Adem Altan/Agence France-Presse - Getty Images
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Na Turquia, adversários se unem contra o presidente Erdogan

A oposição mantém a esperança de que quatro partidos sejam mais fortes do que apenas um nas eleições do país

Carlotta Gall, The New York Times

17 de junho de 2018 | 10h15

ISPARTA, TURQUIA - A abrupta decisão do presidente Recep Tayyip Erdogan de convocar as eleições com mais de um ano de antecedência em relação ao cronograma, na esperança de pegar a oposição desprevenida, poderá ser um tiro pela culatra.

Os partidos de oposição turcos uniram-se em uma rara aliança que poderá representar uma grave ameaça para Erdogan, em sua tentativa de se reeleger nas eleições de 14 de junho para uma presidência com poderes muito maiores.

Erdogan, 64, continua sendo o político mais popular na Turquia. Mas a eleição, assim como o referendo do ano passado que criou um sistema presidencial mais poderoso, está se tornando um plebiscito a favor ou contra a continuação do seu mandato.

O favorito entre os candidatos da oposição é Muharrem Ince, professor de física e cinco vezes membro do Parlamento pelo Partido Republicano do Povo.

“Percebo um enorme desejo de mudança”, afirmou Ince recentemente em uma pausa entre comícios. “Erdogan sentirá muito”.

Pesquisas de opinião e analistas confiáveis acreditam que a disputa será extremamente acirrada. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos, as eleições irão para o segundo turno, algo que Erdogan espera evitar.

Segundo os pesquisadores, são iguais as chances de um segundo turno em que os dois mais votados se enfrentarão. Pela primeira vez, a oposição está unida e organiza uma apuração independente de todos os votos nacionais, a fim de impedir eventuais fraudes.

Se a aliança da oposição se mantiver e conseguir levar a um segundo turno, Ince poderá representar um forte desafio para o presidente. Os candidatos da aliança prometeram dar o seu apoio a quem desafiar Erdogan, disse Ince.

Erdogan é sempre um candidato astuto. Ele conduz sua campanha jogando com temas nacionalistas, culpando o terrorismo e o Ocidente pelos problemas econômicos da Turquia - o aumento do desemprego, a inflação e a queda da lira - e se vangloria dos seus programas sociais e na questão da construção.

Mas Ince oferece um antídoto animador a Erdogan, neutralizando os ataques do presidente com piadas e alegria. “As nuvens do desespero cobrem o nosso país”, afimou. “Prometo serenidade, felicidade e prometo a paz.”

Ao todo, quatro partidos da oposição se uniram, e até estenderam a mão ao Partido Democrático dos Povos pró-curdos, cujo líder, Selahattin Demirtas, está na prisão por várias acusações, do terrorismo a insultos à pessoa do presidente.

Ince visitou Demirtas na cadeia, correndo o risco de ser acusado por Erdogan de colusão com os terroristas, na tentativa de convencer um eleitorado crucial. O voto dos curdos, aproximadamente 10% dos eleitores, poderia mudar o resultado geral contra Erdogan.

Pesquisas independentes mostram Erdogan com 45% das preferências, e Ince com 20%. Entretanto, caso se mantenha unida, a aliança da oposição e os curdos empatariam com Erdogan.

O presidente teve 45,9% das preferências, o que seria insuficiente para ganhar a eleição no primeiro turno, segundo uma pesquisa do mês passado. Os votos da oposição unida somariam 44,5%. O partido de Erdogan diz que outras pesquisas mostram que ele ganhará no primeiro turno com algo entre 51 e 55% dos votos.

Entretanto, os próprios membros do governo reconhecem que a aliança de Erdogan, que o seu Partido Justiça e Desenvolvimento formou com o Partido do Movimento Nacionalista de direita, não conseguirá a maioria no Parlamento.

Um assessor presidencial e um colunista favorável ao governo sugeriram que, se Erdogan obtiver a presidência mas não conseguir a maioria no Parlamento, poderá inclusive convocar novas eleições. Esta decisão é vista como uma aposta, na esperança de que os eleitores deem a ele melhores condições.

“Será que Erdogan se sacrificaria em um cenário em que ele tem o queijo, mas a faca está nas mãos da oposição?” escreveu o colunista Ali Karahasanoglu no mês passado no jornal “Yeni Akit” favorável ao governo.

Outro candidato da oposição, a ex-ministra do Interior Meral Aksener, tem intensificado as tensões na aliança de Erdogan. Aksener, que rompeu com o Movimento Nacionalista no ano passado para fundar seu próprio partido, o Bom Partido, revelou-se uma força dinâmica na oposição, pois esteve na campanha do “não” antes do referendo do ano passado. Ela atraiu partidários de direita da aliança governista e criou uma plataforma forte para as mulheres e os jovens eleitores com o seu partido recém-formado.

Meral reuniu-se recentemente com aliados da oposição para selar um acordo de revisão da Constituição e para o retorno do país a um sistema parlamentar, na eventualidade de eles ganharem.

O acordo acabaria com o novo e poderoso sistema presidencial de Erdogan que por força de lei se instauraria com estas eleições.

Burcu Akcaru, que liderava um grupo de monitoramento, supervisionava uma mobilização em toda a aliança com a finalidade de inspecionar as eleições.

Ince convocou advogados voluntários para o caso de entrar na Justiça contra fraudes; Aksener disse que acampará na frente do Conselho Superior Eleitoral se forem descobertas irregularidades.

“Terão de me arrancar de lá com uma navalha”, afirmou.

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