Susan Wright/The New York Times
Susan Wright/The New York Times

Na UE, esperança de reviravolta é recebida com silêncio

À medida que os protestos diminuem, expectativas de uma 'Primavera nos Bálcãs' desaparecem

Marc Santora, The New York Times

07 de junho de 2019 | 06h00

TIVAT, MONTENEGRO - Várias dezenas de manifestantes se reuniram no calçadão da cidade costeira de Tivat, Montenegro. Atrás deles, como se fosse uma deixa, um grande iate estava chegando ao porto. "Eles querem transformar este lugar no próximo Monte Carlo", disse uma ativista local, Antonela Rajcevic, ao grupo. "É ótimo se você é um bilionário ou um milionário, mas não é um bom lugar para os cidadãos de Montenegro".

Rajcevic estava tentando manter viva as semanas de protestos contra o governo do presidente Milo Djukanovic. Mas com o verão se aproximando rapidamente, aqueles que esperam por uma "Primavera dos Bálcãs" provavelmente ficarão desapontados em Montenegro, assim como em outros lugares da antiga Iugoslávia.

Da Bósnia à Sérvia, e até mesmo na Albânia, os cidadãos saíram às ruas; centenas de milhares de pessoas durante meses. Os manifestantes são movidos pela sensação de que seus governos são liderados por cleptocratas com tendências autoritárias que se aproveitaram de jovens democracias com fraco controle do poder executivo.

Djukanovic, de 57 anos, talvez seja o caso mais marcante. Ao longo de três décadas no poder, Djukanovic conduziu o país à Otan em 2017 e colocou-o no caminho para se unir à União Europeia. Ao mesmo tempo, dizem seus críticos, ele transformou Montenegro em um estado de partido único, um verdadeiro feudo, onde seu controle quase total minou o Estado de Direito e enriqueceu a si mesmo e a sua família.

A irmã do presidente é a principal advogada do país, ajudando os investidores estrangeiros a se juntarem ao boom da construção que atravessa a costa. Seu irmão é dono do First Bank, a maior instituição financeira do país. Seu filho administra a maior usina de energia da nação. Seu sobrinho está envolvido nos maiores projetos de turismo. "Qualquer negócio sério feito em Montenegro tem que ter sua família ou amigos envolvidos", afirmou Srdan Kosovic, de 31 anos, o editor-chefe do Vijesti, um dos poucos meios de comunicação independentes remanescentes.

No seu auge, os protestos em Montenegro atraíram 25 mil pessoas num país de 620 mil. Na Bósnia e Herzegovina, os protestos antigovernamentais durante o inverno desapareceram e o país continua dividido em linhas étnicas. Na Albânia, os manifestantes organizam comícios há meses, exigindo a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama. Ainda assim, Rama, que é apoiado tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Europeia, parece seguro no poder.

E em Belgrado, a capital sérvia, dezenas de milhares de pessoas fazem demonstrações todos os sábados, mas o que originalmente era um movimento de base é agora, em grande parte, impulsionado por políticos da oposição. Muitos nos Bálcãs esperavam que a perspectiva de ingressar na União Europeia pudesse reforçar as novas democracias. Mas com autoridades em Bruxelas absortas em afastar ameaças de nacionalistas dentro do bloco, o principal interesse da União Europeia nos Bálcãs parece ser a estabilidade, mesmo à custa das instituições democráticas, dizem os críticos.

Em Montenegro, essa é a crença amplamente aceita. “As mudanças que o governo fez para apaziguar a União Europeia têm sido quase completamente cosméticas”, explicou Tatjama Crepulja, de 44 anos, um político da oposição na cidade costeira de Kotor. "Eles vão prender alguns 'pequenos peixes', mas contra a grande corrupção, a corrupção no coração deste governo, eles não fazem nada". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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