David Butow para The New York Times
David Butow para The New York Times

Nada de muro: Chef da televisão cria ponte culinária até o México

Ajudando os americanos a apreciarem a culinária do país latino

Kim Severson, The New York Times

01 Novembro 2018 | 06h00

TAKOMA PARK, MARYLAND - Pati Jinich nunca havia estado no Taco Bell. Entretanto, aqui estava ela, a autoridade da culinária mexicana que cresceu na Cidade do México foi encorajada pelos fãs a comer no local, depois que uma pesquisa da Harris Poll designou Taco Bell como o restaurante mexicano, e sua marca a mais popular nos Estados Unidos.

Então Pati, ex-analista de políticas públicas, que chegou ultimamente ao estrelato no mundo da culinária, decidiu que esta era a oportunidade perfeita para um pouco de "diplomacia do taco". Afinal, o Taco Bell serve mais de dois bilhões de clientes ao ano em 7 mil locais.

“Se eles comem Taco Bell o tempo todo, talvez queiram comer um taco de verdade”, ela disse. “Para mim, é uma porta de entrada. Talvez deva dizer, ‘Obrigada, Taco Bell, por permitir que as pessoas conheçam os tacos’”.

Pati, 46, mora em uma casa enorme, linda, em Chevy Chase, Maryland.

Os telespectadores do seu programa na televisão aberta, Pati’s Mexican Table”, que tem um público de 63,5 milhões nos Estados Unidos e no exterior, a reconheceriam. Quando ela não está filmando no México, filma na cozinha da sua casa.

Pati se mudou para Dallas há 20 anos, por causa da carreira do marido. Na época, não era uma cozinheira, mas começou porque era uma esposa, uma jovem mãe e tinha saudades de casa.

Os três filhos do casal aparecem frequentemente no seu programa e nos seus dois livros de culinária. 

O mais velho, Alan, 19, recentemente foi para a universidade, uma mudança de vida codificada em um episódio em que a mãe mostra para ele como escolher avocados.

No carro, até Taco Bell, no assento traseiro estavam seus outros dois filhos: Samuel, 16, apelidado Sami, e Julian, de 12, que todos chamam Juju. Eles também nunca haviam comido no Taco Bell.

“Tenho a melhor cozinha mexicana em casa”, disse Juju, “então não preciso ir ao Taco Bell.”

Pati teve aulas na L’Academie de Cuisine em Maryland. Cozinhar não é uma coisa natural para ela.

Em 2007, começou um programa de culinária em Washington.

Sua oportunidade na TV aconteceu quando Gordon Elliott, o produtor que deu início ao império de Paula Deen, assistiu a uma de suas aulas. Ele quis contratá-la, mas também quis que ela abrandasse o sotaque e exigiu que fizesse algo mais latino e não apenas mexicano. As duas coisas eram impossíveis para ela. Por isso, ela voltou sua atenção para a televisão aberta, onde o seu programa estreou em 2011.

Escreveu também dois livros de culinária, “Pati’s Mexican Table” e “Mexican Today”.

Na sétima temporada do programa, que começou em setembro, ela viaja para a Baja Peninsula e fala do muro na fronteira, um tema central da campanha do presidente Donald J. Trump.

Ao contrário de muitos dos seus amigos, achou que ele seria eleito. “Eu dizia: Quanto Trump ganhar e construir aquele muro, vou ter o mais incrível restaurante de tacos e ele vai querer experimentá-los”, afirmava. “Era brincadeira, e agora as pessoas perguntam: ‘E o seu restaurante de tacos?’ ”

A comida mexicana, segundo ela, hoje é mais popular do que nunca - uma ponte entre os seus dois países sobre a qual as pessoas de ambos os lados da divisão política poderão se reunir.

Pati se sente pressionada pelos puristas a afirmar que  os pratos indígenas da época pré-colonial são a única  comida mexicana autêntica.

“Outras pessoas me dizem que tudo o que está ao norte da fronteira, não é mexicano”, afirmou. “Eu acho que isto é totalmente falso. A imigração torna a cultura mais vibrante e mais viva de ambos os lados da fronteira”.

Isto nos leva de volta a Taco Bell. Ela entrou no restaurante com uma lista de 19  especialidades para experimentar,  todas sugestões dos fãs. O seu pedido encheu   quatro bandejas. A primeira mordida foi em um taco de carne moída em uma tortilla de farinha de milho mole. Ela piscou, depois encolheu os ombros.

Será que um molho ajudaria? Experimentou cada uma das quatro opções, desses que vêm em pacotinhos de plástico. “O que eu conheço de molho não tem nada a ver com esse molho”, afirmou.

No fim, a boa disposição que Pati tinha em relação a Taco Bell, como uma porta de entrada para a cultura mexicana, se transformou em tristeza. “Eles têm a responsabilidade de fazer uma coisa melhor”, afirmou. “Eles têm todos os recursos à sua disposição”. E quem poderia ajudar melhor senão os mexicanos?

“Há três milhões de mexicanos nos Estados Unidos”, ela disse. “Eles deveriam pedir um”.

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