Mehgan Murphy/Zoológico Nacional e Instituto Biológico de Preservação Smithsonian
Mehgan Murphy/Zoológico Nacional e Instituto Biológico de Preservação Smithsonian

Nada de ‘Rei Leão’ entre os leões de verdade

Se o filme fosse fiel à vida dos felinos, a matriarca Sarabi, mãe de Simba, é quem comandaria a alcateia 

Knvul Sheikh, The New York Times

07 de agosto de 2019 | 06h00

O Rei Leão conta com todo um elenco de personagens animais de aparência realista. Mas, de acordo com os zoólogos, a Disney usou de licença poética em se tratando do comportamento dos leões e sua dinâmica familiar. Se o filme fosse fiel à vida dos grandes felinos, a rivalidade entre o pai de Simba, Mufasa, e seu tio, Scar, não teria existido, e o filhote de leão não teria sido obrigado a partir tão jovem. Na verdade, Mufasa nem seria o líder do bando.

“É sempre uma matriarca que comanda a alcateia", disse Craig Saffoe, curador de grandes felinos do Museu Nacional Smithsonian, em Washington. A mãe de Simba, Sarabi, teria sido uma líder mais provável. E A Rainha Leoa seria um título mais adequado, destacou a National Geographic.

Ainda que os machos pareçam maiores e mais agressivos, as fêmeas são mais dominantes, disse Saffoe. Estão no comando da maior parte da caça e da criação dos filhotes. Também protegem o território contra a invasão de outras fêmeas e decidem quando novos machos devem ser aceitos no bando.

Em uma alcateia comum, há em geral entre três e seis fêmeas adultas. A maioria das filhotes fica na alcateia da mãe. Há também dois ou três machos adultos. Mas eles passam apenas alguns anos na alcateia - tempo suficiente para gerar descendentes - antes de buscarem outro bando.

Assim, se a Disney tivesse se espelhado no comportamento típico dos grandes felinos, Scar e Mufasa teriam coexistido sem problemas na mesma alcateia. Um aspecto da vida dos leões que a Disney retratou com precisão é a afeição demonstrada por Mufasa em relação ao filho. Os machos parecem gostar da proximidade com os filhotes, com muitas lambidas, afagos na cabeça e ronronadas. “É de uma fofura insuportável", afirmou Saffoe.

Ao ovular, as fêmeas preparam muitos óvulos que podem ser fertilizados por machos diferentes. “Os pais não sabem quais são de fato seus filhotes, e acabam decidindo cuidar de todos afetuosamente como via de regra", explicou Craig Packer, diretor do Centro de Pesquisa de Leões da Universidade de Minnesota.

Para os filhotes machos, essa afeição dura até completarem cerca de 2 anos. Então tem início a puberdade, e o surto de testosterona começa a ameaçar os adultos. Se tivesse vivido até Simba completar 2 anos, Mufasa teria expulsado o filho da alcateia. Então, Simba vagaria pela savana até entrar para outra alcateia, mais ou menos com 5 anos. “A dispersão dos machos é um mecanismo evolucionário que garante a diversidade genética entre os leões", destacou Kim Young-Overton, funcionária da Panthera, organização dedicada à preservação dos felinos selvagens.

Há atualmente menos de 20 mil leões na África, e a espécie é indicada como ameaçada de extinção de acordo com a União Internacional para a Preservação da Natureza. Paul Funston, diretor sênior do programa para leões da Panthera, espera que o novo O Rei Leão ajude a reacender o interesse e a compaixão dos humanos em relação aos leões. “A população de leões teve declínio de aproximadamente 50% desde o filme anterior", lançado em 1994, disse. 

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