Elisabeth Real para The New York Times
Elisabeth Real para The New York Times

Na Suíça, instituição para paraplégicos teme pelo futuro

Avanços na área de saúde esvaziam esporte para cadeirantes, que recebem treinamento no Centro Suíço para Paraplégicos

Andrew Keh, The New York Times

14 de novembro de 2018 | 06h00

NOTTWIL, SUÍÇA - A instituição criada há 28 anos, responsável pela preparação de alguns dos melhores atletas de cadeira de rodas do mundo, fica à beira de um lago nesta pequena cidade da Suíça, onde os moradores brincam que os porcos são mais numerosos do que as pessoas.

Neste ambiente monástico, Marcel Hug e Manuela Schär dedicaram-se religiosamente à busca quase espiritual da velocidade. Como praticamente todos os maratonistas suíços de cadeira de rodas, eles treinaram durante anos no Centro Suíço para Paraplégicos. A instituição funciona fundamentalmente  como hospital, mas o campus hospeda um centro de reabilitação, um escritório de serviços relacionados à vida e um centro de treinamento.

Aqui, as carreiras atléticas dos corredores têm sido idealizadas e aprimoradas. A direção preocupa-se com o que o futuro reserva ao país em um mundo em transformação dos esportes em cadeiras de rodas. “O nosso problema - um problema em sentido positivo, aliás - é que não temos muitas outras pessoas paralisadas”, disse Andreas Heiniger, o diretor da unidade de competições da Swiss Wheelchair Sports.

Os avanços na medicina e a alta qualidade da assistência medica no país, acrescentou, levaram a uma redução do número de participantes dos esportes em cadeiras de rodas. Mas a Suíça ainda tem Schâr e Hug.

“Até para nós, talvez, seja difícil explicar, mas este lugar produz resultados importantes em tudo o que fazemos”, disse Manuela Schär, que ganhou a recente Maratona da Cidade de Nova York, com o tempo de 1 hora, 50 minutos e 27 segundos. “Você começa aqui com uma história triste...”, acrescentou.

Manuela chegou ao hospital quando tinha 9 anos, depois que um acidente em um balanço em uma festa de aniversário lhe tirou a capacidade de usar ambas as pernas. Ela passou por uma série de cirurgias e começou um processo de reabilitação, que mudou a sua vida em seis meses cruciais na instituição, com uma rotina torturante.

No hospital, ela conheceu Heinz Frei, um campeão de corridas em cadeiras de rodas, que parou ao seu lado para encorajá-la. Mais tarde, Frei e outros maratonistas a pegavam e a levavam para exercitar-se em estradas secundárias, perto da casa da família dela. Logo, ela começou a treinar por conta própria.

A sua primeira cadeira de corrida, feita com peças avulsas, ainda hoje é usada por crianças do centro. “Esta garota era muito rápida nessa cadeira”, disse Frei, que ganhou mais de 100 maratonas. “Nós sabíamos que era um diamante bruto.”

Hug, o mais novo de quatro irmãos, cresceu em uma fazenda em Pfyn. Nascido com espinha bífida, um problema que o deixou paralisado abaixo da cintura, tinha 10 anos quando conheceu Paul Odermatt, com quem continua treinando hoje em dia. Oito anos mais tarde, ele começou a treinar no centro nacional enquanto ia à escola, na vizinha Lucerna.

Agora, Hug, 32, mora em Nottwil e treina seis vezes por semana. Ele perdeu o primeiro lugar na Maratona de Nova York por um segundo, com o tempo de 1 hora, 36 minutos e 22 segundos. Hug atribui o seu sucesso no esporte à Fundação Suíça para Paraplégicos, criada em 1975. 

A fundação tem 1,2 milhão de famílias suíças como membros pagantes por ano, informou o dr. Hans Peter Gmünder, o diretor do centro. (A Suíça tem cerca de 3,6 milhões de famílias.) No ano passado, a fundação captou cerca de 83,8 milhões de francos suíços (cerca de US$ 84,2 milhões).

Mas, segundo Odermatt, nenhum atleta está preparado para substituir Hug e Schär, 33, quando eles encerrarem suas carreiras. Ambos afirmaram que estão concentrados na Paraolimpíada de 2020, em Tóquio, embora Schär diga que poderá ser a sua última. Uma apresentação decepcionante na Paraolimpíada de Londres fez com que ela mudasse a sua concentração nas maratonas e revisse sua rotina de treinos.

“Há doze anos, ela era preguiçosa, fumava, coisas assim”, contou Claudio Perret, um cientista dos esportes que aceitou treinar Schär depois dos Jogos de Londres. Mas hoje, prosseguiu, ela é a atleta mais diligente. “Ela é um vulcão”, acrescentou.

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