Luis Antonio Rojas para The New York Times
Luis Antonio Rojas para The New York Times

Na Venezuela, comédia vira arma contra repressão de Maduro

Comediante Nacho Redondo foi processado pelo governo e decidiu deixar o país

Jason Zinoman, The New York Times

19 de abril de 2019 | 06h00

Em novembro de 2017, o comediante de stand-up Nacho Redondo fez uma piada em uma universidade envolvendo as Paralimpíadas que irritou alguns espectadores e atraiu controvérsia na internet, algo que ele logo usou para promover suas próximas apresentações. Pode soar como uma história comum e até mundana. Mas, na Venezuela, onde Redondo, 32 anos, atraiu seguidores com seu humor grosseiro, o preço de uma piada ofensiva pode ser muito mais alto do que um boicote ou a indignação online.

Depois de ser criticado por políticos na televisão estatal, Redondo recebeu ameaças de morte, e foi processado pelo governo. Fugiu do país no mesmo dia em que o processo foi aberto, e não voltou mais. “Fiquei assustado e paranoico, temendo pela minha vida", disse Redondo via Skype a partir da Cidade do México, onde mora atualmente.

Em uma era de crescente autoritarismo em todo o mundo, a ameaça aos comediantes em países sem tradição de liberdade de imprensa pode ser severa. Na série Larry Charles’ Dangerous World of Comedy, da Netflix, Charles, que dirigiu “Borat", visita comediantes em alguns dos países mais repressivos, incluindo Somália e Iraque. “Comediantes foram assassinados em plena luz do dia em ambos os países", disse Charles pelo telefone.

Na Venezuela, país que vive caótica situação econômica e política, faz anos que o presidente Nicolás Maduro ataca os comediantes. Usando a mesma lei ampla acionada para processar Redondo, o governo prendeu dois bombeiros por terem publicado na internet um vídeo fazendo piada com Maduro.

A diretora do observatório dos direitos humanos da Universidade dos Antes, Mayda Hocevar, disse que muitos comediantes foram obrigados a deixar o país porque o governo “está fazendo da sátira um crime”, como disse ela em e-mail. “Antes de 2014, os comediantes na Venezuela evitavam o conteúdo político porque não queriam afastar seus fãs", disse Emiliana Duarte, autora e editora do site Caracas Chronicles. “Mas, quando Maduro começou a reprimir a dissidência, a comédia se tornou mais combativa.”

Redondo disse que, na Venezuela, a comédia se tornou uma forma de rebelião. “Na emissora de rádio em que eu trabalhava, tivemos uma reunião na qual disseram que não poderíamos usar o nome de Maduro", disse ele. “Então, nos palcos, os comediantes fizeram o oposto. É o único espaço onde não estamos sujeitos a nenhuma autoridade.”

Ele é um defensor improvável da comédia enquanto ferramenta de dissidência; seu material não costuma abordar a política, fazendo graça com temas sombrios como o câncer. Redondo disse que se tornou um alvo quando começou a fazer comentários a respeito dos protestos e do governo.

Para ele, o processo foi apenas um pretexto. “Eles não se importam com as pessoas com deficiência", disse ele, acrescentando em um e-mail: “A história da ‘piada com deficiência’ foi a fachada perfeita para ocultar o fato de eu ter me tornado um alvo por ser influente entre os jovens".

Para Redondo, a controvérsia despertada pela piada - um quadro no qual ele imagina uma corrida entre pessoas com deficiências - poderia ser esquecida. Mas então ele foi atacado no programa de TV do político Diosdado Cabello, amplamente considerado a segunda pessoa mais poderosa da Venezuela. Emiliana disse que Redondo estava apenas no lugar errado e na hora errada.

“Sua piada foi feita em um momento tenso e inflamado, quando mais de 130 pessoas morreram nos protestos", disse ela. “Fizeram do caso dele um exemplo.” Charles, apresentador da série da Netflix, disse que começou o programa se indagando se a comédia poderia sobreviver a governos como o da Venezuela. Ao final das gravações, estava convencido do poder de resistência dessa forma de arte. “O riso é tão importante quanto a respiração, a alimentação e o sono", disse ele. “A comédia sobreviverá se a humanidade sobreviver.” TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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