém de outro país e conversar por meia hora, mas, para conviver, é difícil".

Ele é a favor da devolução dos refugiados aos países de origem por meio do "repatriamento voluntário". 

"Não dispomos de recursos infinitos", disse Pettersson. "Se os impostos não aumentarem, teremos de cortar algo".

Falta de capacitação

Quando o governo nacional começou a trazer refugiados a Filipstad em 2012, as autoridades locais receberam garantias de que não teriam de lidar sozinhas com o impacto da nova população.

O governo estava ansioso para que os refugiados fossem encaminhados para cidades menores, e não para centros como Estocolmo, onde a moradia era escassa e cara. As autoridades nacionais concordaram em cobrir as despesas de aluguel, alimentação, vestuário e atendimento médico especializado nos primeiros dois anos. Depois disso, os municípios herdariam a responsabilidade, ainda que a expectativa fosse de um custo mínimo: a essa altura, a maioria dos refugiados já poderia se sustentar sem ajuda.

Tudo isso não passou de uma fantasia, de acordo com Hannes Fellsman, que administra programas de ensino e trabalho em uma unidade criada pelo governo local em 2015 com o intuito de preparar os refugiados para desenvolverem carreiras.

Hoje, cerca de um quinto dos quase 11 mil habitantes de Filipstad é de nascidos em outrros países. Entre os 750 deles em idade útil, 500 têm escolaridade inferior ao ensino médio. Duzentos deles são analfabetos.

"O estado insiste que precisamos preparar essas pessoas para que encontrem empregos rapidamente", disse Fellsman. "É impossível. Elas não têm nenhum ensino".

O preparo dos refugiados para o trabalho na Suécia é difícil porque a economia gira em torno de empreendimentos de alta capacitação e alta remuneração. Tudo foi pensado para minimizar os empregos de baixo salário no setor de serviços.

O desemprego entre os nascidos na Suécia era de apenas 3,8% no ano passado; entre os nascidos no exterior, a proporção de desempregados é de 15%. Cerca de metade de todos os desempregados na Suécia não nasceu no país.

Entre os defensores dos Democratas da Suécia, números desse tipo são citados como evidência do intuito dos refugiados, que vieram ao país em grandes multidões para aproveitar uma vida de preguiça financiada pelo governo.

Retratos como esse surpreendem Babak Jamali. Seis anos atrás, ele deixou o lar no Afeganistão, foi até a cidade sueca de Malmo e solicitou asilo. Durante os 12 últimos meses, viveu nos campos perto da cidade de Horby, sul do país, em uma casa sem encanamento.

Jamali, 19, não pode trabalhar enquanto seu pedido de asilo é processado e, por isso, vai a Horby seis dias por semana para estudar sueco. Os nativos gritam com ele ao passar de carro, dizendo que volte para casa.

"Que casa?", disse ele. "Não tenho casa".

Seu primeiro pedido de asilo foi negado. Ele deu entrada em um recurso. Se perder, pode ser deportado, ideia que o assusta. Fala sueco quase fluentemente e quer ser eletricista. "Quero viver como os outros vivem", disse ele.

Para os economistas, o sucesso do modelo nórdico é comprovado, justificando o investimento no assentamento de refugiados. Seus filhos crescerão falando sueco. Estudarão em escolas suecas e terão empregos.

O refugiado médio na Suécia recebe aproximadamente US$ 7.800 a mais em serviços do governo do que sua contribuição para o sistema, concluiu o economista Joakim Ruist em relatório divulgado no ano passado. 

No total, o custo de programas sociais voltados para refugiados consome aproximadamente 1% da produção econômica anual da Suécia. "A Suécia pode arcar com o custo", disse Ruist. "Essa crise de refugiados aparentemente sem solução é, na verdade, fácil de resolver".

Os serviços de capacitação têm o objetivo de ajudar a solucionar a questão. Saadia Osman, uma mãe de três filhos que fugiu da guerra na Somália e chegou à Suécia seis anos atrás, estava em uma sala de aula aprendendo sueco direcionado ao trabalho em cozinhas de restaurantes. Três anos atr´s, seu marido conseguiu um emprego em uma fábrica, com salário de aproximadamente US$ 2.100 mensais. Agora, eles paga, o próprio aluguel.

"Estamos todos ansiosos para trabalhar", contou ela. "Não adianta nada ficar em casa sem ter o que fazer".

Aumento do custo com refugiados

Três anos atrás, o governo nacional deu a Filipstad cerca de US$ 5,8 milhões para cobrir o custo extra de sustentar os refugiados. Esse dinheiro se esgotará este ano. As autoridades aprovaram recentemente planos para mais US$ 34 milhões em auxílio aos governos locais, número inferior ao proposto inicialmente.

Do ponto de vista de Johnny Grahn, a Suécia já faz demais para ajudar. Motorista de ônibus profissional, Grahn ocupa um assento na câmara de vereadores de Filipstad, representando os Democratas da Suécia. De acordo com a descrição dele, os refugiados tomaram a comunidade.

Ele disse que os complexos habitacionais locais estão cheios de estrangeiros, e as creches foram "inundadas" de filhos de refugiados. As pessoas esperam semanas por um horário no dentista. Ao mesmo tempo, o pagamento de benefícios do bem-estar social pelo governo local aumentou muito nos últimos dez anos, de aproximadamente US$ 632 mil para mais de US$ 3 milhões.

Depois de uma crise econômica no início dos anos 1990, a Suécia reduziu os impostos e os gastos, aplicando cortes aos benefícios para desempregados e às pensões. Queixas de atrasos no sistema de saúde aumentaram.

Mas, em Filipstad, como nas demais comunidades, os refugiados são, agora, responsabilizados por praticamente todos os problemas sociais. A narrativa é impulsionada pela ideia segundo a qual o dinheiro gasto na tentativa de integrar os refugiados é desperdiçado. Além da Suécia, esse tipo de mentalidade ataca os alicerces do modelo nórdico em uma era de migração em massa.

"A disposição do público de seguir pagando os altíssimos impostos necessários para financiar os programas de bem-estar social não é algo com que devamos contar", disse o economista Marten Blix, de Estocolmo. "Estamos começando a ver agora o surgimento de fissuras graves".

Para os forasteiros, o modelo nórdico pode parecer regido pela benevolência, um desejo de garantir que ninguém enfrente necessidades fundamentais como falta de moradia ou atendimento de saúde. Mas a experiência da Suécia com os refugiados indica uma concepção mais transnacional do estado de bem-estar social, uma espécie de clube no qual as pessoas pagam em troca da oferta de serviços esperados. Se um número grande demais de pessoas forem beneficiadas gratuitamente, o sistema estará em perigo.

"Antes, recebíamos algo em troca", disse Grahn. "Agora, não recebemos de volta nem mesmo aquilo que investimos". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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