Furkan Temir para The New York Times
Furkan Temir para The New York Times

Na Turquia, o lucro das avelãs pelas mãos de sírios empobrecidos

Em fazendas que produzem 70% das avelãs do mundo para Nestlé, Godiva e Nutella, refugiados sírios reclamam da exploração e do desrespeito

David Segal, The New York Times

12 de maio de 2019 | 06h00

AKCAKALE, TURQUIA - Como milhares de outros refugiados sírios, Shakar Rudani trabalhou no verão passado na região turca do Mar Negro, que abriga a maior concentração mundial de fazendas de avelã. Ele chegou em agosto, na expectativa de ganhar com os seis filhos, de idades entre 18 e 24, o equivalente a alguns milhares de dólares. Foi embora no fim de setembro, trazendo consigo pouco além da firme determinação de nunca mais voltar.

Como a topografia é repleta de íngremes declives, os filhos passaram boa parte do tempo presos por cordas a rochas, uma precaução contra quedas possivelmente fatais. Pior: o salário era US$ 10 por dia, metade do prometido. "Mal ganhamos o suficiente para cobrir o custo de ir até lá e voltar", disse Rudani, 57 anos. "Só tínhamos o bastante para viver. Voltamos sem nada".

Cerca de 70% de todas as avelãs vêm da Turquia, produto de cerca de 600 mil pequenas plantações espalhadas ao longo da costa norte. Boa parte da colheita é destinada a produtos finais como a Nutella, vendida pela Ferrero, doces vendidos pela Nestlé e chocolates Godiva feitos por uma empresa turca, Yildiz. Poucos consumidores sabem que, por trás dessas guloseimas, há uma colheita há muito conhecida por seus riscos e dificuldades. Agora, é cada vez maior o número de refugiados sírios entre os trabalhadores sazonais da colheita de avelãs. Poucos têm autorização de trabalho, o que significa que contam com pouca proteção jurídica.

As leis trabalhistas da Turquia não se aplicam a empreendimentos agrícolas com menos de 50 funcionários, de modo que boa parte da fiscalização da colheita recai às empresas privadas que compram sua produção. A Ferrero diz supervisionar uma iniciativa para proibir o trabalho infantil e definir padrões mínimos de salário e segurança. A empresa privada italiana - comandada por Giovanni Ferrero, cuja fortuna individual já foi avaliada em US$ 22,3 bilhões - é um império erguido a partir das avelãs. A organização compra um terço da colheita da Turquia.

Mas o monitoramento abrangente das plantações de avelãs da Turquia é uma meta difícil, pois elas são muito numerosas e independentes. Além disso, o salário mínimo, que é oferecido por praticamente todos os agricultores, não é suficiente para manter uma família acima da linha da pobreza no país. E isso antes de o pagamento ser erodido ainda mais pelos intermediários, que apresentam os trabalhadores aos fazendeiros e costumam embolsar mais do que a parcela habitual de 10%.

Para as empresas de chocolate, tudo isso representa um dilema. Enquanto outros países tentaram ampliar sua produção de avelãs, a Turquia continua sendo a principal fonte da iguaria, e é impossível atender à demanda internacional sem comprar um volume pesado no país.

"Em seis anos de monitoramento, nunca encontramos uma única fazenda de avelãs na Turquia que cumprisse todos os requisitos e princípios do trabalho em condições decentes", disse Richa Mittal, diretor de inovação e pesquisa da Fair Labor Association, que foi a campo acompanhar o trabalho na colheita de avelãs da Turquia. "Em todas as propriedades que visitamos, nenhuma oferecia isso".

'Nunca seríamos encontrados'. A Turquia se tornou a capital mundial das avelãs graças à sorte e à intervenção do governo. A região do Mar Negro tem a combinação ideal de solo fértil, luz do sol e chuvas. A partir do final da década de 1930, o Partido Popular Republicano incentivou os agricultores locais a plantar aveleiras para estimular a economia local e diminuir os deslizamentos de terra.

Hoje, as avelãs são um dos gêneros cultivados que fazem da agricultura 6% da economia turca (outros gêneros incluem laranjas, chá, algodão e tabaco). Cerca de um quinto da força de trabalho está na agricultura, incluindo trabalhadores sazonais que rumam para regiões diferentes conforme diferentes colheitas têm inicio. Aproximadamente 200 mil deles são refugiados sírios.

Rudani era agricultor em seu país de origem, cultivando trigo e algodão em um terreno de 37 acres. Em janeiro de 2014, ele fugiu de sua casa com os 12 membros da família conforme combatentes do Estado Islâmico se aproximavam. A bandeira negra do Estado Islâmico ficaria hasteada no vilarejo dele pelos três anos seguintes. Uma milícia curda controla o local agora. Akcakale, onde eles se instalaram, fica bem perto da fronteira com a Síria. "Vê a casa verde no alto daquela colina?", indagou Rudani, apontando para um pontinho distante. "Era minha casa".

Como cerca de 3,4 milhões de outros refugiados sírios que entraram na Turquia desde 2011, Rudani e sua família vivem com o tênue status de "pessoas sob proteção temporária". Poucas autorizações de trabalho são concedidas a esse grupo, e a agricultura é um dos poucos setores que não exigem autorizações de trabalho.

Seu primeiro contato com a colheita de avelãs, em meados de 2017, foi um fiasco. Ele e os filhos foram para o norte em um carro alugado até chegar ao Mar Negro, uma jornada de 1.300 quilômetros. Quando Rudani se deu conta do quanto o trabalho era perigoso, ele decidiu que o dinheiro não valia a pena. No dia seguinte, voltaram de carro para casa. "Não pude acreditar naquelas montanhas", lembrou ele. "Parecia que, se caíssemos dali, nunca seríamos encontrados".

No ano seguinte, Rudani precisava do dinheiro mais desesperadamente, e um intermediário lhe afirmou que o salário seria maior. 

"Ele disse ao meu pai que, este ano, os fazendeiros estão pagando entre 80 e 100 liras por dia", explicou Muhammad Rudani, filho mais velho de Rudani. "Mas, quando meu pai chegou lá, percebeu que todos os supervisores estavam trapaceando. Um deles disse ao meu pai, 'daremos a você 50 liras por dia, e é só'." Eles ficaram.

A colheita de avelãs é dividida em duas tarefas, colher e transportar. Os coletores reúnem e ensacam as avelãs, em sacas de 50 quilos, carregando-as pelas montanhas e até os caminhões. A jornada é brutal, chegando frequentemente a 12 horas diárias, todos os dias da semana. 

Levando em consideração as parcas somas que recebem, muitos refugiados sírios dizem ter pouca escolha senão recrutar os filhos. Nawwaf Ibrahim, 48 anos e pai de dez, era motorista de táxi na Síria, um emprego que lhe proporcionava o sustento da família. Ele estava no casebre decadente que aluga perto da cidade de Adana, ao sul, um abrigo pelo qual ele só consegue pagar porque três de seus filhos adolescentes trabalham ao seu lado nas plantações de laranja. "As pessoas que não têm parentes o suficiente para trabalhar são obrigadas a viver em barracões de plástico na beira da estrada", contou. "Consegue imaginar?".

Intermediários sem supervisão. As dificuldades do trabalho agrícola são agravadas pelos intermediários. Conhecidos como dayibasi, eles são obrigados por lei a terem ensino primário completo e autorização de trabalho. Na prática, não recebem treinamento nem supervisão.

O dayibasi costuma proporcionar aos trabalhadores empréstimos entre as colheitas, prática que pode resultar em uma forma de servidão por dívidas. De acordo com os sírios, é mais comum que os intermediários mintam a respeito dos salários, que costumam ser entregues de uma vez ao fim da colheita. Até esse momento, os trabalhadores ganham apenas o suficiente para a alimentação e o aluguel, recebendo "cartões de negócios" - um documento informal reconhecendo a dívida do empregador - por cada dia trabalhado no campo.

Ostensivamente, o sistema foi pensado para garantir a lealdade, segundo Saniye Dedeoglu, professora de economia do trabalho da Universidade Mugla, na Turquia. "Para formar um grupo de trabalho, são necessárias 15 ou 20 pessoas, e quando alguém está endividado com um intermediário, é improvável que procure outro emprego", disse. "Vimos muitas pessoas nos campos que reuniram uma porção de cartões de negócios, mas os intermediários responsáveis simplesmente desapareceram".

Akcakale abriga dúzias de intermediários. Um deles, Ibrahim Ergun, explicou brevemente sua ocupação. "Faço isso há dez anos", disse Ergun, 71 anos. "Normalmente, trago comigo algo entre 100 e 150 trabalhadores quando venho ao norte". Ele tinha consciência da má reputação de seu ramo de atividade. "A maioria dos intermediários fica com o dinheiro e não garante os direitos de seus trabalhadores".

Mistério. Embora as avelãs da Turquia proporcionem ao país cerca de US$ 1,8 bilhão em um ano produtivo, as fazendas têm dificuldade para lucrar. O terreno acidentado torna quase impossível a mecanização da colheita. E quando os agricultores morrem, suas terras costumam ser divididas entre os filhos. Atualmente, o tamanho médio das fazendas é inferior a 4 acres.

Sema Otkunc, 70 anos, dona de uma fazenda em Akcakoca, herdou do pai seu terreno de 4 acres e continua a cultivá-lo para honrar a tradição da família. "Os compradores dizem, 'pago tanto', e não há nada que possamos fazer a respeito", explicou.

Sema é uma parte minúscula de um elaborado sistema a respeito do qual ela sabe quase nada. Não é capaz de identificar os participantes, além de seu comprador local. Os responsáveis pelo produto final, situados no alto dessa cadeia de fornecimento, mantêm o mapa de seus fornecedores envolto em mistério. Nenhum comprador é mais discreto do que a Ferrero. A empresa não identifica uma única fazenda envolvida em seu fornecimento.

Richa, da Fair Labor Association, disse que a Ferrero atende os telefonemas da organização e participa dos debates a respeito de questões trabalhistas, mas simplesmente não revela de quem compra suas avelãs. O grupo conhece melhor a cadeia de fornecimento da Nestlé, porque a empresa colaborou em um programa patrocinado pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos.

Em um levantamento de 2017, publicado no site da empresa, a Nestlé descobriu que mais de 72% dos trabalhadores diziam quase não ter dinheiro suficiente para sobreviver. Noventa e nove por cento deles disseram trabalhar sete dias por semana. De acordo com a empresa, problemas ligados ao trabalho infantil "aumentaram no ano passado" por causa da guerra na Síria. A Nestlé não respondeu aos pedidos de contato para a reportagem.

Para os refugiados, a agricultura turca é, ao mesmo tempo, uma garantia de sobrevivência e uma contínua provação. Nos cinco anos transcorridos desde que deixou sua pátria, Ibrahim desenvolveu uma ideia diferente do significado do azar. "Temos sorte", disse. "Podemos sobreviver aqui. Nunca seremos ladrões. Nunca teremos de pedir esmola nas ruas". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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