Adem Altan/Agence France-Presse, via The New York Times
Adem Altan/Agence France-Presse, via The New York Times

Na Turquia, julgamentos em massa elevam tensão entre opositores de Erdogan

A política de repressão do governo tem como alvo suspeitos de envolvimento com o clérigo muçulmano Fethullah Gulen, acusado de organizar o complô

Carlotta Gall, The New York Times

06 de março de 2019 | 06h00

SILIVRI, TURQUIA - Depois do golpe fracassado de 2016 na Turquia, que deixou 251 motos e mais de 2 mil feridos, quase 3 mil agentes dos serviços de segurança e civis foram condenados. Os veredictos amplos foram bem recebidos pelo governo e seus defensores, para quem foi feia a justiça.

Mas o processo também aumentou o cisma político na Turquia e aprofundou a sensação de perseguição entre os opositores do governo, para quem os julgamentos em massa são o símbolo de um sistema de justiça arbitrário a mando do presidente Recep Tayyip Erdogan.

Passados mais de dois anos após a tentativa de golpe, o governo de Erdogan continua a processar os suspeitos de envolvimento com o homem acusado de organizar o complô, o clérigo muçulmano Fethullah Gulen. A repressão foi ampliada para incluir toda uma classe de opositores políticos, com o governo expurgando milhares do judiciário e dos meios acadêmicos, bem como da polícia e das forças armadas. As detenções prosseguem praticamente toda semana. 

Muitos foram acusados de obter e repassar as perguntas de uma prova escrita usada na promoção de policiais, algo que há tempos o governo alega ter feito parte de uma tentativa de infiltrar seguidores de Gulen no alto escalão dos serviços de segurança.

Gulen, que vive nos Estados Unidos, também foi indiciado nos mais destacados casos movidos contra o alto escalão do planejamento do golpe, mas autoridades americanas dizem que as evidências apresentadas são insuficientes para sua extradição.

As abundantes evidências apresentadas nos julgamentos acabaram com qualquer dúvida em relação à existência de um complô organizado para derrubar Erdogan, que escapou da captura naquela noite. Mas ativistas defensores dos cem a 200 pessoas - é tão repleto de equívocos a ponto de enfraquecer o caso contra os pretensos golpistas.

É forte a tensão nos julgamentos dos detidos mais recentemente, realizados em tribunais do tamanho de arenas esportivas. Os defensores do governo têm rompantes de fúria, despejando acusações quando um réu alega inocência. 

Os julgamentos em massa têm um longo histórico na Turquia e foram usados com frequência após golpes, até mesmo por alguns dos acusados de agora. Mas a dimensão do processo atual é algo que praticamente não encontra paralelo no Ocidente.

Para os críticos, os julgamentos em massa representam um castigo coletivo que já foi muito além dos esforços dos líderes da tentativa de golpe, com a repressão de Erdogan alcançando todos os militares que estavam de serviço naquela noite em todo o país.

O juiz Orhan Gazi Ertekin, copresidente da Associação Judiciária Democrática, descreveu os julgamentos em massa como processos arranjados, cujo foco não são os atos dos acusados, mas suas escolhas políticas "A ideia é transformar convicção política em condenação criminal, humilhar física e espiritualmente, e destruir aqueles que foram derrotados na política", disse ele. "O resultado é determinado antecipadamente".

Cinco líderes civis e 38 comandantes de alta patente são acusados de integrar o conselho de liderança do complô golpista em dois importantes julgamentos que estão perto da conclusão. Mas ao lado daqueles tidos como líderes do movimento, o governo deteve também dezenas de milhares de recrutas, comandantes, cadetes e policiais de bases e unidades militares envolvidas nos enfrentamentos ocorridos em todo o país na noite da tentativa de golpe.

A advogada Sibel Polat disse que seu cliente, um oficial da reserva, foi acusado de 13 crimes. "Não há evidência de que ele tenha pego em armas, nenhuma testemunha, nem imagem de vídeo. Nada além das acusações da promotoria", disse.

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